A análise dos dados foi apoiada na Teoria das Representações Sociais proposta por Serge Moscovici, a qual norteia a realização deste estudo, por compreendermos a importância dos processos de comunicação para o desenvolvimento e construção do ser humano e partimos da premissa de que as Representações sociais como salienta Melo (2014), não só contribuem para a estruturação desses processos, como são por eles estruturadas.
Neste caminho téorico-metodológico, realizamos a análise manual das entrevistas semiestruturadas, a partir da construção de uma categorização “espontânea” que emergiu das falas dos professores no campo empírico através do processo interpretativo das representações sociais preconizado por Arruda (2014).
A autora acima trata o estudo da representação social como um exercício de interpretação que acontece ao longo da pesquisa, no caso dessa dissertação, especialmente através dos dados coletados na entrevista semiestruturada e dos resultados obtidos no diálogo dos achados do estudo com as bases teóricas. Parte ainda da premissa de que a representação social tem pertença e que “os grupos fazem interpretações “leigas” do mundo à sua volta, que são as representações sociais, e o /a pesquisador/a, como um/a antropólogo/a, as analisa para interpretá-las à luz da ciência” (ARRUDA, 2014, p.119).
No que tange à rota interpretativa da representação social, a autora defende que a interpretação consiste na costura da coleção de dados obtidos na fase de recolha e processados sob o olhar do pesquisador. Define, portanto, a representação social como a “forma de expressão criativa dos sujeitos, situada na interface do psicológico e do social” (p. 233).
Arruda (2014) considera que no trajeto interpretativo das representações sociais existe um trabalho de contextualização, através do qual ocorre a familiarização com os sistemas de significados, levando em consideração o movimento desse sistema e a fluidez entre sujeito e objeto. Desse modo, recorre ao que denomina espiral da contextualização para levantar as condições de produção das representações sociais (Figura 2).
Figura 2. A espiral da contextualização
Fonte: Arruda, 2014, p. 124.
De acordo com a autora, a representação gráfica acima mostra o percurso das ideias à respeito de um objeto, grupo, partindo do contexto espaço-temporal-imediato, “sem omitir a cultura que lhe é própria, com os seus modelos, valores, o saber local, e o imaginário social circulante” (p. 124).
O procedimento para levantar as condições de produção das representações sociais não se dá obrigatoriamente de dentro para fora, do centro para as pontas. Pode começar pela aproximação às ideias e sua história, e progredir para o objeto e seu cenário, mas também pode começar no sentido inverso, com a frequentação deste e depois a busca dos fios que tecem as teias de significado (ARRUDA, 2014, p. 124).
A observação da espiral ratifica a íntima e fluida relação entre objeto e sujeito. Nesse sentido, nesse percurso interpretativo a identificação das características do objeto em estudo, dos sujeitos da representação e do pesquisador contribuem para a visão holística e integradora do conjunto de dados em si.
O trabalho de reflexão e interpretação foi pautado nos estágios de interpretação dos dados preconizados por Arruda (2014, p. 139), conforme mostra a Figura 03 a seguir.
Figura 3. Estágios de interpretação dos dados.
Fonte: Elaborado pela autora, com base em Arruda, 2005, p. 139.
A partir da Figura 02 é possível depreender, como discute Arruda (2014) que no tecido da representação social, se faz necessária a identificação das relações que indicam um pensamento integrado pelo grupo pesquisado, desse modo o sentido atribuído pelo grupo a um determinado objeto extrapola o universo das palavras.
A autora insiste que “a fala não é a representação social” (p. 241) e que a análise do seu conteúdo envolve a compreensão do significado dos dados recolhidos. Desse modo, no percurso da interpretação, parte-se no início do trabalho, da contextualização concêntrica, da compreensão das características dos envolvidos e do objeto, para a partir da transcrição, escuta e leitura flutuante das entrevistas nos debruçarmos no primeiro estágio de interpretação dos dados – a categorização inicial.
Na medida em que o processo avança para categorias mais refinadas, seja aquelas encontradas na literatura – interpretação readequadora – ou mais adequadas ao objetivo do estudo, volta-se no terceiro estágio – interpretação integradora à base teórica, na busca por “padrões de regularidade articulados e não apenas repetições isoladas” (p. 252), na tentativa de “identificar o esquema figurativo ou o princípio organizador da representação, os processos de elaboração, a dinâmica da representação” (p. 252).
1° Estágio 2° Estágio 3° Estágio Estágio final
afinidade das falas
base na literatura, síntese mais adequada
simultaneidade de categorias
articulação geral com a teoria, os contextos categorização inicial categorização referenciada correlações e coocorrências Representação Social micro- interpretações interpretação
A identificação das relações que indicam um pensamento integrado é essencial no tecido da representação social – interpretação conclusiva, dessa forma na medida em que se avança no percurso interpretativo, torna-se indispensável o diálogo com as referências teóricas e os elementos originados da contextualização.
Arruda (2014) ressalta que a escolha metodológica preferencial dos pesquisadores que trabalham com representações sociais é a análise de conteúdo, exemplificando os caminhos escolhidos por autores como Bardin e Bauer. De modo que, durante a realização da análise de conteúdo, os pesquisadores possam extrair os significados e o conteúdo semântico das mensagens contidas explícita e implicitamente no conteúdo das entrevistas semiestruturadas.
Dessa forma, no exercício da interpretação dos dados recolhidos no presente estudo buscamos identificar temas relacionados ao ser professor na Educação Profissional em Saúde, os quais foram elencados e apresentados no capítulo 3, que trata dos resultados alcançados, juntamente com as categorias que emergiram na análise, a partir das mensagens advindas das falas dos partícipes desta pesquisa.
Tendo como base a análise dos dados obtidos nas entrevistas e a teoria das representações sociais, a interpretação dos dados foi consolidada à luz do diálogo com os pressupostos teóricos acerca da Educação Profissional/ Educação e Trabalho, pautados nos teóricos Machado (2008); Ramos (2007, 2011); Kuenzer (2008); Ciavatta e Ramos (2012); Pereira (2007, 2008) Pereira e Ramos (2008, 2013); nos estudos sobre Práticas Pedagógicas/Formação docente, a partir das ideias de Tardif (2014); Freire (2014; 2011); Pimenta (2012); Perrenoud (2000; 2002); Nóvoa (1995; 2008); nos trabalhos sobre Representações sociais ancorados nos estudos de Moscovici (2012, 2015); Jodelet (2001); Arruda (2014), entre outros, e nas fontes documentais que regulamentam a Educação Profissional e Tecnológica, especificamente em Saúde como a Lei nº 9.394/1996, Lei de Diretrizes e Bases da educação Nacional (LDB); Lei nº 11.741/2008 que altera a LDB objetivando redimensionar, institucionalizar e integrar as ações da Educação Profissional técnica de nível médio, da educação de jovens e adultos e da Educação Profissional e Tecnológica; o Decreto nº 5154/2004, que regulamenta os arts. 36 e 39 a 41 da LDB, no que se refere à Educação Profissional e Tecnológica e apresenta três formas de articulação entre a Educação Profissional técnica de nível médio e o ensino médio: integrada, concomitante e subsequente; e a Resolução CNE/CEB nº 6/2012, com fundamento no Parecer CNE/CEB nº 11/2012, que define Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Profissional Técnica de Nível Médio.