Bourdieu (2007a) não definirá a classe social em função de uma propriedade isolada. Além da importante classificação em função do volume e da estrutura do capital possuído, outro conjunto de fatores tem efeitos nas práticas, tais como o gênero, a etnia, a idade, a profissão, o estatuto matrimonial, a localização geográfica, etc.; e é precisamente a estrutura das relações entre todas essas propriedades que definirá a classe social.
O autor vai explicitar as relações complexas que existem entre as variáveis que caracterizam a posição de classe e as práticas mostrando que, muitas vezes, a eficácia explicativa de uma variável sobre uma prática pode dissimular a atuação simultânea de outras variáveis.
Não se pode justificar de maneira, a um só tempo, unitária e específica, a infinita diversidade das práticas a não ser mediante a condição de romper com o pensamento linear que se limita a conhecer as estruturas simples de ordem em relação à determinação direta para se aplicar a reconstruir as redes de relações emaranhadas, presentes em cada um dos fatores. A causalidade estrutural de uma rede de fatores é totalmente irredutível à eficácia acumulada do conjunto das relações lineares dotadas de força explicativa diferenciada e isoladas forçosamente pela necessidade da análise, ou seja, aquelas que se estabelecem entre os diferentes fatores, examinados um por um, e a prática considerada (BOURDIEU, 2007a, p. 101, grifo do autor).
O exemplo que ele traz é o de que o estabelecimento de uma relação entre a variável “categoria socioprofissional” e as práticas é tanto mais eficaz porque tal variável dissimula outras relações (que presidem a escolha da profissão), como a de gênero, por exemplo (BOURDIEU, 2007a).
Outro caso, a relação entre idade e remuneração, é entrecortada pela relação entre idade escolar, precocidade/atraso e capital cultural herdado; da mesma forma, sobre a remuneração pesam efeitos da escolha profissional que podem estar relacionados ao sexo e ao capital cultural de origem e escolar.
Quando ele estabelece que o capital escolar possui uma relação com o capital cultural herdado na família, ou seja, que ele pode ser a expressão do “nível econômico e social da família de origem”, teríamos que considerar como se deu a reconversão do capital cultural de origem em capital escolar, que não é automática nem garantida e, assim, pode ter sido realizada de maneira mais ou menos satisfatória (BOURDIEU, 2007a).
Tal reconversão sofrerá influência das classificações/disposições de gênero, que incidirão sobre as decisões e afinidades por certos tipos de capital escolar/profissional em detrimento de outros; os homens se identificando mais com a área científica e política, por exemplo, e as mulheres, com a área estética, literária, e de cuidados (BOURDIEU, 2007a).
Outro critério que interfere (no sentido de uma variação) sobre o habitus de classe e sobre as práticas distintas e distintivas dos indivíduos é sua localização num espaço geográfico socialmente hierarquizado que possibilita facilidades para alguns (dificuldades para outros) em relação ao acesso a aparelhos culturais e, assim, vantagens para o acúmulo de capital cultural.
De fato, as possibilidades de que um grupo venha a apropriar-se de uma classe qualquer de bens raros – e que avaliam as expectativas matemáticas de acesso – dependem, por um lado, de suas capacidades de apropriação específica, definidas pelo capital econômico, cultural e social que ele pode implementar para apropriar-se, do ponto de vista material e/ou simbólico, dos bens considerados, ou seja, de sua posição no espaço social e, por outro, da relação entre sua distribuição no espaço geográfico e a distribuição dos bens raros neste espaço (relação que pode ser avaliada em distâncias médias a bens ou equipamentos, ou em tempos de deslocamento – o que faz intervir o acesso a meios de transporte, individuais ou coletivos) (BOURDIEU, 2007a, p. 114).
Sobre a classificação dos indivíduos também incide seu estatuto matrimonial, de forma que, além de todas as suas propriedades “particulares”, os indivíduos serão caracterizados simultaneamente em função das propriedades do cônjuge e pelo contraste dessas em relação às suas (BOURDIEU, 2007a).
A lógica que preside as escolhas de consumo de alguns bens classificadores (comuns ou pessoais), por exemplo, deve ser relacionada ao “sistema de propriedades associadas aos dois cônjuges”; são “a resultante destas relações de força (denegadas) que definem a unidade doméstica” (BOURDIEU, 2007a, p. 103).
Para omitir a inclusão das propriedades adquiridas e/ou possuídas por aliança no sistema das propriedades que podem determinar as práticas e as propriedades, convém, como se faz habitualmente, esquecer de se questionar a respeito do indivíduo das práticas ou, mais simplesmente, se o “sujeito” interrogado é verdadeiramente o indivíduo das práticas a respeito das quais
está sendo questionado. De fato, basta formular a questão para perceber que um grande número de estratégias só se define, concretamente, na relação entre os membros do grupo doméstico (casal ou, às vezes, grande família); ora, esta relação depende, por sua vez, da relação entre os dois sistemas de propriedades associados aos dois cônjuges (BOURDIEU, 2007a, p. 103, grifo do autor).
Nesse sentido, há uma alusão de que uma maior autonomia nas escolhas políticas ou estéticas, por exemplo, dependerá do volume e da simetria/dessimetria dos capitais escolar e cultural possuídos pelos dois cônjuges:
[...] as possibilidades de que o efeito de atribuição estatuária que transforma a política em um assunto de homens serão tanto menores, quanto mais importante for o capital escolar da esposa e mais reduzida for, em seu favor, a diferença entre seu capital e o do marido (BOURDIEU, 2007a, p. 102).
No caso da pesquisa referente ao livro A distinção (2007a), a construção das classes sociais e de suas frações deu-se com base nos elementos definidores das categorias socioprofissionais, como a profissão e o nível de instrução, associadas a índices referentes ao local de residência, o sexo e a idade, e a informações que permitiam caracterizar a estrutura e o volume dos tipos de capital possuídos.
Ao designarmos estas classes – classes de agentes ou, o que dá no mesmo deste ponto de vista, classes de condições de existência – por um nome de profissão, limitamo-nos a tornar manifesto que, nas relações de produção a posição orienta as práticas por intermédio, principalmente, dos mecanismos que presidem o acesso às posições, além de produzirem ou selecionarem determinada classe de habitus. Mas, não se trata de retornar a uma variável pré-construída, tal como a “categoria socioprofissional”: de fato, os indivíduos reunidos em uma classe construída a partir de uma relação particular, apesar de ser particularmente determinante, trazem sempre com eles, além das propriedades pertinentes que se encontram na origem de sua classificação, algumas propriedades secundárias que, deste modo, são introduzidas clandestinamente no modelo explicativo. O mesmo é dizer que uma classe ou uma fração de classe é definida não só por sua posição nas relações de produção, tal como pode ser identificada através de índices – por exemplo, profissão, renda ou, até mesmo, nível de instrução -, mas também pela proporção entre o número de homens e o de mulheres, correspondente a determinada distribuição no espaço geográfico (que, do ponto de vista social, nunca é neutra), e por um conjunto de características auxiliares que, a título de exigências tácitas, podem funcionar como princípios reais de seleção ou exclusão sem nunca serem formalmente enunciados – esse é o caso, por exemplo, da filiação étnica ou do gênero; com efeito, inúmeros critérios oficiais servem de máscara a critérios dissimulados, de modo que o fato de exigir determinado diploma pode ser a maneira de exigir, efetivamente, determinada origem social (BOURDIEU, 2007a, p. 97, grifo do autor).
As propriedades pertinentes de uma classe estão imbricadas de maneira importante, influenciando-se mutuamente. Mas tais fatores possuem pesos funcionais diferenciados com precedência para o volume do capital possuído (BOURDIEU, 2007a).
Na argumentação de Bourdieu (2007a, p.102), o volume global de capital definirá não só as classes sociais, de forma genérica, como será fundamental para conformar e caracterizar o efeito de outras classificações (sexual, etária, geográfica, etc.) sobre as práticas, cujas “coações” se efetivariam de modo diferenciado para cada classe. Por isso, ele dirá que o valor e o significado das subdivisões a partir de características secundárias será diferente para cada classe.
A relação entre as propriedades fundamentais de uma classe e as características secundárias pode gerar subdivisões da classe em frações caracterizadas pela maior frequência de uma propriedade do que outra, é assim que ele vai subdividir a pequena burguesia de acordo com a origem social e a idade (e sua relação com o futuro).
Entretanto, Bourdieu (2007a) estabelece que a relação entre os fatores definidores de uma classe de agentes, sejam eles relativos à sua posição ou às suas características secundárias, não geraria indeterminação e heterogeneidade, mas sobredeterminação.
Através de cada um dos fatores, exerce-se a eficácia de todos os outros, de modo que a multiplicidade das determinações conduz não à indeterminação, mas a sobredeterminação: assim, a sobreposição das determinações biológicas ou psicológicas com as determinações sociais na formação da identidade sexual definida do ponto de vista social – dimensão fundamental da personalidade social – é apenas um caso particular, apesar de ser particularmente importante, de uma lógica que se encontra, também, em ação no caso das outras determinações biológicas – por exemplo, o envelhecimento (BOURDIEU, 2007a, p. 101).
Sem desconsiderar o que o autor argumenta acima, e ao mesmo tempo sem generalizar, poderíamos partir da ideia que ele também apresenta de que as variações individuais do habitus de classe estão relacionadas à posição ocupada pelo agente no interior da sua classe e à sua trajetória social, para pensar se a relação entre os diferentes fatores pode estar na origem não só das variações individuais do habitus de classe em função das posições hierarquizadas dos agentes na classe de pertencimento, como também estar ligada a processos de desclassificação social (ascensão ou declínio), ao potencializar certas vantagens ou desvantagens relacionadas ao volume e à estrutura de capitais herdados, provocando um desvio da trajetória coletiva do grupo de origem? Penso, por exemplo, no caso da necessidade de reconversão do capital herdado para escapar do declínio social, se os agentes da “mesma” classe ou da mesma família
não teriam uma capacidade diferencial de reconversão relacionada às propriedades secundárias que possuem.
Do ponto de vista da eficácia da transmissão de uma herança e das estratégias de reprodução do núcleo familiar, poderíamos indagar se os herdeiros – possuidores de características secundárias diferentes – herdariam a herança da mesma forma, ou se haveria uma relação dialética e relativamente indeterminada entre as características secundárias e o “bom” aproveitamento da herança em virtude, por exemplo, da funcionalidade destas aos campos em que serão implementadas.