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As mudanças na rede bancária e, por consequência na rede urbana, ocorridas ao longo das duas últimas décadas impactaram fortemente na atual topologia do sistema bancário na região estudada. Tendo como parâmetro os valores em caixa por munícipios, variável essa escolhida por ter relação direta com o sistema financeiro, percebe-se, como já dito anteriormente, a partir das Figuras 16 e 17 que, embora a participação das capitais ainda seja relevante como polos centrais, houve uma redução de 20% em sua participação relativa no montante de dinheiro em caixa.

Tal constatação decorre de um aumento na participação de cidades do interior, de modo a demonstrar o fenômeno da interiorização da rede bancária, como consequência da financeirização, que pode ser entendida como a participação e a dependência cada vez maior do sistema financeiro na vida cotidiana de toda a população, tão característico do nosso período técnico-científico-informacional (SANTOS, 2008).

Assim, pode-se afirmar que as mudanças de fluxo ocorreram devido ao fenômeno da financeirização somada à consequente expansão da rede bancária para o interior, com a criação de mais agências fora das capitais, correspondendo ao aumento da relevância de cidades-polo interioranas, como caracterizado acima e em tópico específico.

A forma como ocorre a gestão do território pelas instituições bancárias, a seletividade espacial utilizada na expansão da rede bancária, bem como a marginalização, quando há uma redução na rede em decorrência, dentre outros fatores, das ocorrências criminais ora estudadas, é um exemplo claro, também, daquilo que Milton Santos (2006) denomina verticalidade, um espaço de fluxos através do qual regiões de maior centralidade criam as horizontalidades, os espaços da contiguidade, regulando-os e difundindo a racionalidade hegemônica nos aspectos

da vida social, econômica, política e cultural, instalando tal racionalidade na constituição do território.

Desse modo, a expansão e a diminuição do número de agências bancárias no interior do recorte geográfico estudado refletem essa racionalidade hegemônica, independente dos interesses locais, através das práticas espaciais de seletividade e marginalização, essa última ainda que em menor intensidade.

Os fluxos, então, impactam a configuração territorial, e os fixos, interagindo, formam os sistemas de ações e objetos que formam o espaço geográfico em estudo. E esse espaço geográfico impacta no objeto da presente pesquisa, pois altera-se um dos lados do Triângulo do Crime, aumentando-se o número de vítimas, pois cresceu, desse modo, a rede bancária, segundo a racionalidade hegemônica, demonstrando o impacto da verticalidade sobre o recorte geográfico estudado.

Assim, houve, portanto, um aumento específico da rede financeira, em especial através do aumento do fixo agências bancárias em todo o território nacional e, particularmente, no recorte estudado (CONTEL, 2018).

Tal expansão está representada geograficamente na Figura 41, na qual se apresenta um mapa contendo as agências bancárias que foram inauguradas desde 2010 até agosto de 2017:

Figura 41 – Mapa de agências bancárias inauguradas entre janeiro de 2000 e abril de 2017

Essa distribuição territorial impacta fortemente no fenômeno de roubo a bancos na região estudada. Para se buscar uma explanação para tal fato, é interessante recorrer à Teoria da Criminologia Ambiental, mais uma vez.

Segundo ela, como já dito, para a ocorrência de um delito devem coincidir, ao mesmo tempo, três fatores: um agente motivado, uma vítima adequada e um ambiente propício ao cometimento do delito.

Assim, no caso de roubo a bancos, devem ocorrer três fatores: um criminoso que, segundo a Teoria das Atividades Rotineiras, esteja dentro de sua área de atividades, um ambiente favorável, ou seja, a área de atividades do agente, e uma vítima adequada, aí entendida, também como objeto do crime.

No caso em tela, o aumento exponencial do número de agências bancárias no recorte estudado, especialmente no interior, permitiu um crescimento significativo da quantidade de vítimas potenciais em um ambiente que, como descrito anteriormente, apresenta condições favoráveis a esse tipo de delito.

A fim de representar de forma cartográfica o acima exposto, elaborou-se a Figura 42, através da qual pode-se ver o impacto do aumento exponencial dos fixos agências bancárias sobre o fenômeno roubo a banco:

Figura 42 – Mapa de hotspots de roubos a bancos das ocorrências de 2014 e 2015 e das agências bancárias

inauguradas entre janeiro de 2000 e abril de 2017

Na figura 42 representou-se o total de agências inauguradas entre janeiro de 2000 e abril de 2017 e o hotspot das ocorrências de roubos a bancos nos anos de 2014 e 2015. As manchas criminais (hotspots) foram construídas a partir do emprego do algoritmo denominado Estimativa de Densidade de Kernel (KDE, da sigla em inglês) aplicado sobre os pontos de ocorrências de roubos a bancos no período especificado.

Tal algoritmo, quando aplicado sobre a disposição espacial das ocorrências dos crimes estudados, gera uma superfície em que cada pixel possui um escore de risco, calculado a partir da densidade dos pontos em que os delitos estudados foram cometidos. Ou seja, o risco de ocorrências futuras é calculado somente a partir da localização das ocorrências anteriores. Assim, deixa de considerar outras variáveis espaciais que impactam o fenômeno estudado (JOHNSON, 2017).

O impacto da rede bancária, medida a partir do volume de dinheiro em caixa, no fenômeno dos roubos a bancos também pode ser mais bem visualizado a partir da Figura 43, onde se representa o mapa com os hotspots dos roubos a bancos e os municípios-polo da rede urbana em 2018, característica inferida a partir da rede bancária, por sua relação estreita com o objeto.

Figura 43 – Mapa de hotspots de ocorrências de roubos a bancos nos anos de 2014 e 2015 e dos municípios-

polos da rede urbana em 2018

Como se vislumbra, as áreas com maior concentração de ocorrências de roubos a bancos ocorrem ao redor dos próprios municípios-polo da rede urbana.

Interpretando-se o descrito acima a partir de uma análise geográfica baseada na Teoria do Espaço de Milton Santos, a rede territorial urbana e a crescente financeirização impactaram fortemente nas dinâmicas espaciais da região. Os fluxos financeiros crescentes em direção ao interior, como demonstrado nas Figuras 16 e 17, levaram ao crescimento de novos fixos, as agências bancárias.

Esses novos fixos, ao exercerem suas funções, alteraram significativamente os processos existentes no território ao aumentarem a circulação financeira. Contudo, por uma série de fatores já descritos anteriormente, a configuração territorial dessa área, bem como os fluxos ali existentes permitiram o surgimento de novos processos que levaram à ocorrência do evento aqui estudado, isto é, o roubo a banco.

Retornando à Teoria da Criminologia do Ambiente, verifica-se que os impactos da financeirização e interiorização das agências bancárias nos fluxos e fixos territoriais provocaram mudanças no espaço geográfico, nos sistemas de ações e objetos, no ambiente, alterando as variáveis que levam à ocorrência de um delito. Desse modo, verifica-se que a Teoria das Atividades Rotineiras é adequada para explicar as atividades criminosas aqui estudadas, já que ela propõe que mudanças nos padrões de trabalho, moradia, circulação etc. afetam o posicionamento das variáveis para a ocorrência de um delito (COHEN & FELSON, 1979).

Contudo, como híbrido formado pelos sistemas de ações e de objetos, o espaço geográfico e as consequentes práticas espaciais das instituições financeiras não só impactam a forma pela qual as organizações criminosas utilizam o terreno a seu favor, mas também as ações delituosas impactam diretamente na forma de organização territorial das instituições financeiras.

Há, de fato, nos anos mais recentes, um grande impacto da atuação das organizações criminosas sobre a gestão do território dos bancos. A menção desse impacto é relevante para a presente pesquisa, pois demonstra, de forma patente, como se dá a formação do território a partir das ações humanas e como os impactos causados pela prática de crimes podem influir nas práticas territoriais, demonstrando, mais uma vez, a importância do estudo do espaço geográfico para a compreensão do fenômeno criminal e suas consequências.

Com o aumento de delitos contra as instituições bancárias, a forma de ocupação do território por essas corporações, marcado pela grande pulverização de agências, muitas delas

em cidade pequenas que, por sua vez atendem a um pequeno número de pessoas e são mais expostas aos criminosos como já dito, tem se mostrado cada vez menos interessante a essas corporações.

Desse modo, como forma de diminuir a exposição aos atos ilícitos ora estudados, tem sido prática reiterada o fechamento de agências bancárias, expressando aquilo que se convencionou denominar de marginalização espacial.

À medida que determinados lugares são considerados pouco atrativos às atividades bancárias, seja pela redução da atividade econômica, seja pelo maior risco de ocorrência de um roubo a banco, está ocorrendo um processo de fechamento de agências, em especial nas pequenas cidades, onde, conforme já dito, há um maior risco de ocorrência de um roubo a banco.

Tal prática tem gerado diversas consequências negativas a uma parcela considerável da população que era atendida pelas agências cujas atividades foram encerradas. Essas pessoas têm sido obrigadas à realização de grandes deslocamentos para a realização das mais simples atividades que, por conta da já mencionada financeirização, passaram a depender de instituições financeiras.

Há, ainda, uma diminuição na circulação de dinheiro, o que impacta diretamente nas condições do comércio local, que vê reduzidas suas possibilidades de negócios.

A fim de comprovar a mencionada prática espacial, qual seja, a marginalização, realizou-se pesquisa junto à Polícia Federal a respeito do fechamento de agências do Banco Postal, correspondente bancário do Banco do Brasil operado nas agências dos Correios, bem como de agências próprias do Banco do Brasil no estado do Rio Grande do Norte. Tais dados foram produzidos pelas gerências de segurança dos Correios e do Banco do Brasil.

Em relação ao Banco Postal, que normalmente funciona em municípios não atendidos pela rede bancária própria, de agosto a outubro de 2017 foram fechadas 88 agências de um total de 181 que funcionavam até julho daquele ano, o que representa uma redução de 48% na cobertura desse tipo de serviço. Tal fato foi motivado, como já dito, dentre outras coisas, pelo elevado risco de roubo a essas agências, localizadas, em grande parte, em cidades pequenas, fato confirmado pela gerência de segurança dos Correios.

Já em relação ao Banco do Brasil, das 78 agências em funcionamento no Rio Grande do Norte, foram encerradas as atividades, total ou parcialmente, em 8, o que representa uma redução de pouco mais de 10% na cobertura da rede bancária tão somente no ano de 2017.

Explicita-se, assim, a interação entre as práticas espaciais, a gestão do território das organizações bancárias e a atuação das organizações criminosas de roubos a bancos, como não

poderia deixar de ser, vez que o território usado é sinônimo de espaço geográfico, esse híbrido formado pelos sistemas de ações e de objetos.

Procurou-se, no presente tópico, discorrer como a configuração territorial, as práticas espaciais dos principais atores aqui descritos, bem como as interações entre esses, integrando os sistemas de ações e de objetos, contribuem para a topologia das forças de segurança, da rede bancária e consequentemente para a topologia do crime aqui estudado.

Destacou-se, pois, como os processos territoriais contribuem para a formação da estrutura que se apresenta nesta pesquisa.

Contudo, as variáveis aqui expostas não contribuem de forma igualitária para a formação da supracitada estrutura. No tópico seguinte, discute-se o peso de cada uma dessas variáveis no fenômeno estudado.

Tal análise é relevante, pois aponta para a força do impacto que as ações da política pública terão sobre as ações criminosas aqui descritas, já que as ações se destinam a resolver nós críticos do problema, devendo ser priorizadas aquelas de maior impacto e com maior viabilidade, conforme o Método PES preconiza.

Ademais, a construção de um escore de risco baseado tão somente na densidade de ocorrências anteriores, como acontece nos mapas das figuras 42 e 43, nos quais se utilizou a técnica denominada KDE, apresenta algumas limitações, embora seja o método mais difundido na análise criminal e no planejamento de ações policiais, já que aproveita dados espaço temporais de crimes anteriores e somente como esses dados busca calcular o risco atual e/ou futuro (JOHNSON, 2017).

Essa é uma das razões que, aliada a avaliação do impacto das variáveis espaciais sobre o fenômeno empregado, leva a utilização da inferência espacial para o cálculo do mencionado escore de risco.

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