2. ENTRE SUJET ET CONTEXTE : DE L’ETHIQUE A L’EQUIVALENCE
2.1 Sujet et contexte
2.1.4 Contexte et écriture
2.1.4.2 Skopos : le but de la traduction dans l’espace d’arrivée
Considera-se que a divulgação da deslocação às zonas rurais e das abordagens discursivas do Presidente tenham sido um mecanismo de consolidação identidade nacional, com a transmissão de mensagens e atitudes que dão ênfase ao sentimento de pertença colectiva (memória).
É sabido que, de um modo geral, o contexto africano é caracterizado por diferentes e marcantes traços linguísticos e étnicos, facto que constitui um enorme desafio para qualquer governo, pelo que, para ter sucesso na sua actuação, deverá pensar na questão da identidade nacional, em termos de unidade na diversidade. A este respeito, Armando Guebuza argumenta que:
“A unidade nacional, vista como unidade de diferentes, diferentes na língua, diferentes na religião, diferentes nos costumes… constitui a base da nossa força, da nossa energia. Visto desse ângulo, não há ninguém que tem motivo para estar fora. Pelo contrário, nós queremos que todos estejam dentro, resultante desse intercâmbio de diferentes. Quando falo de diferentes, não estou a falar de direitos, estou a falar de pessoas, cada um com a sua postura assim como numa casa as pessoas são diferentes, a mãe, o pai as crianças são diferentes. Eu penso que nós estamos unidos, não tenho dúvidas disso, mas nós precisamos de consolidar e reforçar essa unidade. Mesmos nos países que se tornaram independentes muito antes de nós, a questão que se coloca em permanência é sempre a unidade nacional” (Guebuza, Entrevista: 29/01/2016).
A questão da construção identidade da nacional tem suscitado amplos debates de difícil consenso. No entanto, a maior parte dos estudos realçam o sentimento de “pertença” colectiva. Ou seja, quando se refere à questão da identidade nacional, segundo Jenkins (1994), pressupõe-se a auto-identificação, similitude – “Nós” – e constatação da diferença – os “Outros”. Auto-identificação e percepção da diferença inscrever-se-ão de modo distinto na duração temporal.
Entretanto, julga-se pertinente ressalvar dois aspectos peculiares sobre a identidade nacional: ela se mantém no tempo, adequando-se a novas realidades históricas, que supostamente a faria desaparecer (no caso das nações: a globalização, a hibridação cultural, a perda de poder soberano dos estados, a integração em unidades mais amplas, como a União Africana). Por outro lado, é possível manter uma identidade comum, mesmo quando existem grandes diferenças sociais (ricos, pobres, católicos, protestantes, literatos, analfabetos). Contudo, há elementos específicos comumente ligados à identidade nacional,
nomeadamente: território, memória, língua, hábitos, símbolos, sendo que muitos actores ressaltam a memória nacional (Smith, 2004; Gillis, 1994; Candau,1998).
“Poderíamos quase dizer: sem memória não há identidade; sem identidade, não há nação” (Smith, 2004: p. 75). A propósito da nação, importa desde já clarificar um aspecto que tem sido recorrente: confundir o Estado com a Nação. Enquanto o Estado se refere ao aparelho político (instituições governamentais e funcionalismo público) que governa um dado território, cuja autoridade assenta na lei e na capacidade para usar a força, a Nação é “um grupo formado a partir de um ou vários grupos étnicos, e normalmente identificado por uma literatura própria [que] possui ou reivindica o direito à identidade e à autonomia políticas enquanto povo, bem como o controlo de um dado território…” (Hastings, 1997 apud Sobral, 2006: p. 9).
Após esta breve contextualização sobre a unidade nacional e voltando as atenções para Moçambique, importa dizer que este país é uma nação nova, de apenas 40 anos64. Fazendo-se
uma breve resenha histórica do incipiente fenómeno de identidade nacional distinguem-se três fases, do surgimento, em 1975, à actualidade. A primeira dessas fases reporta-se aos anos 50 e 60 do séc. XX quando, à semelhança da maioria dos países africanos, o sentimento de identidade nacional de Moçambique emergiu da luta pela independência do colonialismo europeu (Ki-Zerbo, 2007).
Numa segunda fase, na qual foram definidos os principais símbolos da identidade nacional (ex. bandeira, hino, emblema), tinha-se no cerne da nação a unidade nacional, conforme defendeu Samora Machel no seu discurso de tomada de posse ao definir “[...] o racismo, o regionalismo e o tribalismo como inimigos que deveriam ser combatidos ao mesmo título que o colonialismo”65 (Machel,1975 apud Muiuane, 2009: p. 478), tendo reafirmado este ideal por
diversas ocasiões e de diferentes formas, como quando disse num dos seus discursos: “entramos em Nashingweya como Macondes, Macuas, Nianjas, Manicas, Shanganas, Ajauas, Rongas, Senas; saímos moçambicanos. Entramos como negros, brancos, mistos, indianos; saímos moçambicanos” (Machel, 1981 apud Paredes, 2014: p. 150).
A língua portuguesa, herdada do colonialismo, desempenhou um papel muito importante neste período. Estima-se a existência de 43 línguas nacionais no país, que embora a maioria seja de origem bantu, são completamente distintas uma da outra. Terá sido por isso que a solução encontrada foi adoptar, logo na primeira Constituição (1975), a língua portuguesa como língua nacional, por ela estar mais espalhada pelo país, contrariamente às línguas nativas, circunscritas às localidades.
64 10 Após a luta armada de libertação nacional conduzida, pela Frente de Libertação de Moçambique
(FRELIMO) contra o colonialismo português (25 de Setembro de 1964 a 8 de Setembro de 1974), a independência de Moçambique foi proclamada a 25 de Junho de 1975, por Samora Machel, passando a designar-se República Popular de Moçambique.
65 Existe uma grande heterogeneidade étnica e linguística na população moçambicana. Só para citar um
A terceira fase seria a que inaugura a democracia em Moçambique, estendendo-se até aos dias de hoje. Os 16 anos de guerrilha sangrenta entre os moçambicanos (FRELIMO e RENAMO) nos anos 70 e 80 do século passado, reabriram algumas fissuras político-sociais já conhecidas, nomeadamente, o regionalismo e o tribalismo. De modo que era preciso resgatar e reforçar os elementos de unidade da nação. Aliás, de acordo com Ngoenha (1998: p. 31) a existência da nação moçambicana dependerá da capacidade do projecto político resolver as rivalidades e os conflitos entre grupos sociais, religiosos, regionais ou étnicos, segundo regras reconhecidas como legítimas.
Nesse contexto, anota-se o facto de, desde o ciclo presidencialista de Joaquim Chissano, terem sido postas em marcha os desígnios de diálogo, de promoção da paz e de reconciliação entre moçambicanos, principalmente na arena política. A devastação da guerra dos 16 anos desencadeou nos moçambicanos um forte desejo de paz e era chegado o momento para transpor os abismos da divisão tribal ou regional, abrindo uma nova era de um povo unido para a reconciliação nacional, para a consolidação da nação. Armando Guebuza, com as PAI, veio reforçar aqueles desígnios, mas de forma mais directa e acentuada, através da interacção directa com o povo, na medida em que “os moçambicanos, individualmente e organizados, podem […] transmitir o seu sentimento, aconselhando o Presidente Guebuza e, assim, dar contributo na governação (Magaia, 2013: p. 97).
A construção de uma identidade nacional obedece em grande medida à actuação do poder estatal (Sobral, 2006: p. 23). Com efeito, o pressuposto da consolidação da nação moçambicana advém precisamente do sentimento generalizado, iniciado em 1975, de se resgatar os elementos de unidade que reduzam as assimetrias políticas, sociais e económicas entre os cidadãos. Nesses termos, a base de partida seria prover um ambiente de paz e qualidade de vida aos moçambicanos, a todos os níveis, mas com primazia para as zonas rurais onde vive a maioria e mais vulnerável camada social, através do acesso à educação, saúde e emprego, tal como sugerem os objectivos da Presidência Aberta e Inclusiva de Armando Guebuza.
No que concerne ao combate contra a pobreza, era entendimento de Guebuza incutir nos moçambicanos o desejo pelo desenvolvimento, porque a pobreza, conforme repetiu muitas vezes, estava na mente dos moçambicanos e era preciso que todos se libertassem dela com o trabalho, a partir de uma forte aposta em capacidades e iniciativas de incentivo à produção, explorando-se as potencialidades de cada distrito, o pólo de desenvolvimento da nação:
Nestas visitas pelo Moçambique adentro, também reiterámos que a descentralização e desconcentração de competências e recursos dos governos locais fazem parte de um conjunto de compromissos que assumimos e constituem indicadores para que o distrito desempenhe o seu papel de pólo de desenvolvimento. Pretendemos assim conferir confiança e gerar capacidades locais para a exploração dos recursos disponíveis. Este processo induz a
sustentabilidade na planificação, execução e controlo das actividades (Guebuza, apud CEDIMO, 2008: p. 398).
Nestes termos, pode se afirmar que as PAI, enquanto estratégia de comunicação governamental, desempenharam um papel importante no esforço para construir a identidade nacional. A aproximação da elite política aos cidadãos demonstrou o desejo de embarcar numa relação de confiança: um objectivo clássico das relações públicas.
De acordo com a visão de relações públicas de Taylor e Kent (2006) e Taylor (2000): “a comunicação enquanto ferramenta de construção da identidade nacional deve ser entendida como aquela que cria e mantém relações, e não simplesmente como um canal ou um médium para os esforços de comunicação governamental” (Taylor, 2000: p. 357).
Taylor (2000) segue uma aproximação integracionista ao papel da comunicação na construção da nação (Deutsch, 1966a; Deutsch, 1966b), que olha para a nação como uma entidade construída comunicativamente. Contrariando os estudos de Van Leuven e Pratt (1996), que mostraram que os países do 3º mundo tendem a aderir a modelos unidireccionais de comunicação (agente de imprensa, informação pública), Taylor defende a adopção de um modelo simétrico bidireccional de comunicação (Grunig & Grunig, 1992), a fim de promover a relação entre a organização e os seus públicos com base na negociação, confiança e respeito mútuo.
Para Taylor (2000), as relações desempenham um papel central no processo de construção nacional. No seu ensaio, a autora discute cuidadosamente a importância de relações públicas centradas no relacionamento, especialmente em democracias propensas a conflitos étnicos e violência e sugere que o processo de construção da identidade nacional será mais efectivo se adoptar uma abordagem de relações públicas centrada na criação e gestão de relacionamentos, no aumento da participação e incentivo à cooperação entre o governo e o seu povo.
Portanto, entende-se que as principais temáticas das PAI, nomeadamente, o combate contra a pobreza e a unidade nacional, desempenharam um importante papel de aproximação dos moçambicanos, pois que alavancou o sentimento de pertença da nação como um todo. Com esta campanha política, os moçambicanos, do norte, centro ou sul, poder-se-ão ter apercebido de que tinham os mesmos problemas, embora a solução fosse resolve-los de forma contextualizada, dadas as diferenças étnica e social das populações.