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Chapitre II: Traitement biologique par

III.1. Situation géographique

A informação no atual período de globalização é caracterizada por meio de quatro atributos principais: ela é veloz80, já que é impulsionada pelos mais modernos meios de comunicação; é invasiva, porque atinge uma infinidade de lugares pelo mundo de forma quase instantânea e diversa; e é inevitável, porque se tornou uma marca indelével da paisagem contemporânea e das relações sociais.

Estes predicados têm engendrado uma panaceia midiática fortalecida pela difusão cada vez mais capilar e quase que instantânea das chamadas “fake news” (notícias falsas). Muitas dessas informações, face ao seu elevado número e frequência de compartilhamentos, não são comprovadas ou corrigidas pelo dado correto.

Este contexto cria, em certas situações, ambientes férteis para se propagar o ódio e o preconceito, e para se tecer polarizações das mais diversas. Tal cenário imediatista e raso, é perfeito para aqueles que “não têm tempo” ou interesse para se aprofundar sobre o que é discutido. A busca pelo conhecimento através do embate de múltiplas visões de mundo munidas de materiais e métodos fidedignos é cada vez mais raro de acontecer. Sem isso, não é possível lançar mão de algum tipo de juízo de forma ponderada e consciente.

Como veremos mais adiante, o uso indiscriminado das redes sociais e aplicativos de comunicação que deflagram todo tipo de intencionalidade, passou a ser o grande alvo das autoridades brasileiras. Amparadas pela recente “lei antiterrorismo”, elas têm monitorado atividades suspeitas promovidas por alguns indivíduos que estariam envolvidos com o jihadismo internacional e que poderiam executar alguma ação violenta em território nacional.

Os ambientes virtuais têm contribuído de modo eficaz para a propagação do radicalismo islâmico ainda que não contíguo territorialmente. Neste caso, as comunidades locais se tornam coadjuvantes no processo de uma eventual doutrinação religiosa, posto que, como veremos, alguns dos investigados ou têm pouco ou nenhum vínculo com centros islâmicos, ou sofrem de desequilíbrios psiquiátricos. No entanto, entre eles havia uma pretensa forma de cooperação via redes sociais e aplicativos de comunicação, meios pelos quais foram investigados e em alguns casos, detidos pela Polícia Federal.

O germe da ignorância, que tantas vezes foi suscitada por muitos dos meus informantes a respeito do islam e dos muçulmanos, está incubada no seio de uma sociedade que paulatinamente tem dado mais crédito ao que se veicula por redes sociais e whatsapp, do que em pesquisas acadêmicas, publicações de canais probos e profissionais que dedicam grande parte de suas vidas em explicar fenômenos sociológicos, históricos, geográficos e religiosos.

Há muitos exemplos que ilustram essa situação. Um deles é a existência de um vídeo postado no Youtube e que circulou pelas redes sociais em 2017, em que a embaixada Palestina em Brasília/DF é mostrada ao fundo da gravação, e, diante dela, em primeiro plano, uma mulher vocifera dezenas de frases depreciativas em relação aos palestinos e ao governo brasileiro, que estaria “patrocinando o terrorismo no Brasil”. A mulher diz:

eu quero dizer para vocês: São Paulo, Belo Horizonte, Rio, sul do Brasil, todos os lugares. Já tem terroristas espalhados querendo nos impedir de termos liberdade em nosso país. Porque é assim que eles chegam: eles chegam como imigrantes, querem implantar sua cultura, querem ensinar o árabe [...].

A embaixada, quando da sua inauguração em 2016, causou um certo furor entre os meios mais conservadores e retrógrados do país, que alardearam de forma inconsequente, ser “área soberana do Hamas no coração de Brasília”81.

O compartilhamento desses tipos de mensagens, na visão das comunidades islâmicas, serve apenas para reforçar a ignorância por parte da população local e os preconceitos muitas vezes pré-existentes. As relações “árabe-terrorista” ou “muçulmano-terrorista, se tornam sintagmas naturalizados e de uso banal, que rapidamente “colam” nos que seguem o islam. Por sua vez, as comunidades islâmicas, que igualmente dipõem de modernos meios de comunicação e cada vez mais os utilizam como plataformas de divulgação da cultura árabe e do islam82, como o faz com frequência o Sheikh Jihad em sua página no Instagram, em que responde a diversas dúvidas sobre a religião, acabam por não ter a mesma visibilidade ou número de “likes”, como

81https://abr.ai/2CWuor0 (acesso em 18.10.2018).

se diz no linguajar digital. Em certos casos, quando oferecem contra-argumentos também são interpretações demasiado enviesadas, compreensíveis como um mecanismo de defesa.

Para Bauman (2000, p.188),

The game of domination in the era of liquid modernity is not played between the “bigger” and the “smaller”, but between the quicker and the slower. Those who are able to accelerate beyond the catching power of their opponents’ rule. When velocity means domination, the “appropriation, utilization and population of territory” becomes a handicap - a liability, not an asset83.

Um exemplo dessa velocidade e da forma como a informação pode implicar dialeticamente o local e o global, pode ser visto a partir do ataque terrorista ao periódico francês Charlie Hebdo em 2015 que repercutiu intensamente na mídia mundial.

As redes sociais disseminaram pelo mundo inteiro o slogan “Je suis Charlie84” em apoio às vítimas, ainda que muitos sequer soubessem do conteúdo veiculado pelo jornal satírico e muito menos da existência do mesmo. Ao mesmo tempo, atentados na Turquia, Paquistão, ou Líbia, não têm a mesma repercussão. A histeria e a comoção seletivas, marcas deste período, são condenadas pelo sheikh Jihad Hammadeh, que mostrou a seguinte intepretação do episódio francês carregada de doses conspiratórias:

a questão aqui é que se forem [muçulmanos], eles não estão seguindo, saíram à regra. Pois, se fosse uma regra geral comum [praticar atos violentos], todos os muçulmanos que estão na França deveriam ser obrigados a ter feito isso já em 2006 quando foi a primeira vez que eles [Charlie Hebdo] fizeram isso. Principalmente em um mês que o jornal ia fechar. Mais do que isso. Aqui cabem outras análises [pausa]...às 9 horas da manhã não passava um carro lá na rua. [pausa longa] E quem filmou, como é que filmou? [Pausa curta] Não passou carro nem nas ruas adjacentes? Numa quarta-feira? A outra questão básica: os que morreram. Nós vimos a ação? Tem vídeos mostrando matando? Teve tiroteio? Ou apareceram mortos? Uma outra pergunta: por que o carro que aparece na filmagem, o retrovisor era de uma cor e o carro que eles disseram que foi abandonado, que foi utilizado no atentado, o retrovisor externo tinha uma outra cor? Um era cromado e o outro não. Como? [Pausa] Outra questão: um dos terroristas esqueceu a carteira de motorista dentro do porta-luvas! Imagine ele saindo e levou a carteira de motorista porque se a

83O jogo de dominação na era da modernidade líquida não é jogado entre o ‘maior’ e o ‘menor’, mas entre o

mais rápido e o mais lento. Aqueles que são capazes de acelerar além do poder de captura de seus oponentes dominam. Quando velocidade significa dominação, a ‘apropriação, utilização e população do território' torna-se uma desvantagem - um passivo, não um ativo” (tradução minha).

polícia parar, ele consegue provar, cheio de armas, mascarado, ele consegue comprovar que é ele! Esqueceu dentro do carro [trecho carregado de ironia]. Outra questão: o policial que falaram que era muçulmano, o Ahmed, que é executado por um dos supostos terroristas – ele caiu no chão, tava fazendo a segurança, né – ele cai no chão. Ele é atingido por um tiro, ele cai. Preste atenção, ele é atingido por um tiro de fuzil, ele cai, aí o terrorista vem e à queima roupa o executa com um fuzil, com uma bala mais ou menos assim [e mostra com as mãos seu tamanho], e não existe um pingo de sangue! [pausa]. Na realidade, a entrada de uma bala de fuzil, ela explode, ela na entrada ela explode, não é na saída [do corpo] [...] é impossível! Estranho é alguma coisa que não é nítida. E aquilo é nítido! É impossível! E outra, ele dá um tiro e não dá tranco, um fuzil, daquele jeito? No mínimo estouraria a cabeça e ricochetearia, porque ele está atirando pra baixo, muito forte. Não se viu nada disso, nem um pingo de sangue. O que eu espero de um tiro de fuzil é explodir a cabeça dele.

Intepretações como essa são comuns de serem observadas entre os muçulmanos no mundo inteiro. Há um grande senso crítico a respeito de todos os eventos violentos que envolvem seu grupo religioso, explorando minúcias dos fatos, deslegitimando aqueles que cometem os ataques acusando-os de não serem muçulmanos, e confabulando teses que desembocam quase sempre em uma responsabilidade externa, especialmente sionista- estadunidense.

Para o sheikh Jihad, de forma geral, eventos como esse contribuem de forma negativa para a imagem das comunidades islâmicas do mundo inteiro, inclusive no Brasil. Ele afirma, com conhecimento de causa, que “é nítido que você vai criar dentro da sociedade uma aversão, uma discriminação, um preconceito”.

De todo modo, sempre que atentados de grande vulto são divulgados pelos diversos meios de comunicação, são registradas ondas de agressões verbais e físicas85 contra os muçulmanos no Brasil. Efeitos colaterais da forma espetacularizada como esses eventos são exibidos. O sheikh Jihad lembra que uma de suas alunas foi alvo de pedradas na rua.

Ele ainda estabelece uma comparação entre o preconceito que existe contra muçulmanos na Europa e no Brasil:

Na Europa, o motivo dele é histórico, então ele é consciente. Por que a Turquia hoje não consegue, não permitem que ela entre na União Europeia, por que

85https://glo.bo/2LweiVB (acesso em 26.12.2016). Esse evento ocorreu posteriormente ao ataque executado em

criam dificuldade? A Bósnia, por que não entra na comunidade europeia, não a aceitam? Então existe algo premeditado e consciente, diferente da América Latina e do Brasil. Existe aqui uma discriminação e um preconceito, mas embasado em ignorância e falta de conhecimento.

Outro sheikh com quem conversei, Abdo Nasser, da Mesquita Omar Ibn Al-Khattab de Foz do Iguaçu/PR, converge com essa ideia ao dizer que “a mídia não é aliada dos muçulmanos seja no Brasil como no Mundo. Nos trata de forma preconceituosa e apenas destaca notícias ruins sobre a religião”. Ele complementa que os judeus são os que controlam os veículos de comunicação, e como forma de exercer seu domínio no mundo, distorcem tudo o que provém do islam. Como dito anteriormente, essa frase retrata um pouco da retórica conspiratória.

Assim como narrado pelo filme “My Name is Khan” (2010), logo após os atentados do 11 de setembro de 2001, os muçulmanos passam a ser vistos com desconfiança, preconceito e de forma genérica, como se todos fossem terroristas ou que praticassem uma religião que incita a violência. No filme, o protagonista busca desvincular a impressão negativa que se tem dos muçulmanos mostrando que não são terroristas e que querem colaborar com a comunidade local, enquanto outros planejam se vingar das agressões.

Os ataques ao “Charlie Hebdo” e em todos os outros em que os muçulmanos e o islam estiverem no “olho do furacão”, para o sheikh Abdo, repercutirão de forma prejudicial à comunidade de Foz do Iguaçu/PR, como por exemplo, pela queda do turismo na cidade prejudicando a economia e a vida locais.

O sheikh Mohammed Khalil da Husseinya de Foz do Iguaçu/PR, vai ao encontro do que diz seu colega sunita. Se referindo à matéria publicada pela Revista Veja em 06 de abril de 2011 sobre a possível presença de células terroristas na Tríplice Fronteira, ele assevera:

a [Revista] Veja é a campeã do sensacionalismo [...] dizia que Bin Laden passou em nossa mesquita aqui, isto é, teria passado pela Tríplice Fronteira e frequentado a mesquita [...] sabe qual a percentagem de turistas que diminuiu? Bastante. Porque a cidade sofreu bastante, sofreram todos os hotéis. Infelizmente, o Brasil, eu tinha falado isso muitas vezes para jornalistas de alta qualidade aqui, dizendo que infelizmente, o jornalismo brasileiro é um jornalismo lactante, que ainda toma leite dos outros.

O sheikh Ahmad Abdul do CCIB conta dois exemplos que se passaram com ele e que denotam como a mídia, em certas ocasiões, pode criar e reforçar preconceitos. Assim ele conta:

Algumas pessoas da mídia por interesse ou ignorância, entendeu? Tem gente que não sabe nada do islam. É verdade. Qualquer coisa que do Estado Islâmico, é coisa de muçulmano. Muçulmano é assim. Qualquer coisa em

países árabes é o islam que ensina isso. Eu não estou generalizando, mas parece que o objetivo principal da mídia é o quê? Chamar atenção. Pelo aspecto negativo.

Aqui nessa casa, teve uma entrevista comigo. Duas horas. Da TV Bahia. Uma coisa que ia passar domingo a noite. E começou a divulgar a chamada. Aí um irmão me ligou e me disse:

- Sheikh, você não está vendo tv? - Mas o que está acontecendo?

- Disse que você falou alguma coisa que...

Falaram: olha, domingo vai passar a religião que diz isso e aquilo, que a mulher isso e aquilo...

O que eu fiz? Vamo processar TV Bahia. Primeiro vou ligar. - Posso falar com Paulo?

- Paulo não tá aqui, por quê?

- Ele me entrevistou. Pode passar o celular dele? - Não posso.

- Se ele não está, quero falar com o chefe dele. - Não, a gente não pode fazer isso. Sobre o quê? - Senhora, eu não falei tudo isso na tv não. A moça disse:

- Tá bom. Por favor, não fala com diretor. Porque isso vai prejudicar Paulo. Eu falei:

- Mas Paulo pode prejudicar a gente? Eu vou falar com o diretor. - Deixa, eu vou verificar primeiro. Aí eu ligo para você.

Dez minutos depois ela me ligou e disse:

- Sheikh, por favor, desculpa. Não tem nada a ver o que chamada está dizendo. Depois, Paulo mesmo vem para cá pedir desculpas. Uma moça esatava com ele e disse:

- Sabe o que é isso? A chamada é para público.

- Então não pode fazer chamada da maneira que fizeram. - Mas tem que ter uma coisa que tem novidade, impacto.

Mas essa moça não sabia que isso pode prejudicar a gente. Por ignorância. Não sabia que quando vai pra tv, pode prejudicar as pessoas. O interesse é só para chamar a atenção de muitos.

Tem revista aqui...como que chama?...revista Veja ou...como chama? Teve aqui um ano, de São Paulo e me entrevistou. A gente chega aqui e não vê revista porque não saiu aqui. Mas a moça disse para não me preocupar. A

Wamy ligou pra mim. Todos ligaram.‘Sheikh, o que está acontecendo aí? você falou tudo isso?’

Distorceram tudo. Eles sabem que tudo que está falando nenhum sheikh vai falar isso. Então peguei a revista, liguei para lá. O diretor de setor disse: - Por favor, não fale mais. A gente quer pedir perdão. Porque o centro islâmico aqui está dizendo que vai processar a gente. A gente vai fazer outra coisa. - Me conta o que aconteceu?

- A moça saiu da Bahia, entrevistou você, entrevistou alguém de outra religião e a parte do islam ela perdeu, sumiu. Então para não deixar o espaço livre, o que ela sabia do islam, o que estava na cabeça dela, ela colocou.

- Ela colocou uma coisa que está prejudicando o islam não só aqui, mas no mundo inteiro.

Essa pessoa ligou e se desculpou. Então, centro islâmico me ligou e disse que não precisa mais processar.

Imagine, o que está acontecendo não é só comigo. Eu falei para você. Algumas mídias estão fazendo a cabeça desses jovens, que por ignorância não sabem o que é islam.

Khouloud El-Birani, outra entrevistada em Foz do Iguaçu/PR, além de farmacêutica, ela é secretária-geral da Escola Árabe-Brasileira86 da cidade, e como tal, presencia o cotidiano das crianças e jovens. Ela afirma que todas as vezes em que acontece algum episódio violento envolvendo muçulmanos, muitos alunos comentam sobre piadas de mau gosto que são feitas sobre eles, mas que “levam na esportiva” e que a “escola tenta ‘filtrar’ muito do que vem de fora”.

Fazendo eco ao que diz o próprio sheikh da mesquita local, Abdo Nasser, ela assevera que “a mídia não está a favor [de nós] [...] já presenciei muçulmanas sendo chamadas de terroristas na rua [...] quem são os proprietários da [Rede] Globo? São judeus! Por isso há interesses políticos e econômicos”.

Essa ideia é complementada pelo sheikh Abdel Hamid, da Mesquita Brasil de São Paulo, que reclama da desinformação do brasileiro em relação a diversos aspectos, em particular, sobre o islam. Ele afirma que

86 Em 20.11.2019, a Escola publicou uma carta aberta à comunidade informando o encerramento de suas atividades

a partir de 20.12.2019, em razão do “desinteresse e a falta de apoio da própria comunidade árabe a qual o Colégio atende”. Aponta também que “o fechamento do Colégio Árabe-Brasileiro representa o insucesso da comunidade árabe de Foz do Iguaçu em preservar uma instituição de ensino, uma instituição "educacional, que talvez represente um dos mais nobres instrumentos de formação de cidadãos críticos, éticos, responsáveis e transformadores” (disponível em https://bit.ly/35pVNvL acesso em 20.11.19).

infelizmente as pessoas não querem ler, não querem estudar. Querem ouvir só o que a mídia fala. A Globonews não sei o que disse, e acabou! Mas nós estamos vendo que a própria mídia está a frente de tudo para conseguir manipular a favor deles [se exalta]. Têm muitos que vem aqui pesquisar e tentar conhecer a face verdadeira do islam.

Para ele, as pessoas não deveriam se ater ao que a imprensa diz, mas ir até as comunidades, conhecê-las mais de perto para aprender sobre a religião. Ele diz que muitos dos que fizeram isso “acabaram abraçando o islam”, inclusive.

Fatih Özorpak compartilha dessa ideia quando diz que “nesse período precisamos conhecer mais a religião”. Ele complementa dizendo que

a mídia tem uma responsabilidade muito grande, mas não tem como comparar, uma pessoa que matou outra, a mídia já está mostrando, já está julgado, já está feito, já está condenado [...] A mídia quer mostrar quem está batendo no outro, quem está tirando cabeça do outro. É isso o que ela quer mostrar, e não quer mostrar uma coisa boa.

Mohammad Tawfiq, também quando questionado sobre a influência da mídia, alega que

a mídia brasileira, infelizmente, fizeram várias reportagens conosco aqui. Só que quando eles lançaram na TV, no programa, na grade deles, assistimos. Meu Deus! [diz com voz de desânimo]. Não fala nada do islam, fala dos costumes. Porque o repórter, coitado, não conhece o islam. O repórter, coitado, está sendo pressionado para fazer a reportagem. Ele tem que fazer uma coisa bonita para agradar o patrão dele. Então ele não vai escolher as palavras, sei lá, o ângulo, talvez o fundo, talvez o sorriso, talvez a mão assim ou assim, e não sai nada do islam, só os costumes. Então o que sai na mídia, não sai do islam verdadeiro. Sai uma mulher usando o hijab, alguém orando. A gente vê dia e noite na TV e depois dizem terroristas [exclama]. Aqui não falou de terroristas, mas a gente já ouviu que somos terroristas de outra pessoa. Porque a mídia não tem obrigação de explicar o que é o islam. Tem um canal aqui da Assembleia Legislativa. Fizeram reportagem conosco. Como esse canal tem grade pequena, fica repetindo, passou mais de dezenas de vezes. Tem algumas coisas boas, não tem nada ruim, mas ele não fala muito sobre o islam. Só que o bom para nós é que está dizendo ‘tem muçulmanos aqui na cidade. Ei, acorda! Tem muçulmanos aqui na cidade’. Temos página no Facebook e tem gente que entra lá querendo conhecer.

Aqui, a preocupação com a forma é maior do que com o conteúdo, o que na visão de Mohammad Tawfiq, não serve para explicar e informar a comunidade brasileira sobre o essencial do islam e das comunidades muçulmanas.

Em novembro de 2015 participei de uma palestra (Foto 22) ministrada pelo professor da UNICAMP, Mohammed Habib, cujo tema era “O colonialismo europeu e o islamismo político”, realizado na Sociedade Islâmica de Campinas (SIC). Seu objetivo era esclarecer os episódios envolvendo os atentados que aconteceram em Paris naquele ano e desmistificar o que a mídia transmitia, que segundo ele, era uma série de inverdades que descontextualizam e mascaram os reais motivos daqueles e de outros ataques provenientes de grupos jihadistas. Ele mesmo assume, que na preparação de sua fala, que se baseou apenas em documentos que o próprio Ocidente produz já que é dele o monopólio do conhecimento e da informação.

Foto 22– Palestra do Prof. Mohammed Habib na SIC, 29.11.2015.

Para o professor Habib, a mídia tem projetado uma imagem de um islam violento, “briguento”, quando na realidade a religião é pacifista. Ao longo de sua apresentação, ele mostra a parcialidade da mídia e a indignação seletivas, já que morrem muito mais muçulmanos em zonas de conflito do que na Europa, mas pouco disso é noticiado. Também é feito um histório que perpassa a época das cruzadas, a questão do Destino Manisfesto americano e o uso da força contra nativos, até o colonialismo europeu que, para ele, “abriu as portas para tudo isso