6. Construire des alliances
6.3 Analyse des entretiens
6.3.1 L’analyse des propos
6.3.1.1 Situation 1 : « Lors d’un entretien initial avec deux enseignantes »
Quando foi questionado à entrevistada se a sua formação teria fornecido condições para atendimento da queixa escolar, 90% das respostas relataram que sua graduação não lhes dera suporte para atender a esta demanda.
A grande maioria das psicólogas declararam não se sentir aptas para atender essas crianças e também reclamaram da falta de recursos nos ambulatórios, como testes, materiais como jogos, brinquedos, papel sulfite, lápis de cor, entre outros, além da falta de espaço físico e de tempo. Assim, as psicólogas sentem que saem da faculdade sem instrumentos para avaliar, atender e entender as crianças com dificuldades de aprendizagem. Como demonstram as palavras de uma entrevistada:
"Então, a gente faz algumas coisas na escola, mas eu não acho que seja muito aprofundado, acho que nós não saímos de lá com instrumento para avaliar bem estas crianças, eu pelo menos sinto isso".
Em outras respostas, as entrevistadas pontuam que o ensino da faculdade é em grande parte voltado para a clínica, ou seja, para o atendimento psicoterapêutico de consultório, como se vê no seguinte relato: "Na faculdade você já entra sabendo se você vai ser psicólogo
clínico, escolar ou organizacional, mas grande parte da faculdade você se prepara para o psicólogo clínico".
E dez entrevistadas acreditam que para atender crianças com problemas de aprendizagem, é necessário fazer uma pós-graduação, uma especialização na área escolar. Como exemplifica esta fala: "Acho que a formação é insuficiente para atender essas crianças,
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Esses relatos, em nosso modo de ver, vêm ao encontro do que diversos teóricos discutem e que demonstram em várias pesquisas (LO BIANCO et. al., 1994; SILVA, 1992; SOUZA, 1996; CABRAL & SAWAYA, 2001; MEIRA, 2003): a formação do psicólogo prioriza o profissional liberal em uma visão em que o sujeito é "analisado", pinçado, retirado de seu contexto social.
Nas respostas das entrevistas fica evidente o quanto o modelo essencialmente clínico é enfatizado durante a graduação, como pudemos perceber no tópico referente à avaliação utilizada para o psicodiagnóstico desses casos. Há uma grande dificuldade em transpor essa "clínica", num sentido mais amplo, para o ambulatório de Saúde Mental. O psicólogo formado segundo a visão referida acima, assume a identidade, o perfil profissional de curar e prevenir patologias, em caráter terapêutico. De acordo com o discurso das participantes da nossa pesquisa, parece que ao longo do curso são pouco abordados /estudados o papel do psicólogo dentro das instituições públicas, o trabalho com a comunidade, técnicas utilizadas com grupos etc. As mudanças são emergentes, haja vista que este profissional tem sido amplamente procurado por diversas instâncias para, por exemplo, compor equipes multidisciplinares para o trabalho com a comunidade, no caso do programa de saúde da família.
As entrevistadas desta pesquisa, de forma geral, enfatizam sua incapacidade para o atendimento de crianças com queixas escolares. Em suas concepções consideram que este tipo de caso é para o profissional da educação ou para o psicopedagogo. Fazem uma separação: o psicólogo deve atender o fator emocional e o especialista em educação é quem deve investigar as questões escolares. Essa cisão é evidenciada nos seguintes depoimentos:
"Então eu acho que a Secretaria da Educação deveria investir nisso, né, eu acho que, como eu te disse, a gente tem procurado dar conta do recado, atendendo as questões
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emocionais, né, eu acho que a Secretaria da Educação deveria assumir, acho que a psicopedagogia é uma coisa muito importante".
"Eu acho que trabalhar o problema, mesmo, em si, a..., a criança não consegue fazer a letra tal, tudo isso: dislalia, dislexia, tudo isso que eu nem sei o que é direito, eu acho que a gente não pode mesmo, nem se meter, porque aí você já tá tomando o espaço de um outro profissional, que na verdade seria o pedagogo, né, ou um psicólogo ou pedagogo com especialização em psicopedagogia".
Em uma outra resposta, uma entrevistada disse que sua formação não lhe propiciou condições para o atendimento não só de crianças, mas da clientela do serviço público. Isso nos remete à discussão de Lo Bianco et al. (1994) em sua pesquisa, quando afirma que a graduação em psicologia deveria fornecer conhecimentos sobre saúde pública, funcionamento desses serviços, políticas de saúde e reflexões acerca do papel do psicólogo neste contexto. Pensamos que, muitas vezes, a teoria fica distante da realidade do futuro profissional, e que é preciso pensar em adequar os métodos e técnicas à realidade do exercício da profissão, já que o serviço público constitui um grande mercado de trabalho que a cada dia solicita o psicólogo para compor as equipes técnicas de saúde. Desse modo entendemos que os cursos de psicologia necessitam, com urgência, de adequações neste sentido.
Apenas em uma resposta, uma psicóloga afirmou que está preparada para atender essas crianças: "apesar de não fazer uma avaliação específica da queixa escolar, porque não fiz
pós-graduação nessa área, sinto que consigo entender como essa criança funciona". Nesse relato, percebemos que ela tenta compreender, ouvir a queixa, o que é interessante, pois coloca-se disponível para fazê-lo. Contudo, salienta que necessitaria de um maior conhecimento para avaliar essas crianças e que este deve ser buscado nos cursos de especialização.
Acreditamos que o curso de pós-graduação é essencial para o aperfeiçoamento profissional, incluindo a importância da pesquisa, mas consideramos que a graduação deveria
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propiciar o conhecimento instrumental básico para que o profissional egresso da faculdade tivesse a compreensão do indivíduo em seus diversos contextos, ou seja, um profissional capaz de desenvolver e aplicar modelos alternativos de trabalho de acordo com a realidade da clientela e da instituição.
Portanto, a questão não é meramente técnica e material, mas conceitual. Não basta apenas saber como avaliar a queixa escolar, é necessário compreender os modos pelos quais ela é socialmente constituída e o papel ideológico da intervenção do psicólogo, quando este reproduz a visão naturalizante de homem ainda vigente em muitas instituições.