Em alguns discursos na obra Os fundamentos há uma preocupação em comparar o discurso bíblico com o discurso científico. Ideologicamente, o discurso científico, mais especificamente o cientificismo, exalta a ciência moderna, conferindo-lhe elevado status, como aconteceu na época do positivismo — posição ideológica que vê na ciência a única forma de conhecimento verdadeiro. Arthur Tappan Pierson, autor do capítulo 18 de Os fundamentos, sob o título O testemunho da unidade orgânica da Bíblia à sua inspiração, argumenta que “A correspondência geral entre o relato mosaico da criação e as descobertas mais avançadas da ciência prova que somente aquele que construiu o mundo, poderia construir o livro. Quanto à ordem da criação, Moisés e a geologia estão de acordo” (TORREY, 2005, p. 204). O autor dessa afirmação, ao mesmo tempo em que faz um discurso embasando-se nos relatos bíblicos, que são da ordem da fé e da espiritualidade, faz uma aproximação com a ciência moderna. Ele relaciona as descobertas mais avançadas da ciência, endossando seu discurso na geologia, com o relato da criação no livro de Gênesis. Em seu entendimento, tanto Moisés como a geologia estão em pleno acordo.
Depois, de certa forma contradizendo-se, apresenta outros discursos eximindo a Bíblia Sagrada de uma possível comparação, atribuindo a esta o fato de não ser um livro científico, não havendo, portanto, nenhum ensino direto que antecipe a verdade científica. “A Bíblia não é um livro científico, mas segue uma lei consistente. Como uma locomotiva em seu trilho, ela ressoa no trilho da ciência, mas jamais se desvia de seu próprio trilho” (TORREY, 2005, p. 204). A partir daí apresenta três pontos explicando a relação entre as afirmações da Bíblia Sagrada e as verdades científicas.
(1) Aqui não se encontra nenhum ensino direto ou antecipação da verdade científica. (2) Nenhum fato científico é afirmado de forma equivocada, embora seja empregado uma fraseologia comum, popular. (3) Utiliza-se um conjunto elástico de termos, que contêm em germe toda verdade científica, como a semente contém a árvore. A linguagem é tão elástica e flexível a ponto de contrastar-se com a estreiteza da ignorância humana, e ainda expande-se às dimensões do conhecimento. Se a Bíblia pode, por meio da linguagem imperfeita, selecionar os termos que podem sustentar verdades ocultas até que épocas futuras cheguem para descortinar o significado interior, isso deve parecer ser a melhor solução desse difícil problema. Agora, quando chegamos a comparar a linguagem da Bíblia com a Ciência moderna, descobrimos ser isso um fato. (TORREY, 2005, p. 204).
Em outro texto, Pierson inclui outra ciência em seu discurso, além da geologia, a anatomia comparativa, aproximando assim as afirmações bíblicas das constatações científicas: “A geologia e a anatomia comparativa se unem para ensinar que a ordem vai dos tipos inferiores aos superiores; primeiro, o peixe, em seguida os répteis, depois o homem. Esta é exatamente a ordem seguida por Moisés” (TORREY, 2005, p. 204). Além de afirmar que a ordem apresentada pela geologia e pela anatomia comparativa estão em consonância com a ordem apresentada por Moisés, faz ainda uma referência a outra ciência, dessa vez a astronomia. “Podemos pegar o exemplo desta garantia científica na astronomia. Jeremias 33.22 diz, ‘Não se pode contar os exércitos do céu, nem medir a areia do mar’” (TORREY, 2005, p. 204). Ao mesmo tempo em que afirma que a Bíblia Sagrada não é um livro científico, Pierson acaba fazendo comparações com a ciência moderna.
No capítulo 13 da obra Os fundamentos, sob a designação Ciência e fé cristã, consta: “Até o presente momento, a ciência e as visões bíblicas de Deus, do homem e do mundo não estão em nenhuma relação real de conflito” (TORREY, 2005, p. 139). Essas são as palavras do professor James Orr, professor da Faculdade da Igreja Livre Unida de Glasgow, na Escócia, ao rebater as críticas de que, com o avanço das ciências físicas, tais como: astronomia, geologia e biologia, estaria causando danos quase que destrutivos no que diz respeito às reinvindicações da Bíblia e da verdade do cristianismo. O professor Orr discorda que os interesses da ciência e do cristianismo sejam antagônicos. Lembra que a maioria dos antigos investigadores da ciência eram cristãos piedosos, entre eles cita: Galileu, Kepler, Bacon, Newton, Faraday, Brewster, Kelvin, entre outros (TORREY, 2005, p. 130). Entende que tanto do lado da ciência como da
igreja houve “enganos infelizes” e erros dolorosos. Admite que a “igreja dominante” investiu para abafar o avanço da verdade por meios de perseguições. Mas “Se a teologia resistiu às novidades da Ciência, foi porque frequentemente teve boas razões para isso” (TORREY, 2005, p. 131). Se reconhecidamente houve enganos infelizes e dolorosos por parte de alguns teólogos, tal reconhecimento é louvável, mas ao mesmo tempo é questionável afirmar que a teologia, ao resistir às novidades da ciência, teve boas razões. Além disso, nada garante que esses erros não continuam acontecendo ainda hoje.
Na tentativa de harmonizar o relato da criação, conforme descrito em Gênesis 1 e 2, com as teorias modernas sobre a origem do Universo, James Orr argumenta: “que tipo de ‘dias’ eram esses que tiveram curso antes do sol, com as vinte e quatro horas de medida diuturna, que foram designados para aquele fim?” (TORREY, 2005, p. 139). Na tentativa de encontrar uma explicação plausível, diz ele: “Nenhuma violência é feita à narrativa quando substituímos em pensamento os dias ‘eônicos’ — vastos períodos cósmicos — por ‘dias’ de nossa escala mais estreita, os que são medidos pelo sol. Desse modo, o último traço de aparente ‘conflito’ desaparece” (TORREY, 2004, p. 139). Essa explicação encontra-se na teoria da Terra antiga.
Os “seis dias” podem permanecer como uma dificuldade para alguns, mas, se isso for mais do que a fixação simbólica do quadro — uma grande “semana” divina de trabalho — pode-se bem perguntar, como Agostinho o fez muito antes que a geologia viesse a cogitar sobre que tipo de “dias” eram esses que tiveram curso antes do sol, com as vinte e quatro horas de medida diuturna, que foram designados para aquele fim? (TORREY, 2004, p. 139).
Na esperança de que um dia a relação entre religião e ciência se inverta ou quem sabe a religião cristã do Ocidente volte a ocupar posição de destaque, como era antigamente — levando-se em conta que a sociedade ocidental moderna secularizada questiona os antigos ensinos bíblicos e deposita elevada confiança nas ciências modernas —, diz James M. Gray: “Feliz o dia quando a investigação voltar para cá, e feliz a geração que não esquecer a maneira como ir ao encontro dela” (TORREY, 2005, p. 141, 142). A referência a ciência moderna aqui compreenderá o conjunto das ciências reformuladas após a Idade Média a partir do processo de modernização da sociedade ocidental. “Chamamos de ciência moderna uma forma de estudar a natureza que surgiu ao longo dos séculos XVI e XVII e que considerava ser a linguagem matemática e a experimentação os caminhos verdadeiros para se compreender a natureza” (BRAGA, 2006, p, 68).
Para corroborarem seus discursos, tanto os autores de Os fundamentos como os cientistas, contrários à religião cristã, se utilizaram basicamente da mesma lógica e linguagem, ou seja, o mesmo tipo de discurso utilizado pela ciência moderna. Os fundamentalistas inicialmente se opõem às novidades da ciência moderna, mas logo se utilizam da linguagem científica para responder aos cientistas e adeptos da ciência moderna, críticos à religião. Dessa forma as obras Os fundamentos (1909 a 1915) e Religião e ciência (1935), se entrecruzam em seus discursos e argumentos. Elucidar a razão da polaridade e ao mesmo tempo da lógica discursiva entre essas duas dimensões do saber, fé cristã na ótica protestante fundamentalista a partir da obra Os fundamentos e ciência moderna na ótica russelliana a partir da obra Religião
e ciência — a ser abordada no capítulo 3 —, será uma das tarefas do presente trabalho.
Submetendo os discursos acima a uma abordagem analítica e crítica na perspectiva faircloughiana, percebe-se que eles se enquadram em um conceito central da Análise do Discurso Crítica denominado coerência por Fairclough. Essa dimensão da ADC enxerga os autores dos textos como sujeitos sociais do discurso, com suas experiências sociais prévias e orientados para as múltiplas dimensões da vida social. Nessa condição, os autores acabam impondo suas experiências particulares prévias e suposições àquilo que apreenderam dos textos bíblicos em relação ao discurso científico, que é a sua própria interpretação, seu discurso particular. Para Fairclough, a coerência está ligada aos propósitos do autor, o que retira deles a condição de imparcialidade. Como um artifício do discurso, a coerência poderá acarretar indeterminações e ambivalências, elementos notados nos textos acima. Há indeterminação quando Pierson afirma que entre o relato mosaico da criação e as descobertas mais avançadas da ciência há uma prova de que apenas Deus poderia ter construído o mundo. Tal afirmação não é consenso entre os dois magistérios, ciência e religião, nem tampouco trata-se de uma prova, são apenas as conexões e suposições impostas por Pierson em sua posição interpretativa.
Na tentativa de harmonizar o discurso científico com os textos bíblicos, nutrindo simpatia pelos dois magistérios, e apelando à autoridade da ciência em sua função legitimadora das afirmações da modernidade, Pierson incorre em ambivalência, uma das características da coerência na Análise do Discurso Crítica. Ao invés de impetrar um discurso ideológico emancipador, como fez a ciência moderna ao se emancipar das estruturas religiosas da Idade Média, acaba incorrendo em ambivalência discursiva, conseguindo, no máximo, uma emancipação parcial do cristianismo protestante em relação à ciência moderna em seu discurso.
Deixa a entender que o discurso religioso deve se justificar perante os ataques advindos da ciência moderna.
Nesse capítulo, a religião lançou um olhar para a ciência moderna, fazendo críticas severas a muitos de seus seguidores e até mesmo rejeitando algumas práticas. Ao invés de se depositar confiança nesse magistério (a religião), foi feito um convite para que se confie e busque auxílio no sobrenatural, a dimensão não verificável pela ciência moderna. No capítulo seguinte será a vez da ciência, através de um de seus adeptos, Bertrand Russell, olhar para a religião. Assim como fizeram os fundamentalistas em relação à ciência moderna, Russell não poupará os religiosos. Serão lançados contra a religião diversos argumentos, sem economia de esforços. As críticas não serão menos intensas do que as dos fundamentalistas. Acrescente-se ainda que um escritor do porte de Bertrand Russell, ganhador de um Prêmio Nobel de Literatura, mundialmente conhecido, naturalmente desfrutará de uma grande vantagem ao difundir suas ideias.