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La situation actuelle

Pensamos a análise por vir tomando gênero segundo propõe Guacira Lopes Louro (1997, p.24), isto é, como “constituinte da identidade dos sujeitos”. O ponto de partida, ainda de acordo com o que afirma Louro, é “não cair na ideia simplista de pensar o tema como uma construção de papéis masculino e feminino” (1997, p.24). A partir de tal compreensão, é possível considerar que diferentes práticas e instituições são constituídas pelos gêneros e também constituintes dos gêneros - igreja, justiça, governo, práticas de educação (LOURO, 1997) e, por que não, o jornalismo.

Ao retirarmos os sujeitos e sujeitas desses lugares pré-determinados e olharmos para eles e elas considerando suas complexidades, entendemos necessário também considerar aquilo que Louro define como as relações poder-saber e a capacidade de resistência, quando afirma:

Fica extremamente problemático aceitar que um polo tem o poder - estavelmente - e outro, não. Em vez disso, deve-se supor que o poder é exercido pelos sujeitos e que tem efeitos sobre suas ações. Torna-se central pensar no exercício do poder; exercício que se constitui por "manobras", "técnicas", "disposições", as quais são, por sua vez, resistidas e contestadas, respondidas, absorvidas, aceitas ou transformadas. E importante notar que, na concepção de Foucault, o exercício do poder sempre se dá entre sujeitos que são capazes de resistir (pois, caso contrário, o que se verifica, segundo ele, é uma relação de violência) (LOURO, 1997, p. 38-39).

O olhar para o poder sob tal perspectiva também contribui para descontruir as categorias estáticas, que, por muito tempo, prevaleceram dentro dos estudos feministas. Avançando a partir do que propõe Foucault, trabalhamos com a hipótese de que o poder opera em variadas direções, em rede - e não como um privilégio. Não significa, no entanto, que Foucault despreze que “as mulheres” mais frequentemente são subordinadas ou submetidas, mas que elas não são anuladas como sujeitas, resistem. Da mesma forma, o poder, para Foucault (1987), não é necessariamente algo coercitivo ou negativo. Ele faz, produz, incita. É sob tal perspectiva que propõe o discurso tanto como instrumento de poder, quanto obstáculo, ponto de resistência, capaz de reforçar, mas também de minar e expor – assim como o silêncio.

Tomando a compreensão de Foucault sobre o poder, Louro vai procurar articular porque a polaridade fixa é impossível dentro de seu raciocínio. De acordo com sua leitura, “se deve buscar observar o poder como uma rede de relações sempre tensas, sempre em atividade" (1997, p.39):

Homens e mulheres certamente não são construídos apenas através de mecanismos de repressão ou censura, eles e elas se fazem, também, através de práticas e relações que instituem gestos, modos de ser e de estar no mundo, formas de falar e de agir, condutas e posturas apropriadas (e, usualmente, diversas). Os gêneros se produzem, portanto, nas e pelas relações de poder (LOURO, 1997, p.41).

Olhando para oobjeto desta pesquisa parecia-me natural, a princípio, encarar a adolescente estuprada como uma sujeita sem possibilidade de resistência, em uma situação de vulnerabilidade atravessada por múltiplos fatores, como classe social, gênero e idade. Da mesma forma, o olhar para o jornalismo que tinha antes das leituras era bastante unificador, incapaz de perceber tanto nuances que estão no fazer dos profissionais, quanto no resultado desse trabalho. A compreensão do papel daqueles que se manifestaram sobre o assunto no Twitter também era unidimensional. Sobre esse último aspecto, havia em mim um otimismo exacerbado sobre uma transformação na representação da mulher vítima de violência na mídia hegemônica a partir da agência da sociedade via redes sociais.

Assim, a análise também se propõe a perceber como articulam-se as resistências em diferentes setores: na adolescente e em suas práticas, no fazer jornalístico - em mostrar aspectos que antes eram obliterados pelo machismo e

misoginia dominantes - e em cidadãos que se manifestam pelo Twitter, sempre procurando articular as relações entre os diferentes eixos.

Outro ponto de partida que consideramos prioritário para a análise diz respeito à necessidade de não encarar a mulher como uma categoria universal, estar ciente de que cada indivíduo ocupa um lugar social e está, inevitavelmente, perpassado por outros marcadores que o constituem. Da mesma forma, há relações (e tensões) de poder constantes entre diferentes mulheres, já que não somos uma massa uníssona - muito longe disso. Joan Wallach Scott (1990) afirma:

(1) O gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos e (2) o gênero é uma forma primária de dar significado às relações de poder. As mudanças na organização das relações sociais correspondem sempre a mudanças nas representações de poder, mas a mudança não é unidirecional (SCOTT, 1990, p.86).

Angela Davis (2016), ao articular raça e classe, traz um exemplo dos Estados Unidos da metade do século 20 para ilustrar como essas diferenças se estruturam:

Se as mulheres brancas nunca recorreram ao trabalho doméstico, a menos que tivessem certeza de não encontrar algo melhor, as mulheres negras estiveram aprisionadas a essas ocupações até o advento da Segunda Guerra Mundial. Mesmo nos anos 1940, nas esquinas de Nova York e de outras grandes cidades existiam mercados – versões modernas das praças de leilões de escravos – em que as mulheres brancas eram convidadas a escolher entre a multidão de mulheres negras que procuravam emprego (DAVIS, 2016, p.102-103).

No Brasil de hoje, dados sobre a violência contra as mulheres indicam que o abismo entre brancas e negras segue existindo. A edição do Atlas da Violência8 divulgada em junho de 2019 mostra que a taxa de homicídios de mulheres negras é maior e cresce mais que a das mulheres não negras. Entre 2007 e 2017, a taxa para as negras cresceu 29,9%, enquanto a das não negras aumentou 1,6%. Com essa variação, a taxa de homicídios de mulheres negras chegou a 5,6 para cada 100 mil, enquanto a de mulheres não negras terminou 2017 em 3,2 por 100 mil.

Os indicativos aqui apresentados envolvendo raça não tencionam reduzir a análise, mas deixar evidentes aspectos que precisam ser levados em conta justamente para que não caiamos naquilo que consideramos o equívoco de resumir as mulheres a uma categoria única.

3.2 GÊNERO COMO CATEGORIA DE ANÁLISE: O USO DAS PALAVRAS NA

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