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3 RÉSULTATS

3.1 Situation actuelle et sécurité transfusionnelle

De acordo com Céli Pinto (2006), estudiosa da teoria laclauniana, todo discurso é uma tentativa de dar sentido ao que é real. Nessa perspectiva, o discurso se apresenta enquanto uma tentativa de fixar sentidos (PINTO, 2006, p. 80), isto é, uma tentativa de fixar sentidos num dado contexto a partir de um grupo que compartilha de um mesmo conjunto de regras subjacentes historicamente. A atribuição de significado, diante do exposto, só é passível de ser realizada uma vez que se compreenda, para além do discurso dado, seu contexto, isto é, o exterior que o constitui e, ao mesmo tempo, o torna passível de ser significado.

Segundo Pinto (2006), o discurso político, por sua vez, é aquele que, ao tentar continuamente impor sua verdade a outros – e a um grupo significativo de indivíduos na maioria das vezes – “é o discurso cuja verdade está sempre ameaçada em um jogo de significações” (PINTO, 2006, p. 89). Do mesmo modo, “o discurso torna-se elemento constituinte da realidade social como um todo, sendo estruturante e, ao mesmo tempo, construído constantemente de forma dialógica” (SOUZA e CARRIERI, 2014, p.21).

Centrado num jogo de significações que o significa e o ressignifica o tempo todo, o discurso político constitui-se enquanto o discurso do sujeito. Isso implica dizer que a multiplicidade de sujeitos significa, também e necessariamente, a multiplicidade de discursos. De encontro a isso, Laclau (2011), versando sobre a questão da identidade no mundo contemporâneo, principalmente sobre a emergência dos sujeitos múltiplos, destaca o enfoque nessa multiplicidade dos sujeitos como ponto-chave para renovar o interesse na questão da subjetividade,

especialmente no que diz respeito a identidades multifacetadas para além de um único centro transcendental.

Ernesto Laclau (2011) aponta que a emergência de novos sujeitos, para além de constituir novas lacunas permite, a partir da morte da noção de sujeito único, preencher um vazio impossível de ser preenchido por este último. Considerando que o discurso político seja o discurso do sujeito (PINTO, 2006) e que a emergência de novos sujeitos – ou sujeitos múltiplos – possibilita o preenchimento de lacunas cuja noção de sujeito único não é capaz de preencher (LACLAU, 2011), a análise do discurso e, mais precisamente, a análise do discurso político abre novas perspectivas para a compreensão do social e de seu jogo de significações.

Significar o discurso para além do que está dado demanda, assim, compreender não só o jogo de palavras articulado e combinado num jogo de sentidos partilhado pelo grupo social, mas também seu contexto para além de sua enunciação. Se todo o discurso é um discurso de poder “na medida em que todos os discursos pretendem impor verdades a respeito de um tema específico ou de uma área da ciência, da moral, da ética, do comportamento, etc” (PINTO, 2006, p. 92), então todo o discurso – ou os discursos múltiplos aos quais somos interpelados a todo o instante – se constitui enquanto mais que uma tentativa de fixar sentidos, mas também enquanto uma tentativa de influenciar significativamente no jogo de significações a que está continuamente exposto o social. É a complexidade deste último e das consequentes infinitas possibilidades de fixar sentidos seja pelo aspecto relacional dessa fixação (um sentido é sempre algo numa relação com outro algo), seja pela impossibilidade de estabelecer um fundamento último, a responsável pelos sentidos se fixarem sempre de forma contingente e precária.

Qualquer análise dos fenômenos sociais deve levar em conta a complexidade do social, complexidade tal que destaca a precariedade da constituição de sentidos e a impossibilidade da completa universalização de conteúdos particulares. Sendo assim, cumpre apontar que em qualquer análise que se baseie na Teoria do Discurso, “não há como se constituir previamente sentidos sociais ou se levar em consideração identidades ou movimentos sociais totalmente constituídos com projetos políticos existentes “desde sempre” em direção a um objetivo preciso (teleológico)” (MENDONÇA, 2007, p. 250). São, assim, as infinitas possibilidades de constituição de sentido e o fato de nenhum projeto político apresentar um sentido plenamente constituído em seu discurso que possibilitam a existência do que

Ernesto Laclau e Chantal Mouffe colocam como o local no qual ocorrem as disputas discursivas (ou disputas por sentido): o campo da discursividade.

Um discurso, na perspectiva laclauniana, é mais que um somatório, um conjunto de palavras, mas a união indissociável entre palavras e ações: “uma prática social significativa de natureza material” (MENDONÇA, 2007, p. 250). Uma totalidade estruturada que é resultado de um conjunto de práticas articulatórias que, por sua vez, consistem numa articulação entre elementos – posições distintas e não articuladas dentro de um discurso – e momentos – posições distintas, no entanto articuladas dentro de um discurso através de um ponto nodal. Assim, os elementos tornam-se momentos, cumpre destacar, somente dentro do discurso.

Segundo Mendonça (2007), o processo de fixação de sentidos em Laclau “é necessariamente parcial tendo em vista as constantes suturas – cortes que uma articulação discursiva constantemente sofre, os quais alteram seus sentidos – que o discurso sofre na relação com outros discursos concorrentes no campo da discursividade” (MENDONÇA, 2007, p. 250). A fixação de sentidos como sendo sempre parcial, tal como destacado por Mendonça (2007), merece destaque nesta proposta de estudo. Como propomos a significação ideológica do discurso peemedebista em um período marcado por disputas pela fixação de sentido (e em um nível muito maior se considerarmos o aspecto transformativo dos governos de esquerda), reforçamos a precariedade e a contingência na construção discursiva dos sujeitos políticos, especialmente na construção discursiva peemedebista nos governos de Dilma Vana Rousseff, nos quais o partido aqui trabalhado ocupou posição de destaque, tendo Michel Temer como vice-presidente do Brasil. Tal coligação esquerda-centro ou ainda esquerda-centro-esquerda pode influenciar ainda mais significativamente na construção discursiva peemedebista no período 2011-2016.

De acordo com Scirea (2015), para Laclau e Mouffe, “o discurso não é simplesmente fala, escrita e pensamento, mas que este, enquanto totalidade, inclui dentro de si tanto o linguístico como o extralinguístico” (SCIREA, 2015, s.p). Nesse sentido, aquilo que está além do discurso, ou o “extradiscursivo” é o caos que não pode ser apreendido pela mente humana. Dessa forma, o ‘ente’ dos objetos só poderia ser compreensível a partir da sua articulação dentro de uma totalidade discursiva, que o transforma em ‘ser’” (SCIREA, 2015, s.p). Isso significa dizer que não é que um discurso ou um objeto não exista fora do discurso, mas que só ganha

sentido uma vez que esteja ligado a um discurso, considerando ainda seu aspecto relacional (algo será algo quando e somente quando relacionado a outro algo). Dessa forma,

[…] entende-se que tudo se constrói na discursividade e na tentativa (não arbitrária) de representação do real. Absolutamente nenhum discurso está isento desta intencionalidade particular. Entretanto, há forças que forjam a palavra, inibindo a capacidade de preenchimento realizado pelo outro. Por meio da lógica da equivalência, um grupo que se homogeneíza em virtude de suas afinidades, se sobrepõe a outro grupo, suprimindo-o por lhe considerar diferente (ANDRADE, 2011, p. 32).

O campo da política é um dos locais onde ficam mais claras as disputas pelo sentido. Na perspectiva laclauniana, as relações de poder são constituidoras das relações sociais (MENDONÇA, 2007). Sendo assim, os projetos políticos encontram- se inseridos num contexto de disputa contínua, no qual “consensos sociais são possíveis, mas nunca eternos: podem futuramente ser desprezados e desrespeitados mesmo pelos próprios sujeitos políticos que outrora os celebraram” (MENDONÇA, 2007, p. 250).

Segundo Laclau, a concepção marxista clássica se restringiu a uma concepção essencialista da sociedade, cindida em dois grupos antagônicos: opressores e oprimidos. Ao destacar as infinitas possibilidades de constituição de identidades devido à complexidade do social, Ernesto Laclau defende a impossibilidade de explicação da sociedade em torno dessa perspectiva reducionista. A proposta de que o social pode vir a ser compreendido e explicado através dos mais variados sentidos é o principal apoio da crítica laclauniana ao marxismo, “tendo em vista este último constituir-se não em uma teoria da sobredeterminação do social, mas numa empreitada teórica que, no limite, embasa as relações sociais a partir de uma determinação evolucionista e econômica em última instância, simplificando-as” (MENDONÇA, 2009, p. 156).

A impossibilidade de conhecimento pleno da sociedade é uma afirmativa fundamental na perspectiva laclauniana, em função mesmo da fixação precária e contingente de sentidos ao longo da história e, no caso da política, para retomar a teoria clássica de Marx, “não existe, portanto, para Laclau, a real possibilidade de se chegar ao “fim da história”, ou seja, à vitória de um projeto político definitivo, típico sonho escatológico marxista” (MENDONÇA, 2009, p. 156).

Segundo Mendonça (2009) os sentidos sociais atribuídos são sempre pautados pela precariedade e pela contingência, o que torna impossível a apuração

das relações sociais fora do contexto no qual encontram-se inseridas, de modo que “somente a partir daí, da análise stricto sensu de discursos em disputa, é que podemos produzir inferências” (MENDONÇA, 2009, p. 156). No que se refere à precariedade, um dos aspectos essenciais a que está subordinada a fixação de sentido, essa diz respeito à ideia de que um discurso pode alcançar uma representação hegemônica durante um certo período de tempo, mas devido à complexidade da sociedade, essa hegemonia não se constituirá para sempre. Na perspectiva de Ernesto Laclau, não há a possibilidade de vislumbrar quaisquer cenários finais. Sendo assim, “a emancipação, entendida como a libertação completa de todas as amarras sociais, é um sonho, um ideal, um horizonte, ao mesmo tempo em que é uma impossibilidade fática” (MENDONÇA, 2009, p. 157).