4. Présentation du projet
4.4. Absence de solution alternative (source : ESCOTA)
Conforme aponta Brandão (1998), a análise do discurso (AD) surgiu na década de 60, na França, visando complementar as carências da análise de conteúdo. De acordo com a autora, a AD surgiu com a intenção de fazer uma análise do texto voltada para sua opacidade: ―a interpretação devia levar em conta o modo de funcionamento linguístico- textual dos discursos, as diferentes modalidades do exercício da língua num determinado contexto histórico-social de produção‖ (BRANDÃO, 1998, p. 19).
Para Brandão (2004, p. 12), ―o ponto de articulação dos processos ideológicos e dos fenômenos linguísticos é, portanto, o discurso‖. É afastada a ideia de linguagem como instrumento de comunicação ou suporte de pensamento. Ela é vista na sua perspectiva social, histórica e de interação.
Como elemento de mediação necessária entre o homem e sua realidade e como forma de engajá-lo na própria realidade, a linguagem é lugar de conflito, de confronto ideológico, não podendo ser estudada fora da sociedade uma vez que os processos que a constituem são histórico-sociais. Seu estudo não pode estar desvinculado de suas condições de produção. Esse será o enfoque a ser assumido por uma nova tendência linguística que irrompe na década de sessenta: a análise do discurso. (BRANDÃO, 1994, p. 12).
O Círculo de Bakhtin, dentre todas as obras produzidas, parece não ter elaborado uma teoria explícita e acabada de análise do discurso. É o conjunto de suas obras e a reflexão sobre elas que geraram a possibilidade de ser desenvolvida uma teoria/análise dialógica do discurso.
De acordo com Brait (2006a, p. 10),
Sem querer (e sem poder) estabelecer uma definição fechada do que seria essa análise/teoria dialógica do discurso, uma vez que esse fechamento significaria uma contradição em relação aos termos que a postulam, é possível explicitar seu embasamento constitutivo, ou seja, a indissolúvel relação existente entre língua,
linguagens, história e sujeitos que instaura os estudos da linguagem como lugares de produção de conhecimento de forma comprometida, e não apenas como procedimento submetido a teorias e metodologias dominantes em determinadas épocas.
Ainda sobre as especificidades da gênese da ADD como uma vertente das teorias de análise do discurso, a autora pontua:
Iniciar a apresentação da análise/teoria dialógica do discurso dessa maneira significa, de imediato, conceber estudos da linguagem como formulações em que o conhecimento é concebido, produzido e recebido em contextos históricos e culturais específicos e, ao mesmo tempo, reconhecer que essas atividades intelectuais e/ou acadêmicas são atravessadas por idiossincrasias institucionais e necessariamente, por uma ética que tem na linguagem, e em suas implicações nas atividades humanas, seu objetivo primário (BRAIT, 2006a, p.10).
Como visto, desenvolver uma análise do discurso sob a perspectiva dialógica implica relacionar língua, linguagens, história e sujeitos. Além disso, Brait (2006a) sustenta que a AAD está também firmada nas relações discursivas empreendidas por sujeitos historicamente situados.
Em Problemas da Poética de Dostoievski (1997 [1963]), Bakhtin assinala a importância das relações dialógicas:
Assim, as relações dialógicas são extralingüísticas. Ao mesmo tempo, porém, não podem ser separadas do campo do discurso, ou seja, da língua enquanto fenômeno integral concreto. A linguagem só vive na comunicação dialógica daqueles que a usam. É precisamente essa comunicação dialógica que constitui o verdadeiro campo da vida da linguagem. Toda a vida da linguagem, seja qual for o seu campo de emprego (a linguagem cotidiana, a prática, a científica, a artística, etc.), está impregnada de
relações dialógicas. (BAKHTIN, 1997 [1963], p.183).
Do exposto, a linguagem como objeto da ADD deve ser compreendida sob o aspecto histórico, social e ideológico; a linguagem leva em conta, na interação e no seu uso, todo o contexto em que se dá a enunciação. Conforme estabelece Bakhtin (Volochínov) (2006 [1929], p.117), ―A situação social mais imediata e o meio social mais amplo determinam completamente e, por assim dizer, a partir do seu próprio interior, a estrutura da enunciação‖.
Em Problemas da Poética de Dostoievski (1997 [1963]), Bakhtin, ao apresentar a distinção entre o estudo da língua na sua imanência e a língua como discurso, estabeleceu ainda uma diferença entre dois grandes campos de estudo: a metalinguística17 e a linguística, podendo a primeira ser considerada o germe da análise dialógica do discurso. De acordo com o que estabelece o pensador russo, a linguística imanente tem como objeto específico a língua como sistema, ao passo que a metalinguística dá importância primordial aos fatores externos constitutivos do discurso. A metalinguística examina, por exemplo, o discurso bivocal, o qual, de acordo com Bakhtin (1997 [1963], p.185) ―surge inevitavelmente sob as condições da comunicação dialógica, ou seja, nas condições da vida autêntica da palavra‖. Contudo, alerta que ―As pesquisas metalingüísticas, evidentemente, não podem ignorar a lingüística e devem aplicar os seus resultados‖ (BAKHTIN, 1997 [1963], p.181).
Rodrigues (2007, p. 156) ressalta que a metalinguística foi proposta por Bakhtin ―Para o estudo das relações dialógicas, do enunciado, dos gêneros e de outros aspectos que ultrapassam os limites do objeto da linguística‖. Além disso, a autora observa que dada a significação do termo metalinguística no Ocidente, alguns pesquisadores preferem a utilização do termo translinguística, onde estão abrangidas diferentes correntes da análise do discurso e teorias da enunciação, por exemplo.
17 Para o autor, a metalingüística é definida como um conjunto de disciplinas a se constituir (ressaltando-se que ele trata do tema na obra Problemas da Poética de Dostoievski, publicada inicialmente em 1929, tendo a segunda edição, revista pelo autor, em 1960), cujo foco seria a língua vista como discurso. De acordo com o autor: ―A linguística e a metalinguística estudam um mesmo fenômeno concreto, muito complexo e multifacético – o discurso, mas estudam sob diferentes aspectos e diferentes ângulos de visão. Devem completar-se mutuamente e não fundir-se‖. (BAKHTIN, 1997 [1963], p.181)
Seguindo essas diretrizes disciplinares propostas por Bakhtin, a ADD é uma corrente da análise do discurso que tem a seguinte constituição:
As contribuições bakhtinianas para uma teoria/análise dialógica do discurso, sem configurar uma proposta fechada e linearmente organizada, constituem de fato um corpo de conceitos, noções e categorias que especificam a
postura dialógica diante do corpus discursivo, da
metodologia e do pesquisador. (BRAIT, 2006a, p. 29)
Portanto, segundo se verifica em Brait (2006a), a ADD, decorrente do construto teórico elaborado pelo Círculo de Bakhtin, possibilita a análise da realização de um processo de diálogo entre sujeitos historicamente situados e constituídos, processo este de acordo com os pensamentos bakhtinianos mais fundamentais. Além disso, a investigação é procedida de forma permanente e dinâmica, visto que a linguagem sempre está em constante mudança, em uso, considerando, substancialmente, a interação em toda a análise efetuada.
Em suma, proceder a um estudo tendo como fundamento epistemológico os pressupostos da ADD implica levar em conta as construções bakhtinianas acerca da concepção dialógica e sócio- histórica da linguagem.
2 CONSTITUIÇÃO FEDERAL E ESFERA POLÍTICA18: