3.4 Bipartite fluctuations in 2D Dirac materials
3.4.3 Beyond the single isotropic Dirac cone
O processo de filmagem com as crianças foi diferente do que ocorreu com os rapazes e com as imagens realizadas os antigos. Elas ainda não possuíam uma idéia “pronta” para ser posta em prática, foram construindo seu roteiro a partir de uma discussão onde as idéias eram apresentadas, sendo refutadas ou incorporadas, até se formar um conjunto harmônico sobre o que deveria ser filmado.
As crianças construíram, juntamente com a pesquisadora, um roteiro temático: elas diziam o que deveria ser filmado, a partir da negociação entre elas, e eu anotava. A filmagem seguiu a ordem deste roteiro. Durante a realização da gravação, além de filmar, tive a responsabilidade de fazer perguntas a elas, de acordo com a temática preestabelecida. Será feita a descrição das cenas, com alguns trechos de falas e ressaltando certas características das imagens para compor a análise:
Cena 1 (5’ e 54”): Toré realizado na escola (na grama): meninos puxam o Toré. As meninas acompanham, sem penetrar a roda (elas respondem). Os meninos estão ornamentados e as meninas não. Eles estão pintados (corpo e rosto) e algumas meninas possuem o rosto pintado. Outras crianças assistem a filmagem.
As crianças escolheram a escola como local para serem realizadas as imagens. Como este é um ambiente comum a elas e, apesar do desejo de alguns, mais inspirados no filme “Os Guerreiros Tingüi-Botó”, de filmar “num lugar com muito mato”, houve comum acordo sobre a escolha deste local.
Entretanto, a gravação não saiu como o combinado: meninos e meninas fizeram juntos o roteiro, acontece que, na hora, apenas os meninos fizeram tinta para se pintar e se ornamentaram. Eles tomaram uma posição de destaque em relação às meninas que não participaram do mesmo modo. Acássia e Sheila, apesar da participação desta última ter sido mais discreta, foram as únicas que ainda tiveram destaque.
No outro dia perguntei à Acássia por que as meninas ficaram retraídas: “eles estavam pintados, a gente não, aí ficou chato!”. Ela explicou que a tinta que eles usaram não poderia ser utilizada pelas meninas “só quem usa é homem”. Depois ela disse: “outro dia a gente faz alguma coisa”. Mas não fizeram!
Cena 2 (1’ e 75”): Didi falando sobre a cultura, “dada por Deus” (dentro da sala de aula).
Como estava anoitecendo, entramos para a sala de aula, local onde foram gravadas as demais cenas.
Cena 3 (3’): Acássia fala sobre a preservação da cultura (agradece a FUNAI “que ajuda a gente, mas não ajuda o tanto que a gente merece [...] não tá dando o direito que a gente merece [...] isso é uma discriminação, nós estamos no Brasil. Índio não tem que tá só nos matos, não. O que importa tá no sangue, tá na fé, na cultura”.
Também no discurso das crianças esteve presente a fala sobre a atuação da FUNAI, sobre os direitos dos índios e a discriminação por parte das pessoas da cidade em que vivem.
Cena 4 (2’, 07”): As crianças falam o nome indígena, o significado deste e, em seguida, o nome em português. Os maiores apresentam os menores: o nome dele é (...). Placinho, enquanto dizem seu nome (Wiraktã, guerreiro) fala: “é não!”, sorrindo. Acássia e Sheila participam (primeiro Acássia diz que seu nome é Tayná e o significado é natureza, depois pede para dizer de novo e dessa vez diz que é guerreira, como já havia apresentado seu irmão João Pedro como guerreiro, ele fala: “guerreiro sou eu, menina!”.
Ao escolher o tema do nome indígena e se apresentarem, as crianças, diferentemente dos rapazes, aliaram a estes o “nome em português”, sem o qual não consideraram uma apresentação completa. O fato das maiores apresentarem os menores indica, talvez, que estas não soubessem “seu nome indígena”.
O tema da natureza apareceu por diversas vezes nas falas destas crianças. A preservação da mata, a associação entre o índio que preserva e o “branco” que destrói” também foram freqüentes. É interessante observar que a associação dos indígenas à natureza sempre esteve presente na literatura indigenista.
No Brasil, Dantas; Sampaio e Carvalho (2006) assinalam que se formou uma polaridade, por parte dos colonizadores e cronistas, sobre os “Tupi da costa” e os “povos do sertão”, polarização que estaria evidenciada no “caso do Nordeste”. Neste sentido há um resgate, por parte das crianças, da visão que considera o índio uma espécie de protetor natural (DESCOLA, 1998), ao mesmo tempo em que se busca contrariar este tipo de polarização em que os “povos do Nordeste”, já “integrados”, não seriam dignos de serem considerados assim.
Cena 6 (1’ e 18”): Acássia falando que a natureza faz parte da cultura “tira os remédios pra curar a gente, os brancos... A gente quer que o branco preserve a natureza igual a nós... Peço que os brancos preservem mais a natureza!”.
Acássia enfatiza o papel dos remédios retirados da natureza. Ela chama atenção para as plantas medicinais que proporcionam a cura tanto dos indígenas como dos “brancos”. O termo “remédio de índio” foi encontrado em várias aldeias localizadas em Alagoas, durante a realização da pesquisa “Especialistas Xamânicos Indígenas em Alagoas: Registros Fílmicos”. Martins (2003), constata que a Jurema, por exemplo, é considerada, entre os Kariri-Xocó, como “o remédio do índio” sendo utilizada em todas as garrafadas. Mota (2007) chama atenção para o fato de que a utilização da planta para a cura deve ser acompanhada pela palavra, fazendo com que, efetivamente, haja eficácia no tratamento.
Cena 7 (1’ e 83”): Vitor sobre remédios. Fala sobre a mata e que o ritual “faz a nossa cultura”.
Vitor continua com o mesmo tema, falando também sobre a importância do ritual (Ouricuri). Quando Vitor enfatiza que “o ritual faz a nossa cultura” podemos estabelecer uma interligação com a fala de D. Lindaura: “se não fosse o Ouricuri, nós todos éramos índios, mas não éramos reconhecidos”. Assim, eles chamam atenção para a organização
coletiva proporcionada pela prática do ritual, o que faz com que ele “faça” a cultura Tingüi-Botó e tenha possibilitado o reconhecimento oficial.
Cena 8 (2’ e 74”): Didi sobre as casas. Explica que “primeiro era de barro, agora é de tijolo” e os mais velhos foram ensinando os Torés e “agora nós tá aprendendo”.
Didi fala sobre o passado escolhendo a moradia para exemplificar as mudanças e chama atenção para a transmissão do conhecimento indígena, passada através dos mais velhos da aldeia. Este tema vem sendo explorado há muito na Antropologia, Florestan Fernandes (1976, p. 68) define a educação como “uma técnica social de manipulação da consciência, da vontade e da ação dos indivíduos”.
Na sua visão sobre a transmissão do conhecimento, Florestan Fernandes afirma que à criança seria permitido reproduzir “uma miniatura do mundo dos adultos em seu universo lúdico”, considerando que “a questão não seria tanto do conteúdo e da natureza do conhecimento transmitido, mas da forma de inculcar nos imaturos as atitudes, as convicções ou as aspirações que deveriam compartilhar com os adultos” (FERNANDES, 1976, p. 78) 28.
Cena 9 (1’ e 08”): Vitor sobre os fundadores da aldeia. Acássia interrompe sua fala dizendo que vão puxar outro Toré.
Vitor, de certo modo, continua o tema proposto por Didi, contando a história da fundação da aldeia.
Cena 10 (5’ e 09”): Torés.
Num dos Torés, Acássia compõe a roda junto com os meninos. No final deste, as pessoas que estão assistindo (alguns adultos também assistem, incluindo o diretor da escola) batem palmas. Segundo Neves (2005), a partir da perspectiva da performance, o Toré tem sido constantemente considerado por especialistas como “sinal diacrítico que confere identidade étnica e legitimidade” aos grupos indígenas situados no Nordeste do Brasil, funcionando como um fator de coesão social. Entretanto, a autora chama atenção
para o fato de que, entre outras, ele delimita fronteiras intra-étnicas” (NEVES, 2005, p. 129).
O “bater palmas” ao final do Toré esteve presente nas gravações feitas com as mulheres e crianças no dia em que os homens foram impedidos de participar das filmagens. Ao assisti-las, Daiana, que não havia participado, disse: “que negócio é esse
de bater palma quando o Toré acaba? Isso não é espetáculo não gente! Vamos acabar com esse negócio, só por que tem uma câmera filmando!”.
Ao assistir as imagens sugeridas por elas, as crianças fizeram críticas, tais como, por terem sido realizadas na sala de aula, as imagens ficaram escuras, o local estava barulhento e as meninas reclamaram do comportamento dos meninos, não lhes reservando o espaço combinado. Deste modo, “o filme” não aconteceu! Apesar disto, o “dia da gravação” foi considerado importante, uma vez que sempre se remetiam a este, em conversas posteriores. Elas também se mostraram orgulhosas das falas, das imagens, enfim, do que haviam proposto. Já os adultos, ao assistirem tais registros, elogiavam essa ou aquela fala, mas, em geral não tinham a mesma paciência que tiveram com as imagens dos “antigos da aldeia” e questionavam se demoraria muito, se não poderia colocar outra coisa para ver.
Como afirma MacDougall (2009, p. 68) “olhar cuidadosamente exige força, calma e afetividade. A afetividade não pode se dá em um nível abstrato, tem de ser uma afetividade dos sentidos”. Deste modo, as pessoas estão inclinadas a “olhar cuidadosamente” aquilo que lhes desperta a “afetividade dos sentidos”, ou seja, estas crianças estavam afetivamente ligadas às imagens que pensaram, ainda que o resultado não tenha sido o esperado. Eram elas que falavam pelos Tingüi-Botó, nestas imagens, consistindo num exercício em que estas puderam, assim como ocorreu com as imagens registradas pelos rapazes, analisar seus desempenhos: comentavam sobre as posturas adotadas, os discursos assumidos, o bom ou mal desempenho de quem falava, sobre seus gestos. Também foi percebido que certas crianças se destacavam em relação às demais a partir do exame das características citadas: foi assim quando comentaram que achavam bonito Vitor falando sobre os fundadores da aldeia. Alguns comentaram que “Acássia fala demais”, ao que outros retrucaram: “mas ela fala bem”. Outra observação feita foi referente aos Torés puxados por Davinho. Este menino foi considerado como aquele que “tem a voz boa pra puxar Toré”.
Já os registros feitos com os “mais velhos” ou “antigos da aldeia” foram bem recebidos por todos. Apesar disto ter acontecido com as demais imagens, estas geraram uma emoção diferente: como foi enfatizado diversas vezes por Daiana, “é importante
para a aldeia ter a imagem dos antigos, as falas deles, por que quando eles não estiverem mais aqui, nós poderemos mostrar para aqueles que só ouviriam falar deles. quem eram. E até mesmo pra gente, quando quiser ver, quando estiver com saudade”.