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Dans le document 1100 SERIES SYSTEMS (Page 80-85)

Exponho que a tarefa de analisar o conhecimento dos pesquisadores foi um tanto quanto difícil. A razão está basicamente situada no entendimento de que ‘entre

o dito e o não dito existe um abismo’, existe um lugar que não se pode visitar.

Durante as entrevistas, houve informantes que, além de se posicionarem enquanto conhecedores de grande parte das normas de avaliação estabelecidas pela Capes, também as salientaram e as discutiram, não restando dúvidas de que a ‘avaliação Capes’ era um tema presente e recorrente em seu cotidiano de vida e trabalho.

Houve outros, entretanto, que disseram conhecer os critérios mas não os indicaram nem os esclareceram durante a entrevista, restando presumir que não o fizeram porque esse não é um tema tão corriqueiro e presente, embora seja sensato pensar no viés do tempo escasso disponível para a concessão da entrevista e no viés da memória do informante. Além destes, outros informantes se situaram no lugar de ‘pouco conhecedores destas normas’, sem demonstrar reservas.

Desta maneira, salvaguardando as observações feitas acima, pôde-se ter uma ideia acerca do grau de conhecimento que os pesquisadores vêm acumulando sobre o formato de avaliação Capes.

O nível de conhecimento que os informantes da Instituição I revelaram ter foi heterogêneo. Isto guarda relação com o campo científico heterônomo de Bourdieu (2002), no qual o capital socialmente outorgado pode ser bastante diferenciado. Levando em consideração esta heterogeneidade, foi possível, em linhas gerais, agrupar os entrevistados no que diz respeito ao conhecimento dos critérios Capes, em dois grupos: os pesquisadores gestores e os pesquisadores não-gestores.

No geral, os pesquisadores gestores referiram ter participado inúmeras vezes dos Fóruns de Coordenadores de Saúde Coletiva e avaliaram estes encontros enquanto momentos ímpares para a compreensão acerca do papel da Capes e de seus critérios, bem como para a quebra da verticalização das ‘normas Capes’, proporcionada pelos esclarecimentos prestados pela coordenação do GT da Saúde Coletiva e pelas discussões estabelecidas com o grupo presente nos Fóruns. Muitos relataram que as informações e os debates originados nestes ambientes são

levados para discussão no interior do programa, com o quadro de pesquisadores permanentes e colaboradores.

Estes pesquisadores (os gestores) mostraram-se informados no que se refere aos critérios que a Capes utiliza para avaliar os programas. No entanto, obtenção de informação não necessariamente significa atitude crítica e reflexividade. Nesse sentido, um dos informantes, apesar de ter vasto conhecimento sobre o assunto, demonstrou na entrevista pouca criticidade acerca do processo de avaliação ao qual vem sendo submetido, situando-se no lugar de subordinado ao processo, embora, em alguns momentos, tenha indicado a participação nos Fóruns como possibilidade de flexibilização das regras.

Alguns destes pesquisadores tiveram contato com as regras Capes antes da inserção nos programas de pós-graduação. Durante a graduação, alguns participaram de programas ou projetos que eram financiados pela agência e durante a fase de pós-graduação, tiveram a oportunidade de assumir cargo de representação estudantil, o que proporcionou a participação em debates com os pesquisadores das respectivas instituições às quais estavam inseridos, bem como em reuniões de colegiado. A introjeção das ‘normas Capes’ num dos informantes fica bastante explícita na fala: “Então ‘normas Capes’ para mim é bom dia, boa

tarde! (risos)... É rotina já. Agora me pergunte: você conhece, ou você gosta?”

(Informante 02, Área de Planajamento e Gestão, Instituição I).

Desta forma, parece haver uma espécie de naturalização das normas Capes, que tem garantido a manutenção do modelo de avaliação e financiamento.

Por outro lado, os informantes não-gestores (dois pesquisadores do programa) não demonstraram possuir vasto conhecimento sobre o modelo. Para eles, as regras Capes se limitam às exigências de produtividade acadêmica. Inclusive, quando se referiam a algum outro critério do modelo de avaliação, faziam afirmações incoerentes quando contrastadas com os documentos utilizados pela Capes para o processo de avaliação. As afirmações equivocadas diziam respeito, principalmente, à inexistência de critério que avalie a relevância social do programa e a inexistência de avaliação de livros na área de Saúde Coletiva.

Quanto ao nível de conhecimento sobre o modelo Capes no grupo de pesquisadores das Instituições II e III, não foi possível estabelecer uma relação com a experiência em gestão do programa. Na Instituição II o nível de conhecimento

observado sobre os parâmetros de avaliação foi heterogêneo. Na Instituição III foi observada grande homogeneidade no discurso, o que nos remete ao campo autônomo de Bourdieu, que se caracteriza, entre outras coisas, por uma maior semelhança quanto ao nível de capital simbólico acumulado.

Tal como referido anteriormente, alguns informantes das Instituições II e III relataram experiências prévias que os aproximaram do modelo Capes. Um deles esteve envolvido desde o mestrado, quando foi contratado para auxiliar na coleta de informações dos docentes do programa de pós-graduação e preenchimento do relatório Capes.

Outro informante teve uma primeira aproximação quando fazia a pós- graduação e era representante estudantil, momento em que percebeu que a avaliação Capes mobilizava o departamento. “Mas as ‘conversas de corredor’ e as

discussões giravam em torno apenas do relatório Capes” (Informante 12, Área de

Ciências Sociais, Instituição III). Para este sujeito, ter sido credenciado à um programa já consolidado no campo significou estar em contato com uma preocupação que ia além do desempenho em relação à avaliação, que se relacionava a definição de metas próprias, independente das normas Capes.

Foi perceptível, principalmente no discurso dos informantes das Instituições II e III, que o envolvimento dos pesquisadores com avaliação Capes vai além da atualização do Lattes e do cálculo das pontuações acumuladas no triênio, a partir do

Qualis das revistas, cujos artigos foram publicados. Alguns relataram participar de

grupos de discussão, inclusive, para buscar alternativas de não deixar o atual gestor do programa solitário na tarefa da produção dos relatórios.

Outro informante, apesar de não demonstrar vasta clareza quanto ao significado dos demais critérios utilizados na avaliação, possui posicionamento crítico quanto ao critério de produtividade científica e da valorização da função da docência. Este informante, inclusive, optou por não se credenciar ao programa há mais tempo para não experimentar o desconforto de ver o colega (com baixa produtividade) ser descredenciado.

No que se refere a uma comparação entre as áreas da Saúde Coletiva (Ciências Sociais, Epidemiologia e Políticas, Planejamento e Gestão), não foi possível estabelecer relação entre o nível de conhecimento e o pertencimento à uma das três áreas.

Os dados indicam que a experiência na gestão do programa de pós- graduação, como coordenador ou vice coordenador, traz uma possibilidade de aproximação com os critérios Capes por meio da participação em Fóruns de Coordenadores da Saúde Coletiva, da elaboração de estratégias de superação das dificuldades encontradas pelo programa, bem como por meio da elaboração dos relatórios Capes que são exigidos no processo.

No entanto, foi revelado que o conhecimento acerca das regras de avaliação Capes não necessariamente está associado ao fato do pesquisador ser gestor do programa, porque este tema está bastante disseminado na academia e envolve as práticas de trabalho e pesquisa do cotidiano. Toda a experiência acumulada pelo pesquisador pode ser transformada numa atitude reflexiva e crítica sobre o formato e avaliação dos programas, no Brasil.

CAPÍTULO III:

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