• Aucun résultat trouvé

Simulation des cotisations avec retraite anticipée

3. Impact de la retraite anticipée sur les cotisations

3.4 Simulation des cotisations avec retraite anticipée

Ave Maria, aquilo era um mau terrível! Quando ela apareceu, todo mundo era tremendo e eu passei muito tempo sem tremer. Não tremia, não. Lá em casa, era todo mundo tremendo. [...] Meu serviço era dentro de casa, pro rio pescando, pra aqui, pra culá. Quando foi adepois, ela bateu em cima de mim e eu tremia comostodo [muito e intensamente]. Quando deixava de tremer, pegava a tarrafa e vinha pro rio pescar; e lá vai, lá vai... depois, rapaz, não deu mais não! Depois, eu caí mesmo que não tinha jeito. Tremia por desgraça! Quando acabava de tremer, caía dentro de uma rede e ficava como morto dentro de uma rede. Febre como um diabo, aí, não podia trabalhar. (Antônio Eugênio da Silva – Pacatanha-CE)

O Sr. Antônio Eugênio Silva18 tinha exatos 80 anos quando, em 15 de setembro de 1998, desvelou suas memórias sobre as vivências de um surto epidêmico de malária. Em sua residência, na comunidade da Pacatanha19, guiado por suas lembranças, revelava, pouco a pouco, as dificuldades que sua família, amigos e conhecidos enfrentaram, ao longo dos anos de 1937 a 1942.

Assim como o Sr. Antônio Eugenio, tantos outros moradores da região do Baixo Jaguaribe tiveram seus corpos violentados por acessos de uma febre intermitente, que levou milhares de pessoas ao óbito. Por muitos desconhecida, a doença invadiu praticamente todos os lares, causando uma quebra brusca em suas vivencias cotidianas.

Antes, porém, de qualquer incursão pelas estradas, veredas, e caatingas que nos levam aos sertões do Baixo Jaguaribe, é preciso esclarecer; As terras localizadas nas ribeiras do rio Jaguaribe, ao longo dos séculos XVII e XVIII, representavam um dos mais importantes roteiros das boiadas e do comércio pecuarista que envolvia as Capitanias do Ceará, Bahia e Pernambuco.

18

Antônio Eugênio da Silva, 80 anos, entrevista concedida ao Prof. José Olivenor Souza Chaves, na comunidade de Pacatanha, em 15/set./1998.

19

A comunidade da Pacatanha fica localizada no alto da serra do Apodi, no município de Jaguaruana, distante 22 km da cidade de Jaguaruana. Com relação as distancias dos municípios que compunham a região do Baixo Jaguaribe-CE, no período do estudo, conferir anexos.

34

A facilidade de água e terras pode ter sito um dos fatores determinantes para que se instalassem nas vazias do rio Jaguaribe, os currais para a criação de gado e à prática da pecuária extensiva.20 Os espaços além das várzeas do rio eram utilizados principalmente para a pastagem do gado.

No final do século XVIII, no entanto, essas terras foram utilizadas para a produção do algodão, produto bastante valorizado no mercado internacional. O porto, localizado na vila de Aracati, era uma das principais vias por onde circulavam os produtos importados que, adentravam na capitania e eram comercializados entre os povoados mais centrais.

Vale ressaltar ainda que, concomitante ao cultivo e venda do algodão, o uso das terras estava diretamente interligado à prática da agricultura de subsistência.

Boa parte da população cearense sofria com as agruras causadas pelas sucessivas epidemias. Assim como grande parte do território brasileiro, desde o período colonial, esse espaço foi se transformando em um ambiente propício para manifestação de diversos surtos epidêmicos. As secas e as pestes são apontadas, pelo farmacêutico Rodolfo Teóphilo (1997, p. 5) como sendo os maus congênitos das terras cearenses.

O médico Barão de Studart (1997), em seu estudo Climatologia

Epidemias e Endemias do Ceará, relata as devastações que epidemias, como

a de varíola, em 1642, causavam entre os índios da Capitania. Do mesmo modo, no século XVIII ocorreu de formas alternadas surtos de bexigas, febre palustre e outras que, associadas ao fenômeno da seca, no dizer de Studart,

quase consumiu todos esses povos.

No século XIX não foi diferente. De acordo com o historiador Olivenor Chaves (1995, p. 83), na Fortaleza dos anos de 1877-79, a varíola, de mãos dadas com a seca, se transformou numa grande epidemia, desenvolvida no meio de uma população aglomerada, oprimida pela miséria e, sobretudo,

abandonada dos preceitos higiênicos.

Ainda em meados do século XIX, por exemplo, a população do Baixo Jaguaribe, em 1851, fora afetada por um surto de febre amarela. Durante os

20 Cf. Valdelice Carneiro Girão. “Da Conquista e Implantação dos Primeiros Núcleos Urbanos

na Capitania do „Siará Grande‟” e José Borzacchiello da Silva. “O Algodão na Organização do Espaço”. In. Simone Souza (Coord.). História do Ceará. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 1994.

35

anos de 1862 e 1864, foi a vez do cólera ameaçar a vida dos habitantes da região. Dez anos depois, 1874, registram-se os surtos de sarampo e bexiga. No início do século XX, mais um surto de febre amarela incidiu na região. (Cf: FERREIRA NETO; 2003, pp. 262-70)

Ao contrário da maioria dos surtos epidêmicos que assolaram essas terras, cujas mazelas estavam intimamente entrelaçadas ao fenômeno da seca, a epidemia de malária, incidente, no final da década de 1930, na região do Baixo Jaguaribe, ocorreu em anos lembrados pelas boas precipitações chuvosas. Antes da propagação da peste malárica, de um modo geral, podia- se ver, nos municípios que compunham a região - Aracati, União, Russas, Limoeiro e Morada Nova - paisagens de anos marcados pela prosperidade.

As paisagens características de um sertão de fartura se podiam ver traduzidas na cheia dos rios, riachos, açudes, lagoas e barreiros... tornando fértil as terras destinados a agricultura de subsistência. Da terra, podia-se extrair a abundância de feijão, de melancia, de jerimum, de macaxeira e de milho. Produtos esses que tornavam farta a mesa do agricultor.

Havia aqueles que usufruíam ainda das riquezas da cera dourada, extraída dos extensos carnaubais que, por longas veredas, seguiam intermináveis na região.

Da segunda metade do século XIX até meados do século seguinte, havia, na região, uma valorização dos espaços cobertos por carnaubais em decorrência, principalmente, do desenvolvimento do extrativismo vegetal, por meio da extração do pó para a produção da cera de carnaúba. Essa matéria- prima era bastante valorizada também no mercado internacional.

O auge desse processo de valorização da cera de carnaúba no mercado internacional foi, efetivamente, a primeira metade do século XX. Da década de 60 em diante, o que se observou foi um processo de substituição, na indústria, da cera vegetal pela matéria-prima sintética e, consequentemente, o início de um movimento de desvalorização da cera de carnaúba no mercado internacional. Esse movimento se tornou crônico no início da década de 70, quando essa atividade se tornou praticamente inviável para a maioria dos produtores, devido a evolução decrescente dos preços internacionais de um lado e a manutenção dos custos de produção de outro, este último provocado pela não modernização do processo produtivo. (SOARES; 1999, P. 64)

36

De acordo com Olivenor Chaves,

A presença ou não da mata-ciliar de carnaubal, definia o uso da terra no período que corresponde ao ciclo da cera de carnaúba. Se por um lado, a extração do pó cerífero era a principal atividade nas propriedades que possuíam grandes áreas de carnaubais; por outro, naquelas em que a presença da carnaúba não era dominante, a exploração agrícola constituía-se na mais importante das atividades. Uma outra característica relativa às propriedades que não eram possuidoras de grandes carnaubais, diz respeito à forma pela qual se dava a exploração agrícola destas áreas: nas grandes propriedades, priorizavam-se, mais comumente, a associação entre culturas de caráter mais comercial como, por exemplo, o algodão e as frutas, e aquelas mais voltadas para o consumo familiar como o feijão, o milho e a mandioca; enquanto, nas pequenas propriedades, cultivavam-se, basicamente, estes últimos produtos que são os componentes básicos da alimentação camponesa.[...] Diferentemente das outras atividades agrícolas, que tinham no arrendamento da terra uma prática recorrente, na atividade extrativista havia uma preferência, por parte dos proprietários, em estabelecer uma relação monetária com os trabalhadores, em vez de lhes oferecer uma parte da produção. (CHAVES; 2002, p. 147)

Da terra, também brotava o “ouro branco” nascido dos algodoeiros, além da atividade da pecuária. De um modo geral, a maioria dos habitantes da região residia na zona rural. Na sede dos municípios, prevalecia a pequena indústria e o comércio.21

O jornal O Unitário, em agosto de 1938, ressaltava que o Brasil passava por um momento favorável, do ponto de vista econômico. Nesse período, a prosperidade também alcançou o Ceará. O periódico destacava, especialmente, o aumento das exportações envolvendo a cera de carnaúba. Enfatizava, ainda, que os Estados Unidos da América foram, em 1937, os principais compradores do produto, importando 6.084.560 kg – um montante calculado em 66.108:040$000 contos. Seguidos ainda pela Grã-Bretanha, com 1.550,854 kg e França, com 459.503 kg.22

Esses países, na maioria das vezes, utilizavam a cera de carnaúba na produção de adesivos, filmes fotográficos, embalagens para alimentos, como lubrificante, na indústria de cosméticos, em gomas de mascar, cápsula para medicamentos, engrenagens eletrônicas, dentre outras utilidades. Não por

21 Cf: CHAGAS, Evandro. Estudos sobre as Grandes Endemias do Brasil – Reimpressão de “O

Hospital”. Dezembro de 1938. Vol. XIV. N. 6. Of. Granf de “A noite” – Rio. p. 14. COC -

Fundo Evandro Chagas - BR. RJ. COC. EC 04.136.

22

37

acaso, a empresa norte-americana Jonhson S.A. resolvera estabelecer-se no Ceará, em 1937, e firmara acordo de cooperação com os agricultores do município de Russas, financiando o plantio ordenado de carnaúbas. (Cf: LIMA; 2008, pp. 43-60)

Dias depois, o mesmo periódico enfatizava que o Japão resolvera comprar algodão brasileiro. Este, segundo a reportagem, seria o nosso

principal produto. Era, portanto, o momento propício para incentivar o aumento

da produção no Ceará.

Tenho prazer de transcrever, para o conhecimento dessa ilustrada redação, o teor da comunicação feita a esta inspetoria pelo Sr. Diretor do S.P.T. :

“Levo ao vosso conhecimento, para os devidos fins, que o Secretário Geral do Ministério das Relações Exteriores acaba de comunicar a este Departamento que, segundo informações do Consulado do Brasil em Kobe, o Japão decidiu comprar, este ano, 300.000 fardos de algodão brasileiro.”

Como se trata de um assunto de real interesse para os que se dedicam ao comércio e a lavoura algodoeira e crendo que tal comunicação muito influirá na exportação do nosso principal produto, encareceria a publicação da presente no jornal que superiormente dirigis.

Saúde e Fraternidade Esmerindo Gomes Parente Encarregado do S.P.T. no Ceará23

Aliada à agricultura de subsistência, o cultivo e venda do algodão, assim como a produção e exportação da cera de carnaúba, compunham a base lucrativa da economia do Baixo Jaguaribe. Municípios como Russas e Limoeiro eram alguns dos principais fabricantes e fornecedores da cera de carnaúba e de algodão.

A partir de 1937, no entanto, como bem enfatizou o Sr. Antônio Eugenio Silva, essa mesma região fora invadida por uma epidemia de malária que em muito modificou a vida de seus habitantes. A doença representou, nos lares rurais e urbanos, um elemento de quebra da normalidade cotidiana, impondo uma nova dinâmica aos afazeres diários, especialmente àqueles que diziam respeito aos trabalhos agrícolas.

23

38