Tendo como finalidade a proteção do paciente optamos por designá-lo de N., como observável na Tabela 1, referente aos seus dados biográficos:
Tabela 1 Dados Biográficos Nome: N.
Idade: 39 Sexo: Masculino
Profissão: Oficial de Pintura Automóvel Escolaridade: 9.º Ano
Naturalidade: Lisboa
Agregado Familiar: Esposa (36 anos) e filha (6 anos)
N. ocupa a primeira posição da fratria de dois irmãos (o irmão tem 30 anos).
Por sua iniciativa, decidiu marcar consulta de Psicoterapia no Centro Clínico BJ no sentido de ter acompanhamento para saber lidar com situações de âmbito profissional, relatando acessos de «stress e agressividade» nesse contexto, o que o leva a tender para a «agressão verbal e violência», não somente «lá no trabalho, como em casa». A decisão envolveu «pedido de opinião à esposa e ao médico assistente de família» relativamente ao acompanhamento psicoterapêutico, pois «o facto de ela estar a efetuar acompanhamento, podia ajudar-me a decidir melhor. O médico de família disse que, nesta situação, era importante ter alguém que me ajudasse. Por isso, decidi vir».
Foi-lhe diagnosticado pelo médico assistente episódio depressivo e medicado com: Alprazolam 0.25mg, 1 à noite. «Alprazolam é uma substância ativa ansiolítica (calmante) e antipânico, rapidamente absorvida por via oral. O Alprazolam Comprimidos está indicado para o tratamento de: Estados ansiosos - os sintomas que ocorrem nestes doentes incluem ansiedade, tensão, agitação, insónia, apreensão, irritabilidade e/ou hiperatividade vegetativa, resultando em queixas somáticas variadas. Ansiedade em doentes com depressão: Sintomas simultâneos de ansiedade e depressão ocorrem nestes doentes…»; e,
Triticum 150mg (tratamento de 9 meses), em que na 1.ª semana a dosagem é de 1/4; na 2.ª semana de 2/4 e na 3.ª semana 1 comprimido - «Triticum é um medicamento que pertence ao grupo farmacoterapêutico: Sistema Nervoso Central. Psicofármacos. Antidepressores. Está indicado na depressão de natureza vária com ou sem componente ansiosa» (Infarmed, 2014).
55 Não efetua outro tratamento farmacológico nem psicológico em simultâneo, nem existem manifestações clínicas relevantes com o próprio e seus progenitores.
No início do processo foram esclarecidos todos os assuntos relativos à confidencialidade e consentimento informado, nomeadamente, o respeito pela sua autonomia, dignidade e autodeterminação, aceitando as suas opiniões, decisões e de todas as características decorrentes da sua afirmação pessoal, com o direito de iniciar, interromper ou terminar, em qualquer momento, a relação profissional com o psicoterapeuta. A participação no ato psicológico é voluntária, sendo dada informação sobre a natureza e curso previsível desse mesmo ato, bem como a estimativa de honorários correspondentes.
No que concerne à confidencialidade, foi referido que o psicoterapeuta assegurará a manutenção da privacidade e confidencialidade de toda a informação a seu respeito, obtida direta ou indiretamente, incluindo a existência da própria relação. Foi ainda dada a conhecer as situações específicas em que a confidencialidade apresenta alguma limitação ética ou legal, podendo ser levantada quando exista uma situação de crime ou de perigo para o N. ou para terceiros, colocando em causa a integridade física. A divulgação de informação confidencial sobre si pode ser efetuada, quando N. der previamente o seu consentimento informado. Inclusive, foi informado que somente se recolherá e registará a informação estritamente necessária sobre N., de acordo com os objetivos da intervenção; o arquivo, manipulação, manutenção e destruição de registos, relatórios ou quaisquer outros documentos acerca do N. são efetuados de forma a assegurar a privacidade e confidencialidade da informação, respeitando a legislação em vigor.
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2.4 Estratégias de Avaliação
Virués-Ortega e Moreno-Rodriguez (2008) recomendam a avaliação multimétodo, sendo que consideramos alguns instrumentos como a observação, a entrevista não estruturada, uma escala e um teste projetivo, com o intuito de estabelecermos o rapport com o cliente, percebermos o motivo da consulta e obtenção da máxima informação, relevante para um melhor enquadramento clínico, e, encontrarmos respostas para delinearmos a melhor intervenção. Por outro lado, possibilita-nos obter elementos comparativos entre avaliações com o fito de percecionarmos a evolução do cliente no processo terapêutico.
Utilizámos a Escala de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS-21), que é uma adaptação da Depression Anxiety Stress Scale (DASS) de Lovibond e Lovibond (1995), aferida e adaptada para a população portuguesa por Pais-Ribeiro, Honrado e Leal (2004), sendo constituída por um questionário de 21 itens de autoavaliação. Esta escala de tipo Likert, tem quatro opções de resposta, em que 0= «Não se aplicou nada a mim» e 3= «Aplicou-se a mim a maior parte das vezes». Avalia três dimensões, apresentando 3 subescalas: ansiedade, depressão e stress, sendo que cada subescala tem 7 itens. Os resultados obtêm-se somando os valores dos itens correspondentes a cada subescala. Quanto mais elevada for a pontuação, mais negativos são os estados emocionais. Os itens agrupam-se nas três dimensões da forma seguinte:
A Ansiedade inclui os itens: 2, 4, 7, 9, 15 e 20; a Depressão, os itens: 3, 5, 10, 13, 16, 17 e 21; e, o Stress: 1, 6, 8, 11, 12, 14 e 18.
Os resultados obtidos através da Escala de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS-21), são compatíveis com um quadro sintomatológico de: Stress - grave; Ansiedade - grave e, Depressão - moderado. Estes dados, vêm ao encontro do motivo e encaminhamento para consulta de psicoterapia.
Foi utilizado também o Rorschach, sistema interpretativo de Exner (2001). Este sistema compreensivo é constituído por dez pranchas/cartões com manchas de tinta cromáticas e acromáticas simétricas em que se propõe ao sujeito uma tarefa percetivo cognitiva. Assim, dá- nos informações acerca de como os indivíduos estão estruturados cognitivamente e acerca dos significados atribuídos às suas experiências percetivas (Exner & Sendin, 1995). Os estudos normativos para as crianças têm sido realizados por Danilo Silva. O estudo normativo para a população adulta tem sido levado a cabo por António Abel Pires. Ambos se têm dedicado ao
57 estudo do Rorschach, desde a década de 90 até aos dias de hoje (Pires, 2005; Silva & Pires, 2011).
Recorremos ao Rorschach com o propósito de obtermos a máxima informação acerca do paciente, que poderá ser adequada na formulação de diagnósticos e na realização de prognósticos, sendo a sua maior virtude a descrição das caraterísticas psicológicas do sujeito (Rodrigues, Almeida, & Gomes, 2000).
As respostas dadas e registadas são pontuadas de acordo com três categorias gerais: a localização ou área da mancha de tinta no qual se concentrara o sujeito, os determinantes utilizados nas respostas como a cor, a forma e a textura e, por fim, o conteúdo. A interpretação global do protocolo baseia-se no número relativo de respostas que cada uma daquelas categorias contempla, dando origem a um sumário estrutural que deve ser analisado de maneira a obter-se as caraterísticas psicológicas do sujeito relevantes no diagnóstico, prognóstico e avaliação do tratamento (Exner, 2003).
O teste projetivo de diagnóstico desenvolvido por Rorschach tem a capacidade de fazer emergir informações relacionadas com os aspetos mais latentes na estrutura dos sujeitos, bem como da dinâmica do funcionamento psíquico e das suas potencialidades (Oliveira, 2004), importantes no encaminhamento para psicoterapia.
Nesse sentido, o teste Rorschach poderá ser igualmente útil na indicação, planeamento e avaliação do tratamento, mostrando se um sujeito pode beneficiar de psicoterapia; indica os aspetos de maior necessidade de mudança psicológica e revela-nos se o paciente tem resistência à mudança (Weiner, 2000).
O sujeito manifesta os seguintes resultados no Teste Rorschach, apresentados na Tabela 2:
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Tabela 2 Constelações psicopatológicas, encaminhamento e prognóstico Valores observados no sumário
estrutural: Rorschach
CONSTELAÇÕES PSICOPATOLÓGICAS ENCAMINHAMENTO Estilo Vivencial
Controlo e Tolerância ao Stress
PTI=2; DEPI=6; CDI=4; S-con=6 M=1; SumpC=2.0
AdjD=-3; CDI=4; EA=3; es=13; eb=5:8 PROGNÓSTICO
Ideação Introspeção
a=4; p=2 FD=2; V=0
N. apresenta como constelações psicopatológicas positivas o índice Depressivo (DEPI=6) e o Índice de Coping (CDI=4). O DEPI - índice depressivo, indica a existência de um estado depressivo relativamente sério; por sua vez, o CDI-índice de Coping=4 sugere a existência de dificuldades em lidar com as situações. O PTI- índice de perturbação do pensamento e o S-con apresentam valores normativos (Carmo & Parracho, 2001).
No que concerne ao encaminhamento para Psicoterapia, como podemos observar através do plasmado na tabela 2, os resultados obtidos (M=1; SumpC= 2), apontam para que o paciente apresente um estilo vivencial ambigual. Assim, o N. não tem um estilo definido de resposta, podendo tanto processar o afeto como usar a ideação na resolução de problemas e na tomada de decisão, revelando um comportamento muito menos previsível (Carmo & Parracho, 2001; Exner, 1991).
No que diz respeito ao controlo e tolerância ao stress, os valores obtidos (AdjD=-3; CDI= 4; EA= 3; es= 13; eb= 5:8), demonstram que o paciente apresenta maior vulnerabilidade para perder o controlo e se desorganizar em situações de stress, pois tem à sua disposição menos recursos para fazer lhes face. Demonstra, igualmente, vulnerabilidade para a impulsividade, nomeadamente, aquando do relacionamento interpessoal (Exner, 1991), indo ao encontro do corroborado por Weiner (2001), tendendo a beneficiar de um processo de psicoterapia de curta duração - uma vez por semana e acompanhamento inferior a 16 meses.
Relativamente ao prognóstico, os resultados obtidos pelo sujeito, consignados no sumário estrutural (a= 4; p= 2), apontam para maior rigidez para mudar o foco do pensamento, sendo um indicador menos positivo, dado que segundo Exner (1994), quando a+p≥4 e um dos lados é o dobro do outro, os valores do paciente são razoavelmente fixos, manifestando dificuldades em alterá-los, sendo assim mais rígido cognitivamente, indicando que pode haver resistência à
59 mudança. Relativamente à autoconsciência, o resultado obtido (FD= 2) indica que o sujeito manifesta capacidade de introspeção, permitindo-lhe reavaliar a sua autoimagem (Exner, 1994).
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