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Simulation électromagnétique

I.2.4 Modélisation des inductances spirales et outils de simulation

I.2.4.2 Simulation électromagnétique

“Somos Todos Turistas!” (MacCannell ,1976)

São incontornáveis as abordagens do turismo como fenómeno de consumo, sobretudo no contexto do debate sociológico. Se a análise do turismo nasce profundamente marcada pela racionalidade económica, e só nos anos 90 do século passado a disciplina atinge alguma maturidade consagrada em agendas de investigação internacionais, sobretudo marcadas pela visibilidade dos trabalhos de Urry (1990,1992a,1992b,1995) e Rojek (1995), o processo de construção da disciplina é muito devedor da análise do turismo como um fenómeno de consumo de massas nas sociedades contemporâneas, tal é como é devedor das abordagens da sociologia do lazer como vimos no capítulo anterior. A linha de demarcação fundamental entre as duas abordagens, pese embora diferenças teóricas de fundo, centram-se no facto das abordagens do turismo no contexto do lazer de filiarem num modelo funcionalista em que o turismo constitui um dos mecanismos privilegiados de reprodução da força de trabalho no contexto de um modelo capitalista orientado para a produção.

Ao invés, no contexto da abordagem da sociedade de consumo, o turismo é analisado numa lógica fordista de produção em massa no contexto de um capitalismo orientado para o consumo e balizado por lógicas simbólicas de controle social. Se o turismo se transforma numa prática de per si, estas práticas parecem estruturar-se num contexto de forte mercadorização (commodification) onde as análises do lazer como liberdade individual no contexto da produção e onde o turismo desempenha aparentemente um exercício de liberdade e escape, passam a ser problematizadas no âmbito da crescente mercadorização da sociedade, onde a manipulação simbólica restringe a liberdade individual e aprofunda o controle social através de signos e mercadorias signo, que no turismo podem ser exemplarmente ilustradas através da encenação comunicacional (Cohen,1988,2004) e da autenticidade encenada (MacCannell,1973) produzidas pela indústria turística e simbolicamente mediadas pelos intermediários culturais (Bourdieu,1979) ou especialistas (Giddens,1994).

O debate em torno da mercadorização (Krippendorf,1987; Cohen,1988,1995,2004; Urry,1900,1995; Lanfant,1995; Halewood e Hannam,2001; Medina,2003; Cole,2007; Uriely,2005) do fenómeno turístico pode encontrar as suas raízes no trabalho pioneiro de Boorstin (1964) que apresenta o turismo como pseudo-acontecimentos ou simulacros do real e o turista como protagonista acrítico no consumo de pseudo-eventos, deplorando o fim da

“verdadeira viagem”. Profundamente crítico da sociedade de consumo de massas que considera subordinada a um incontrolável processo de manipulação simbólica, deplora a desrealização do mundo e a transferência do campo da acção humana para um nível onde toda a experiência é ilusória. Confronta esta mediação, na sua acepção manipulação simbólica, por oposição à “verdadeira” viagem, à experiência autêntica dos viajantes de outrora. Estava lançado o debate da autenticidade que continua a marcar este campo até à actualidade, assim como a clivagem entre viajante e turista, que passa dos relatos de viagem (Sterne,1999) para a academia. (Urbain,1991)

A obra de Boorstin teve o mérito de colocar a problemática do turismo no contexto da sociologia, sendo actualmente considerada como um dos debates fundadores da disciplina. A sua formulação de um turista à procura de atracções pré-definidas, de signos divorciados do real, encenados pela indústria turística e mercadorizados como simulacros e pseudo-eventos, simbolicamente mediados pelos intermediários culturais, teve um forte impacto no desenvolvimento da sociologia do turismo, constituindo actualmente um dos campos de investigação mais produtivos.

Paradoxalmente o legado de Boorstin continua actuante, não só na academia, como na indústria e na própria representação dos turistas. A indústria concebe, planeia e promove produtos para não turistas, tendo ficado célebre a campanha pioneira nesta temática, da operadora Nouvelles Frontiéres nos anos 80, ao postular “Não seja Turista. Viaje Connosco!” Tal como os estudos apontam para que a esmagadora maioria dos turistas, sobretudo os detentores de maior capital cultural se auto-representam como viajantes (Urbain,1991,1998), o que tem vindo a fazer crescer as operadoras especializadas em turismo alternativo ou turismo para viajantes. As análises de Bourdieu continuam actuantes e no cerne das práticas sociais e da negociação, representação e manipulação simbólica dessas práticas, onde o conceito de inflacção simbólica tem aqui um claro valor explicativo.

Posteriormente muitos autores (MacCannell,1973,1976; Cohen,1979,1995,2004; Selwyin,1996b; Wang,1999,2000) criticaram como simplista e unilateral a perspectiva de Boorstin, argumentando com a ausência de suporte empírico da sua análise e implicitamente criticando o autor pela abordagem da figura do turista e da sua unilateralidade. MacCannell (1973) chegou a escrever, “somos todos turistas!”, numa clara alusão à recusa visceral de Boorstin pelo actor turista, que deplorava como o responsável pelo fim da “verdadeira viagem”.

Boyer também argumenta no sentido do carácter de consumo simbólico do turismo, indo mais além ao considerar que a civilização tecnicista contemporânea desenvolveu a cultura sobre a forma de uma cultura de consumo míticoque é oposta da cultura escolar, clássica, a qual se fundava sobre o livro e a palavra e se orientava pela racionalidade; sendo que os mass-media - que são mais que um veículo, um conteúdo em si mesmos - servem para escamotear o presente permitindo o sonho pela imagem. (Boyer,1972)

O autor coloca claramente o turismo como um dos mais expressivos fenómenos de consumo de massas mediado, mediatizado e simbolicamente inflacionado pelos meios de comunicação. Já à época o autor afirmava que a imagem veiculada pelos meios de comunicação representava o turismo como uma prática social generalizada na sociedade francesa quando estatisticamente menos de metade dos franceses faziam turismo. A inscrição do turismo no cerne do consumo de massas enquanto consumo simbólico, mítico nas palavras do autor, é umas contribuições marcantes para a análise sociológica do fenómeno turístico.

A mercadorização da vida social tem sido analisada como um dos aspectos mais marcantes das sociedades contemporâneas (Featherstone,1991) e o turismo como paradigmático deste processo de mercadorização do real, pela capacidade de transformar recursos em códigos de consumo, sob a forma de múltiplos produtos onde os pacotes combinam transporte aéreo, alojamento, sol, mar, genuinidade, tipicidade, autenticidade, modos de vida locais, comercializados sob a forma de experiências únicas.

Rojek (1995) sublinha esta dupla leitura do conceito de mercadorização que tanto converte trabalho em factor de produção, como transforma bens, serviços e experiências em objectos de consumo. O turismo demonstra exemplarmente esta dupla função da mercadorização ao apresentar o produto turístico sob a forma de uma experiência que combina elementos materiais e imateriais, simbolicamente mediados pelos intermediários do sector turístico e dos meios de comunicação. Neste contexto a literatura de viagens tem vindo a assumir um papel de claro destaque onde estes protagonistas desempenham o papel de intermediários culturais (Santos,2004), que tal como definido por Bourdieu, são actores capazes de codificar simbolicamente os produtos num processo onde o consumo e a distinção social são regulados pela produção de material simbólico.

Tendo presente a abordagem de Bourdieu, o consumo turístico pode ser problematizado como marcador da posição estatutária do turista e da sua estratégia de demarcação social, num contexto de manipulação simbólica produzida pelos intermediários que codificam de prestígio

os produtos/destinos turísticos. Esta codificação no turismo acentua a autenticidade dos produtos/destinos e o baixo nível de mercadorização das sociedades de acolhimento num jogo simbólico onde o cosmopolita procura o primitivo e o remoto. (Cole,2007)

Tal como é sublinhado por Baudrillard (1981) é no excesso de presença que os objectos ganham a sua significação designando já não o mundo, mas o ser e a categoria social do seu possuidor. No turismo consomem-se experiências únicas em destinos autênticos, remetendo para a excepcionalidade do consumo turístico em contextos de clara oposição aos lugares quotidianos.

Na perspectiva de MacCannell (1973) trata-se de uma peregrinação, de uma genuína procura pela autenticidade que não é experienciada na vida quotidiana. Numa clara alusão a Goffmann o autor deplora que a indústria turística interdite as regiões de bastidores e comercialize as regiões de fachada, pelo que o turista se vê impedido na sua procura pela autenticidade, acabando por consumir uma autenticidade encenada pela indústria.

As abordagens do consumo de massas entendem a autenticidade da experiência turística, já não como um consumo pelo lado do objecto, autenticidade objectiva, o que é evidente nas abordagens pioneiras de Boorstin e MacCannell, mas uma construção social onde a autenticidade se reporta cada vez mais a signos e mercadorias signo, onde o subjectivismo e a interpretação dos actores ganham estatuto numa perspectiva de uma autenticidade construída tanto pelo olhar do turista, como dos intermediários públicos e privados. Sublinha-se assim a pluralidade da experiência turística e o papel central do actor turista na definição do estatuto de autenticidade das práticas. (Bruner,1991; Cohen,1979, 1988; Hobsbawm e Ranger,1983) Como sublinha Bruner, sintetizando a perspectiva construtivista, “a autenticidade não é mais uma propriedade inerente a um objecto, fixada eternamente, mas antes uma luta, um processo social no qual interesses em competição argumentam pela sua própria interpretação da história.” (1994:408)

A fronteira entre os construtivistas e os pós-modernistas (Baudrillard, 1981; Eco,1993; Brown,1996; Ritzer,1997) situa-se não ao nível do estatuto da autenticidade da experiência turística, mas no facto destas últimas abordagens, ainda que internamente diferenciadas, partilharem como traço comum a desconstrução da autenticidade. Se os modernistas como Boorstin (1964) e MacCannell (1973) deploravam os pseudo-eventos e a autenticidade encenada no espaço turístico, os construtivistas (Bruner,1991;2005; Cohen,1979,1988,2004)

abordam-na como uma construção social, simbólica, sendo que os pós-modernistas aboliram as fronteiras entre a cópia e o original ou entre o signo e a realidade.

Baudrillard (1981) propõe-se explicar numa perspectiva histórica a relação com o real, utilizando o conceito de simulacro. Na perspectiva do autor existem três grandes fases históricas de relação com o simulacro. Uma primeira que abrange o período da Renascença até ao início da Revolução Industrial, onde o simulacro dominante é a falsificação indicando a emergência da representação. A fase da Revolução Industrial é caracterizada pela produção gerando um potencial de reprodução infinita do mesmo objecto. A última fase reporta-se às sociedades contemporâneas e é marcada pela simulação. O mundo contemporâneo é uma simulação governada pela metafísica do código, onde o processo contraditório do verdadeiro, do falso, do real e do imaginário foi abolido.

A abordagem de Baudrillard teve grande eco ao nível dos críticos do turismo de massas, tal como a de Umberto Eco (1993) que ao introduzir o conceito de hiperrealidade, exemplifica como Baudrillard para o caso do turismo com a Disneylândia, considerando que este marco turístico nasceu no contexto da imaginação e da fantasia, sendo irrelevante se é real ou falso, uma vez que não existe referencial original.

Os autores desta linha de abordagem consideram irrelevante o debate da autenticidade no contexto da sociedade espectáculo, precisamente porque não existem referenciais numa sociedade governada por simulações e que consome simulacros.

Este debate que continua até à actualidade (Wang,2000; Uriely;2005) sobre a natureza da experiência turística, é considerado pelos pós-modernistas como irrelevante tanto ao nível da autenticidade objectiva que envolve a representação do Outro ou do passado, como ao nível da autenticidade construída ou simbólica, uma vez que no contexto do hiper real o que prevalece é o espectáculo e a mercadoria signo.

Veja-se a perspectiva de Lipovetsky (1989) que sublinha o efémero, a mitificação, a sedução, onde para o autor o consumo de massas é ditado por valores individuais de conforto, prazer ou utilidade, permitindo aos actores sociais uma multiplicidade de escolhas e favorecendo claramente o individualismo. Para o autor “não é a pretensão social que está em jogo, mas sim a sede de imagens e de espectáculos, o gosto da autonomia, o culto do corpo, a embriaguez de sensações e do novo”. (Lipovetsky,1989:233)

Este tipo de abordagem tem sido fortemente manipulada pela indústria turística ao promover o consumo turístico como uma espaço de liberdade, autonomia e evasão completamente desligado dos constrangimentos e mecanismos de controle social, assim como da complexidade das lógicas de distinção e demarcação social que estruturam o consumo turístico.

Nesta versão pós-modernista os turistas assumem o papel de especialistas e codificam a experiência turística numa perspectiva claramente hedonista e individualizada, onde tão autêntica é uma experiência de um nórdico numa praia apinhada do Sul com 40 graus , como um trekking no deserto a solo. Ou melhor, a questão da natureza da experiência turística nem se coloca a não ser ao nível técnico, já que a autenticidade e a originalidade são, neste contexto, sobretudo matérias técnicas onde o autêntico corresponde à melhor fabricação, representação ou encenação.

Baumann (2007) vê o turismo como uma estratégia pós-moderna e o turista como um caçador consciente e sistemático de experiências.

Como sublinha Uriely (2005) os modos de teorização associados ao pós-modernismo privilegiam a desconstrução, a subjectividade, o cepticismo, a intertextualidade e o relativismo.

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