Entre os respondentes, foi consenso a percepção de que o planeta passa por sérios problemas socioambientais e que parte dessa problemática é causada pelos estilos de vida e de consumo da sociedade atual, o que de certa forma daria aos consumidores uma responsabilidade no sentido de praticar ações e escolhas que tragam mudanças de interesse coletivo. Todavia, o que percebemos é que nem sempre o conhecimento de causa resulta em ações participativas dos indivíduos para com o enfrentamento destas questões.
A primeira observação que gostaríamos de fazer é que a afirmação de Portilho (2005) – na qual cita que a busca por melhorias socioambientais no campo do consumo é muito mais debatida em termos de substituição dos produtos do que da redução do consumo – faz sentido também com o grupo aqui pesquisado. Nas entrevistas realizadas, quando questionados sobre possíveis ações a realizar individualmente para beneficiar uma causa coletiva, foram comumente explanadas ações como a compra de produtos reciclados ou menos agressivos ao meio ambiente, por exemplo, (ou seja, substituição) ao passo que a redução no consumo não foi abordada por nenhum respondente, exceto quando se falava em consumo de água e energia, que parecem ser itens que já estão mais associados à preservação do meio ambiente, o que não implica necessariamente, no entanto, na realização de uma ação concreta para a preservação. Quando questionados sobre a necessidade de redução de consumo de itens básicos no consumo doméstico, sobre a realização de atividades que contribuiriam para a sustentabilidade ambiental como a coleta seletiva, por exemplo, ou mesmo se estariam dispostos a abrir mão de privilégios pessoais como andar de carro para passar a andar de ônibus, visando assim contribuir para a redução de poluentes no meio ambiente, as respostas foram um tanto curiosas. Os informantes, quase na sua totalidade, afirmaram que não praticam nenhum tipo de controle doméstico no consumo de recursos naturais. A
curiosidade, no entanto, foi o fato de afirmarem que uma mudança de hábitos culturalmente aprendidos é difícil de ser implementada de uma hora para outra. Ou seja, o que eles disseram é que têm dificuldades de excluir hábitos de consumo que praticam há muito tempo, mas que uma mudança nesse aspecto se torna possível caso as crianças de hoje sejam trabalhadas para isso:
“Assumo que com energia eu sou meio descuidada. Água eu não controlo, mas eu até briguei com a minha vizinha porque ela gasta muita água. Como ela não trabalha fora, não tem nada pra fazer, ela lava a calçada todo dia, às vezes com a calçada limpa. Eu falo com ela; menina, isso vai fazer falta pro seu filho, pro seu neto. Pelo menos o lixo vai um pouco mais organizado, mas preciso melhorar muito. Tenho consciência que fazer a minha parte só no consumo não adianta, mas preciso melhorar isso. Quanto a deixar de andar de carro para andar de ônibus, isso não é possível, pois não tenho carro. Mas se tivesse, mesmo sabendo que aumenta a quantidade carbonos no ar eu só andaria de carro” (GABRIELA).
“Não, não faço controle de quase nada. A única coisa que faço é fazer três xixis para dar uma descarga, pois não dá tempo de feder. Sou meio bolado com a possibilidade faltar água. Queria também reciclar o óleo, mas não sei onde colocar ou onde doar, mas não jogo no ralo, jogo no lixo. Tinha que ter mais informação. Faltam instrumentos pra gente colaborar mais, além de que já temos alguns vícios, né? Com as crianças é mais fácil. Elas já estão crescendo com a idéia de aquecimento global, poluição da água, do meio ambiente. Naturalmente elas irão aprender a consumir de forma diferente” (PEDRO).
“Primeiramente sei que é necessário mudar o padrão de consumo, pois sem isso o planeta não tem condições de suportar. Sem essa mudança no padrão do consumo, não há possibilidade. Mudanças que devem vir inclusive da gente. Eu não tenho... O fato de eu consumir do Broto não quer dizer que eu mudei meus padrões de consumo. E é difícil você mudar hábitos de uma vida inteira. Você tem seus vícios, a educação que recebeu, gostos que desenvolveu durante a vida. Quem comeu uma coisa a vida inteira, não vai chegar de uma hora pra outra e dizer: agora vou comer só folhinha e tal. Tem a sua satisfação pessoal. Agora, as próximas gerações podem ser bem educadas neste sentido. Você não muda isso de uma hora pra outra, isso tem que ser trabalhado. Se é possível fazer isso nas próximas gerações, elas vão ter consumo diferente e a produção vai ter quê se adequar. Sobre andar de ônibus é complicado. Você não sabe se vai em pé, se vai sentado, fora a questão do horário que você não sabe que horas o ônibus vai passar. Não dá. No consumo doméstico precisamos mudar. Não faço controle. No padrão de consumo eu até tento educar as minhas filhas” (MARCELO).
“Se eu disser que tenho um controle sobre meu consumo de água, energia, lixo, essas coisas, é mentira. Se eu disser então que penso em não comprar uma bolsa ou um sapato novo por que já tenho um que poderia utilizar, apenas para contribuir com a preservação do meio ambiente, é mais mentira ainda. Eu até procuro produtos que sejam mais ecologicamente corretos, mas deixar de consumir não. Na verdade, a gente sempre quer é consumir mais, sempre no limite do nosso orçamento. Tenho que melhorar nesse sentido” (ARIANE).
Enfim, a impressão geral que ficou foi a de que os consumidores têm sim a percepção de que seriam necessárias mudanças em suas ações individuais para colaborar com causas de interesse coletivo, no entanto, essas mudanças encontram-se no patamar da substituição do consumo e não de sua redução, ainda mais quando se fala em ter que alterar hábitos de consumo e estilo de vida das pessoas, corroborando com a afirmação de Portilho (2005) de que a proposta mais discutida é a de mudar os padrões e não os níveis de consumo.
Outro ponto que vale destacar e que nos remete novamente á Portilho (2005) é que a “lógica do carona” faz sentido entre o grupo aqui pesquisado, podendo, inclusive, ser uma das causas para a não realização de ações individuais voltadas para o atingimento de interesses coletivos, pois ficou evidente em algumas falas uma preocupação do tipo “não adianta eu fazer isso sozinho se o restante não irá fazer” e também a divergência entre valores individuais e coletivos, dado a prevalecência dos primeiros:
“É muito complicado falar sobre mudar hábitos apenas por uma ilusão com a sustentabilidade. Você acha que eu vou deixar de sair com o meu carro pra pegar um ônibus lotado, sendo que o trânsito vai continuar cheio? Você acha que vou deixar de comprar algo se a Amazônia vai continuar sendo derrubada daquele jeito? É muito complicado mesmo. A maioria não tá nem aí pra isso e é por isso que eu só faço o que posso, não me privo de nada. Será que os nossos políticos se privam?” (JOAQUIM).
“Já escuto falar de preservação do meio ambiente há muito tempo, mas antes tinha um outro objetivo, por que a situação era menos crítica. Mas a situação agora está mais grave e já surge esse papo de deixar o carro em casa, sair de bicicleta, adotar uma árvore e outras coisas. Tem muita coisa legal, mas tem muita coisa que é só propaganda. Imagina se todo mundo aqui no Rio resolve sair de bicicleta e adotar uma árvore? Vai faltar espaço até pra botar as árvores e não vai resolver o problema. Não adianta uma
parte da população fazer e a outra, que é bem maior não fazer” (MAURÍCIO).
Em suma, o que estamos querendo dizer é que os próprios respondentes da pesquisa reconhecem que sua contribuição individual para interesses socioambientais coletivos é muito pequena, e que quando acontece, fica muito restrita à atividade de consumir um ou outro tipo de produto. Essas observações nos remetem às idéias de Lipovetsky (2004), para quem os indivíduos procuram atualmente colaborar com questões sociais sem, entretanto, assumirem maiores responsabilidades. Ou seja, o pensamento de que os indivíduos são mobilizados por um apelo emocional da mídia e procuram assim colaborar, seja comprando ou doando algo, sem maiores obrigações ou sacrifícios, faz bastante sentido no grupo aqui pesquisado.