Part 7: Learning with Linux
7.2 Simple Programming under Linux
Segundo Castilho (2003), em seu cotidiano, o professor de Língua Portuguesa se depara com três crises distintas, cuja discussão é de suma importância: a crise social, a crise científica e a crise do magistério.
2.1.1. A crise social
Esta primeira crise trata das transformações ocorridas em nosso país ao longo do tempo, sobretudo os resultados dessas transformações no ensino básico, principalmente, no ensino formal de língua materna.
De acordo com Bortoni-Ricardo (apud Castilho, 2003), o processo de urbanização pelo qual passou e passa a sociedade brasileira é um fenômeno tardio, quando comparado ao que ocorreu na Europa. No velho continente, esse processo ocorreu entre os séculos XVI e XVIII. Quando os europeus perceberam os problemas suscitados pelas migrações do campo para a cidade, um fenômeno que somente agora atinge a sociedade brasileira e outros países da América Latina, buscaram soluções pedagógica para esse fato
1 Para a discussão deste item, optamos pela referência da obra de Castilho (2003, A língua
falada no ensino de português), pois consideramos que o autor faz uma síntese precisa sobre a
social. E por isso é ilusório buscar soluções para os nossos problemas no sistema de ensino europeu.
O processo de urbanização da sociedade brasileira pode ser comprovado por meio de alguns números estatísticos. Segundo Love (apud Castilho, 2003, p. 9) em 1872 apenas 31.000 pessoas residiam na cidade de São Paulo, número inferior ao das capitais nordestinas. No ano de 1970, a Grande São Paulo contava com 6.000.000 de pessoas só na capital, e 8.000.000 em todo o Estado. Nesse mesmo ano, apenas 20% da população brasileira habitavam a zona rural e os 80% restante da população era considerada urbana, esses números certamente se acentuaram nesse novo milênio. Ainda em 1920, a zona rural concentrava dois terços da população ativa economicamente. Essa metamorfose ocorreu em todo o território nacional, e trouxe algumas mudanças de valores. A sociedade deixou de sublimar a vida no campo e marginalizar a vida urbana, as famílias começaram a se fixar nas cidades, compondo-se um novo sentido de comunidade.
Essas mudanças suscitam algumas questões: “até que ponto o falar rural permeou o falar urbano? Qual é efetivamente o dinamismo do português urbano em face da linguagem trazida pelos migrantes rurais?” (Castilho, 2003, p. 10). De acordo com Bortoni-Ricardo (apud Castilho, 2003) as pessoas do campo quando expostas às pressões do falar urbano inclinam-se a formar concordâncias redundantes próprias a essa modalidade e a adquirir diferentes terminações verbais. Lemle-Naro (apud Castilho, 2003) afirma, que existe uma relação mútua entre a presença da concordância e um distanciamento morfológico mais intenso entre a forma verbal do singular, da forma verbal do plural (como por exemplo, entre é e são) e a ausência da concordância quando essas formas são morfologicamente aproximadas, (como entre fala e falam, por exemplo). Rodrigues (apud Castilho, 2003) discute que as pessoas que falam o português popular em São Paulo usam as mesmas regras de concordância verbal. Em situações diferentes, há uma menor probabilidade de aplicação dessa regra.
Isso posto, é inegável que os contingentes rurais, ao incorporarem-se, alteraram o perfil sócio-cultural dos discentes do ensino básico brasileiro. Nossas escolas, de ensino fundamental e médio, não mais abrigam somente
os alunos da classe média urbana – que é a finalidade para a qual foram construídas – , mas também filhos de imigrantes rurais analfabetos, recém chegados às cidades e mal adaptados.
2.1.2. A crise científica
Esta crise afeta os estudos linguísticos, e traz consequências ao ensino de língua materna. Para compreendê-la, precisamos trazer à memória algumas teorias que dizem respeito à linguagem e seus correspondentes na teoria gramatical.
É consenso que a linguagem é um ‘objeto escondido’, assim como o objeto de outras Ciências Humanas como a Psicologia, a Sociologia, etc. Para falar sobre ele, temos de partir de postulações prévias e de teorias que constituíram a linguagem como um objeto analisável, isto é, um objeto científico. “Simplificando um pouco as coisas, pode-se dizer que há três grandes modelos teóricos de interpretação da linguagem humana: a língua como atividade mental, a língua como uma estrutura, e a língua como atividade social” (Castilho, 2003, p. 11).
A primeira teoria postula que o homem tem a língua como uma capacidade inata, que lhe possibilita reconhecer as sentenças, e atribuir a elas uma representação fonológica. Uma gramática que, entende assim a linguagem, será uma gramática de competência ou implícita, que visa explicar como as pessoas obtêm uma língua, como elas interpretam e produzem as sentenças dessa língua, e como elas percebem que o interlocutor está falando a sua ou uma outra língua. Esses postulados visam, como último recurso, a Gramática Universal que subjaz às milhares de línguas naturais.
Há ainda uma outra teoria, a teoria da língua como estrutura, que alega que as diferentes línguas naturais dispõem de um sistema composto por signos, distintos entre si por oposição e contraste, dispostos em níveis hierárquicos: o nível gramatical, o nível fonológico e o nível discursivo, este não se encontra em todos os modelos. O objetivo das gramáticas estruturais é identificar as regularidades constantes das cadeias da faculdade do falar, que
são descritivas basicamente, e agem por meio da contextualização da língua em si mesma.
A língua, como atividade social, postula que é por meio da linguagem que externamos nossos sentimentos, veiculamos as informações e agimos sobre o outro, ou seja, a língua é um conjunto de usos concretos, situados historicamente, que envolve sempre um locutor e um interlocutor, dispostos em um espaço particular, interagindo com um tópico conversacional previamente negociado. Esse modo de entender a língua, como é o caso da Gramática Funcional, visa encontrar os pontos comuns entre as estruturas identificadas pelo postulado anterior e as situações sociais em que eles aparecem, contextualizando a língua no meio social.
As duas primeiras teorias, tomadas em seu conjunto, entendem a língua como um fenômeno homogêneo, examinando-a independentemente de suas condições de produção.
A terceira teoria entende a língua como um fenômeno funcional heterogêneo, que é representada por meio de regras variáveis, motivadas socialmente. Em suma, a língua é uma enunciação cuja apreensão, a Semântica e a Pragmática são pontos de partida e a Sintaxe um ponto de chegada.
A Linguística, ora destaca a língua como um enunciado, isto é, valoriza as gramáticas formais, gerativas e estruturais, ora destaca a língua como uma enunciação, ou seja, valoriza as gramáticas funcionais. Conforme Castilho (2003), os mestres com mais de trinta anos de idade atualmente aprenderam, nos bancos universitários, a conceber a língua como um fenômeno homogêneo, e foram iniciados numa gramática formal tendo como território máximo de atuação a sentença.
2.1.3. A crise do magistério
A crise do magistério, ou mais especificamente, a desvalorização da profissão docente. As mudanças ocorridas na sociedade brasileira e a
transição de um paradigma científico para outro colocaram os professores de Língua Portuguesa numa situação muito delicada, não se sabe ao certo “‘que ensinar’, ‘como ensinar’, ‘para quem ensinar’ e, até mesmo, ‘para que ensinar’” (Castilho, 2003, p. 13).
Soma-se a isso as deficiências de formação do magistério. Por exemplo, mais de 80% do professorado da rede pública do Estado de São Paulo tiveram sua formação em faculdades isoladas, mantidas por entidades privadas. E receberam ali uma formação conservadora, válida, talvez, para outrora. Ao ingressarem no mercado de trabalho, os professores recebem remunerações “bem inferiores àquelas vigentes nos anos 60, no mesmo sistema público de ensino, quando um professor paulista ganhava 2/3 do salário de um professor universitário, proporção hoje reduzida a 1/5” (Castilho, 2003, p. 13). Isso fez com que mais mulheres ingressassem na carreira, pois o trabalho feminino continua sendo considerado, incorretamente, como um complemento da renda familiar, visto que, em nossa cultura há ainda os que creem que o homem deve ser o mantenedor da família.
Os materiais didáticos são repetitivos, e pressupõem uma homogeneidade entre o corpo docente que não existe mais. A atual geração de professores tem uma tarefa muito pesada: “reciclar-se, reagir contra o círculo de incompetência e de acriticismo que se fechou à volta do ensino brasileiro, e lutar pela valorização da carreira” (Castilho, 2003, p. 13).
A desvalorização do professor, a discriminação da mulher, as deficiências dos cursos de licenciatura, a falta de materiais didáticos adequados e a passividade, a transição de paradigmas e apatia do professorado tem sido um grande contributo para a situação deplorável do ensino brasileiro atualmente, como comprovam os resultados do PISA ( sigla, em Inglês, para Programa Internacional de Avaliação de Alunos), segundo o qual, os alunos brasileiros obtiveram em 2006 médias que os colocam na 53ª posição em matemática, 48ª em leitura e 52ª em ciências, entre os 57 países que participaram do teste (Gois e Pinho, 2010).