Chama atenção o fato de o CP incidir no homem, em fase produtiva da vida, cujo tratamento pode resultar em mutilação. Além da alteração da autoimagem, destacam-se as consequências para a função sexual e qualidade de vida (MADDINENI et al., 2009). Embora não tenha alta incidência no Brasil, desperta o interesse em pesquisar como o homem adoecido lida com esta situação.
Para a síntese das evidências sobre as implicações psicossociais do CP para o adoecido, foi necessário que ampliássemos a busca por publicações em bases gerais – Public Medline (PubMed) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), para a busca manual em periódicos específicos de oncologia e psico-oncologia, por meio do Portal da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e do Sistema Integrado de Bibliotecas da Universidade de São Paulo (SIBIUSP), como também no Google Acadêmico. Obtivemos acesso a seis publicações na integra sobre a temática, apresentadas a seguir.
O estudo de Romero et al. (2005) investigou o impacto da penectomia sobre a atividade sexual no pós-tratamento. Os autores aplicaram o Index Internacional de Função
Erétil (instrumento que avalia quatro domínios – função sexual, orgasmo, desejo sexual,
satisfação durante a relação sexual, satisfação geral) em 18 pacientes de uma instituição hospitalar do Estado de São Paulo, e demonstrou que há alteração na disfunção sexual do homem de forma reduzida ou completa. A disfunção reduzida implicou diretamente em sua satisfação sexual, porém o tema não foi aprofundado em relação à configuração do papel masculino.
O artigo de D’Ancona et al. (1997) investigou a repercussão da penectomia parcial na qualidade de vida dos pacientes com CP, na perspectiva de três dimensões – ajustamento social, sexualidade e estado emocional – a partir de quatro instrumentos o Overall Sexual
Functioning Questionnaire (OSFQ), Social Problem Questionnaire (SPQ), General Health Questionnaire (GHQ-12) e Hospital Anxiety and Depression Scale (HAD) aplicados a 14
pacientes. Foram identificadas alterações na função sexual e no interesse sexual, autoimagem masculina inalterada em relação a outros homens, assim como alteração pouco significativa de ansiedade e depressão. Os autores ressaltaram que os pacientes retomaram as atividades que desempenhavam antes da doença.
Os resultados dos estudos anteriormente descritos foram integrados na revisão sistemática de Maddineni et al. (2009), a qual focalizou a identificação das necessidades dos pacientes com CP em relação à qualidade de vida, função sexual e aspectos psicossociais. A revisão envolveu seis publicações indexadas no PubMed, no período de 1985 a 2008, com 128 pacientes. Os estudos analisados empregaram diferentes instrumentos para acessar os aspectos em foco. Os autores da revisão concluíram que o tratamento resulta em consequências negativas para o paciente, em decorrência do bem estar prejudicado (acima de 40%). Além do mais, 50% dos pacientes apresentaram sintomas psiquiátricos e, dois terços reportaram redução da função sexual.
O estudo das psicólogas Barros e Melo (2009) traçou o perfil sócio demográfico de pacientes com CP com indicação de tratamento cirúrgico, atendidos em um hospital público do Estado de Pernambuco, e suas respostas emocionais frente a esta realidade, baseando-se apenas em dados secundários obtidos nas fichas de atendimento pré-operatório, num período de sete meses. Envolveu 15 homens com média de idade de 56 anos, com 13 destes submetidos à penectomia e dois submetidos à linfadenectomia. A maioria mantinha união estável, de religião católica, com baixo nível de escolaridade e renda econômica. As repercussões emocionais mais verbalizadas por esses homens foram a insônia, ideação suicida, medo e tristeza intensa.
O foco do estudo de Teles (2011) foi descrever os sentimentos e as percepções de pacientes submetidos à penectomia. A autora entrevistou apenas uma vez os seis pacientes, na faixa etária de 40 a 70 anos, que aguardavam pela cirurgia, no período de julho a novembro de 2007, em um hospital oncológico de Pernambuco. A análise dos dados foi realizada na perspectiva da fenomenologia. Os sentimentos relatados foram de desolação, tragédia e desgraça total. Contudo, diante do sofrimento, houve a confrontação entre amputar e viver, e nesse dilema, o instinto pela sobrevivência levou à aceitação da cirurgia, atitude apresentada.
O estudo de Bullen et al. (2010) foi desenvolvido com base na fenomenologia e objetivou explorar a experiência do paciente com CP. Foram entrevistados nove pacientes ingleses, em período mínimo de 18 meses de pós-operatório, com idades entre 50 e 76 anos, com dois destes submetidos à penectomia total e os demais à parcial. Pela análise dos dados, os autores identificaram três temas: lidando com a realidade, aprendendo a lidar e mudanças na autoimagem. Pelos achados, os autores consideraram que o diagnóstico e tratamento alteraram a masculinidade em vários níveis, devido ao confronto com a imagem idealizada de ser homem. Eles passaram por desafios interdependentes como, perda da intimidade, da aparência física, alterações na função sexual, alterações na relação com a parceira, constrangimentos sociais e medo da recorrência da doença, que demandaram busca por apoio. Os autores concluíram que os pacientes com CP são vulneráveis, apresentam problemas complexos e diversos, requerem um programa de reabilitação com incorporação de aconselhamento psicossexual, com a participação das parceiras. Os mesmos reconheceram como limitações metodológicas do estudo, a não consideração dos dados em relação ao nível socioeconômico e educacional dos participantes, para contextualizar os resultados.
Ao comparar este cenário com o de outras doenças, percebe-se que o CP tem pouco destaque, porém sua relevância não está relacionada à sua característica epidemiológica, mas à importância clínica, tendo em vista a retirada total ou parcial do pênis como principal conduta terapêutica, levando ao comprometimento da vida do homem e de suas relações sociais.
O impacto emocional da doença influenciará na forma que o homem enfrentará o adoecimento. Wenger e Oliffe (2013) realizaram um estudo com 30 homens canadenses, com diversos tipos de câncer, cerca das atividades para manejar a doença em suas vidas. Foram identificadas três grandes estratégias de resposta: fortalecimento dos diversos recursos pessoais e sociais, da manutenção da família e das relações sociais. Nestas atividades, os participantes basearam-se em uma variedade de comportamentos para responder às exigências que os contextos sociais impunham, e que os homens assumem como ideais masculinos,
como força, controle e estoicismo. Demonstraram que é um desafio estar com câncer, mas a maior dificuldade está na busca de ajuda e na manutenção do papel masculino. Dessa forma, o processo de adoecer será guiado pela experiência que cada homem tem com a doença.