Chapitre V : l’usage et les significations de port du burnous
V- 9-Le signe de la démarche de celui qui porte le burnous
[...] Uma mulher oferece à noite o silêncio aberto
de um grito
sem som nem gesto
apenas o silêncio aberto assim ao grito solto ao intervalo das lágrimas
As velhas desfiam uma lenta memória que acende a noite de palavras
depois aquecem as mãos de semear fogueiras Uma mulher arde
no fogo de uma dor fria igual a todas as dores maior que todas as dores. Esta mulher arde
no meio da noite perdida colhendo o rio
enquanto as crianças dormem seus pequenos sonhos de leite.
(“Canto de nascimento” – Ana Paula Tavares)
Sara, personagem de grande importância em A Geração da Utopia, nos é apresentada logo nas primeiras páginas da obra, indicando que talvez tenhamos uma protagonista, questão que será desconstruída logo que começamos a conhecer as outras personagens e o próprio enredo.
A questão posta é: será que o romancista, por ser homem, ainda não consegue construir de fato uma personagem feminina que protagonizará todas as tramas da narrativa ou seu projeto estético se faz precisamente na diluição da importância do protagonista, uma vez que todas as personagens se fazem essenciais para a efabulação e para a crítica ensejada, denunciando mais uma vez o caráter revolucionário do fazer literário pepeteliano?
Embora Sara não seja tomada como protagonista da história em A Geração
da Utopia, ela desempenha um papel importante ao longo de todo texto,
aparecendo logo nas primeiras linhas do romance, acenando para uma representação emblemática dos ideais de liberdade que são anunciados ao longo do romance, ao menos aqui é protagonista de um momento ímpar do
texto, no qual o autor faz uma aproximação imagética entre a figura de Sara, acordando em um dia “particularmente luminoso”, e a liberdade aspirada para Angola [...] (PEREIRA, 2011, p. 02).
Sara aparece como estudante de medicina (e depois, ao longo do curso dos acontecimentos e do tempo da narrativa, se tornará médica), branca, bastante centrada em seus propósitos, idealista, livre, explicitamente de orientação política socialista e com uma visão e atitudes de força e resistência, configurando também uma personagem forte e com valores muitas vezes superiores aos das personagens masculinas. A primeira parte do romance é quase toda dedicada à apresentação de Sara, seus propósitos, ideais, anseios, articulações, sendo esta quase como uma extensão do próprio movimento revolucionário de libertação que começa a despertar nos jovens naquele momento de gestação da revolução.
[...] Nascida em Benguela, feito o final de liceu em Lubango, viera há quase seis anos para Lisboa estudar Medicina. O barco parou um dia em Luanda, os parentes do pai levaram-na a passear. Tragou com avidez todas as impressões, tentou fixar a cor vermelha da terra e o contraste com o azul do mar, o arco apertado da baía e o verde da Ilha, as cores variegadas dos panos e os pregões das quitandeiras. Sabia, começava o exílio. Essa ideia do exílio que se impregnou nela ao sair de Luanda fê-la chorar, quando o barco se afastou da baía iluminada à noite [...] (PEPETELA, 2013, p. 11).
O perfil revolucionário de Sara é sempre exaltado e sua caracterização será construída com base na força e no espírito libertário que sua aura inspira para as outras personagens, trazendo para o seio do romance uma figura empoderada, dona de suas vontades, de seu corpo, inspiração para as ações de luta que começam a se desenhar na história. Através da onisciência do narrador, bem como dos diálogos estabelecidos, Sara nos vem como esta mulher forjada num tempo revisionário, educada também nos anseios de seu tempo, apesar de todo machismo que vivencia (e que nos é mostrado muitas vezes no texto) e outras questões que perpassam a discussão das relações de gênero.
Sara descobria a sua diferença cultural em relação aos portugueses. Foi um caminho longo e perturbante. Chegou à conclusão de que o batuque ouvido na infância apontava a outro rumo, não o do fado português. Que a desejada medicina para todos não se enquadrava com a estrutura colonial, em que uns tinham acesso a tudo e outros nada. Que o índice tremendo de mortalidade infantil existente nas colónias, se não era reflexo direto e imediato duma política criminosa, encontrava nela uma agravante e servia aos seus objetivos. E demonstrou essas ideias numa palestra que fez com um médico cabo-verdiano, no ano passado. Palestra prudente, com cuidadosa escolha das palavras, que lhe valeu muito aplausos no fim, mas
também uma chamada à PIDE, a polícia política, para advertência [...]. (PEPETELA, 2013, p. 11/12).
A afirmação do pertencimento étnico-racial e suas tensões serão anunciadas na fala da personagem, denunciando também o desconforto que começa a surgir nas ainda colônias africanas, bem como a problemática da angolanidade que será rediscutida a partir de movimentos descontentes com os rumos do poder, como o tribalismo e a questão da mestiçagem. Em A Geração da Utopia, este universo será um dos eixos temáticos que atravessará as falas da personagem, bem como sua formação identitária. Sara, apesar de ser branca, se vê “puramente” africana, com valores autóctones, algo que será comumente abordado na obra, situação também que a fará apoiar plenamente a guerra de libertação colonial, mas também se colocará com um abismo para sua aderência.
[...] A raça a contar mais que a origem geográfica? Oh, já estou a ver fantasmas. Ela própria não notara, ao aproximar-se de grupos angolanos, algumas caras mais fechadas, conversas interrompidas? Sim, havia. Era normal. Em Angola tudo estava a tender para uma guerra racial, havia uma repressão seletiva. Isso provocava reflexos em Lisboa (PEPETELA, 2013, p. 18).
O racismo também será uma temática de grande relevância nesta obra, e a personagem se colocará com protagonista deste debate, nos permitindo entender como se dava a relação entre brancos e negros no contexto dos processos de descolonização e a necessidade de se pensar a identidade a partir desse importante elemento.
Todos os dias me pergunto isso. Há muito tempo que sou pela independência e sei que ela vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Posso lutar por ela e à minha maneira lá vou fazendo o que posso. Mas também não queria que os meus pais fossem mortos só porque são brancos. Ou expulsos. (p. 38).
Quer dizer, toda a gente sabia do MPLA, deviam estar a organizar-se, e ela ficava de lado. Por ser branca, só podia ser. Doeu. É uma fase de desconfiança normal, pensou ela. Mas doía na mesma (PEPETELA, 2013, p. 38).
Assim, temos mais uma vez o tribalismo e o racismo sendo anunciados como traços da identidade angolana em ressignificação, exaltados num período de guerra, configurando já a fragmentação nos ideais de uma nação homogênea, impelindo os sujeitos a se observarem a partir da multiplicidade de devires.
A discussão de gênero está presente no romance, nas indagações da personagem sobre o papel da mulher, que se molda para outros contornos políticos e subjetivos, bem como as dificuldades em se pensar um verdadeiro lócus de emancipação, considerando inclusive, a desconstrução do papel da mulher neste limiar revolucionário: “Fora um problema que ela nunca se pusera, até porque as mulheres não iam para o exército, nem as médicas [...]” (PEPETELA, 2013, p. 23).
A gravidez não planejada, a falta de confiabilidade e responsabilidade do namorado, todo o contexto incerto que vive por conta do anunciar de uma guerra em seu país, ao invés de desestabilizar suas certezas, na verdade fortalece o discurso em prol do seu feminismo e autonomia. Apesar de afirmar que é preciso responsabilizar também os homens por suas atitudes, Sara se coloca como única proprietária de suas ações e quereres, mostrando seu caráter libertário.
Problemas? Sim, claro que os havia. Em primeiro lugar, com Malongo. Ia assumir? Quando tivesse certeza, ela ia ser muito clara. Malongo não tinha obrigação nenhuma se não quisesse. Nada de casamentos apressados ou coisas assim. Possas, não era por capricho que tinha ideias progressistas. E ela podia muito bem arcar sozinha com as responsabilidades da filha, se fosse necessário. Mas ao menos que lhe desse o nome, para não ser filha de pai incógnito. Malongo faria isso, não tinha dúvida. A sua relação sempre fora livre, nunca tinham feito planos para o futuro, nem combinado grilhetas. Reconhecer a filha por uma questão burocrática não seria grande problema para Malongo (PEPETELA, 2013, p. 50).
Sara vivencia os acontecimentos de forma muito racional, calculada, representando uma mulher do seu tempo, capaz de gerir sua existência por si mesma, independente, tanto do ponto de vista de suas ideias, quanto de seu corpo, de sua subjetividade.
A sexualidade é vivida de maneira prática, livre, distante de romantismo ou idealizações, uma vez que sua própria existência basta para desenvolver seus planos de emancipação e liberdade; seus afetos são construídos no sentido do compartilhamento de emoções e devires, não para se buscar autonomia ou mesmo uma “posição” na sociedade.
[...] Faria amor com Aníbal? Oh, sim, sem dúvida. Naturalmente, sem se colocar questões, nem a ele. Algo tão natural e fácil como respirar. Nunca o fez, porque nunca aconteceu, porque ele nunca pareceu interessar-se. Faria agora, apesar de Malongo? A ideia perturbou-a. Era diferente, uma coisa não invalidava a outra. Com Malongo era uma torrente, para usar uma palavra muito gasta, a paixão, a atração sexual. Aníbal inspirava-lhe comunhão. Faria amor com ele para com ele se fundir, comungar [...] (PEPETELA, 2013, p. 62).
Pepetela nos coloca esta questão de maneira muito direta, leve, realizando mesmo uma cartografia destes sujeitos forjados na multiplicidade, na reinvenção de si, das subjetividades, das identidades. Essa liberdade sexual é um elemento crucial para entendermos a questão de gênero discutida na obra, bem como da formação identitária imaginada, perpassando pela libertação do corpo da mulher, e denunciando mesmo ainda a visão masculina sexista e tradicional.
Com o amadurecimento dos acontecimentos, vamos encontrando a personagem totalmente independente, livre (Sara aparece na parte “A Chana” e continua marcando presença nas outras partes do romance), o que também se estende para sua maneira de enxergar a realidade e os fatos.
Sua fala é voltada para a crença numa utopia em um mundo possível, do que propriamente a melancolia da qual estamos debruçando nosso estudo. Sara, nome de origem hebraico, significa princesa ou a soberana de um principado, traz esta ideia de nobreza e altivez em sua subjetividade. Também como substantivação do verbo sarar, curar, traz a cura para os males, o lenitivo para as dores.
Sara beirando a resignação, é o fio de esperança em novos tempos, quando se permite acreditar nas mudanças, quando realiza seu amor sereno e plácido com Aníbal na parte O Polvo, no resgate mesmo de Aníbal e seus ideais, na trazer ao mundo Judite, sua filha, como personificação mesmo da utopia de novos tempos.
[...] Sara enxerga o mundo à maneira que lhe apetece, usando “truques para ver as pessoas pelo ângulo que mais as favorece”, segundo Aníbal, (que classifica esta atitude como “generosa, mas pouco realista”); [...] e calcada nessa atitude de benfazejo acaba por figurar uma tentativa de edificação do espectro de coletividade, segundo ponto essencial à luta que se desenha (MATTOS, 2013, p. 23).
Esta personagem traz muitas questões de relevância na narrativa pepeteliana, pois se configura como a própria transfiguração do projeto revolucionário em curso e, mesmo diante da metástase da corrupção, sua esperança e anseios em tempos melhores se faz ecoar durante toda a efabulação, influenciando outras ações.
A esperança anunciada por Sara não se dá por seu lugar “materno”, “naturalmente amável e dócil” marcado no feminino, mas na construção de uma subjetividade que precisa se criar/fazer na resistência, nas formas de enfrentamento a toda uma sociedade que ainda subalterniza e violenta as mulheres. Este devir revolucionário que nasce em cada personagem, em especial em Sara, como personagem empoderada de si, denota esta estética
pepeteliana no sentido de permitir que se ouçam outros lugares de fala, a partir de uma tradução que se inscreve na conciliação e no aprendizado de devires outros.