da Aliança Mundial para Segurança do Paciente, muitas pesquisas surgiram, objetivando medir a cultura de segurança nas organizações de saúde, por meio da aplicação de instrumentos de mensuração da cultura de segurança (CARVALHO, 2011).
No entanto, o interesse pela questão já existia entre os pesquisadores da área bem antes do movimento global da OMS, como se constata no estudo de revisão bibliográfica de Halligan e Zecevic (2011), que encontrou pesquisas sobre as dimensões de cultura de segurança do paciente publicadas em 1980 em várias bases de dados na língua inglesa.
A partir das pesquisas de revisões sistemáticas, cujo período de busca foi de 1980 a 2012, constatou-se o uso predominante de questionários psicométricos como ferramentas para medir a cultura de segurança do paciente, bem como o esforço da comunidade científica em conceituar, caracterizar e identificar uma tipologia da cultura de segurança do paciente no ambiente hospitalar, desde a década de 1980 (COLLA
et al., 2005; SAMMER et al., 2010; HALLIGAN; ZECEVIC, 2011; NASCIMENTO,
2011; WEAVER et al., 2013; e XUANYUE et al. 2013).
A pesquisa realizada por Colla et al. (2005) encontrou nove instrumentos que avaliavam o clima de segurança nas organizações de saúde: Strategies for
Cultures in Healthcare Organizations (PSCHO), Veterans Administration Patient Safety Culture Questionnaire (VHA-PSCQ), Culture of Safety Survey (CSS), SAQ, Safety Climate Survey (SCS), Medication Safety Self Assessment® (MSSA), Hospital Transfusion Service Safety Culture Survey (HTSSCS) e HSOPSC. Todos estes
instrumentos utilizam escala do tipo Likert principalmente para medir a atitude dos indivíduos, e quase todos os instrumentos contemplavam cinco dimensões comuns: liderança, políticas e procedimentos, pessoal, comunicação e notificação de eventos. Dentre estes instrumentos de avaliação da cultura de segurança do paciente, o HSOPSC foi validado e aplicado em países como os Estados Unidos e em vários países da Europa, Ásia, Oceania e na América Latina, por sua abrangência pluridimensional (Sarac et al., 2011).
O HSOPSC possui múltiplas dimensões da cultura de segurança do paciente, e foi transculturalmente traduzido e validado para uso nas organizações brasileiras de saúde, de modo que optou-se por sua aplicação também nesta pesquisa. Outro aspecto importante, é que ele atende os objetivos deste projeto de pesquisa ao buscar diagnosticar o estado de segurança do paciente com finalidade de identificar as áreas que possam apresentar riscos de danos para ele, uma vez que tem um vasto leque de domínios culturais específicos das áreas da cultura de segurança do paciente (Sorra; Neiva, 2004).
O estudo de adaptação do questionário HSOPSC à realidade brasileira apresentou resultado com nível muito bom e aceitável, na confiabilidade da consistência interna do instrumento, com coeficiente alfa de Cronbach alto (α=0,91) para todas as dimensões (Reis, 2013).
Elaborado por uma organização de pesquisa privada, sob contrato de financiamento da AHRQ, o HSOPSC contou também com o apoio da Quality
Interagency Coordination Task Force (QuIC), uma agência federal dos Estados
Unidos envolvida na melhoria da qualidade do atendimento em saúde (Sorra; Nieva, 2004). A missão da AHRQ é produzir evidências científicas, por meio de investigação biomédica, para tornar a saúde mais segura, com mais qualidade, mais acessível e equitativa (AHRQ, 2014).
O desenvolvimento do HSOPSC pelos pesquisadores responsáveis teve uma série de etapas preliminares, iniciando por uma ampla revisão na literatura em áreas relacionadas com gestão da segurança, clima e cultura organizacional, erros médicos, relatórios de eventos, acidentes nas indústrias nucleares e na saúde. Os
pesquisadores também utilizaram outros instrumentos existentes e conduziram entrevistas com os funcionários de hospitais (AHRQ, 2014). Para considerar o HSOPSC concluído e apto para uso, seus autores realizaram um teste piloto com mais de 1.400 funcionários de 21 hospitais nos Estados Unidos e, posteriormente, ele foi revisto, sendo mantidos somente os melhores itens da escala Likert. Com isso, o resultado da aplicação do HSOPSC apresentou boas propriedades psicométricas para os itens incluídos (SORRA; NIEVA, 2004). A versão final foi apresentada com ênfase nos aspectos da segurança do paciente no nível da unidade e do hospital, bem como nos relatórios e nas notificações dos eventos adversos.
Flin et al. (2006) evidenciaram que apenas o HSOPSC foi submetido à análise fatorial para testar as dimensões e as subescalas, apresentando dados ajustados e bons coeficientes de alfa de Cronbach, quando comparado com outros questionários de mensuração da cultura de segurança do paciente.
No guia do questionário para o usuário (User’s Guide), as autoras Sorra e Nieva (2004) reforçaram o conceito de cultura de segurança do paciente, já expressado pela ACSNI em 1993, indicando sua compreensão como um produto dos valores individuais e de grupo que repercutem no estilo e na gestão da saúde e segurança de uma organização.
As versões originais em inglês e espanhol do questionário HSOPSC e do User’s
Guide estão disponíveis ao público, no site da AHRQ (AHRQ, 2014). Desde 2004,
centenas de instituições hospitalares, tanto americanas, como de outros países, têm adaptado e aplicado este instrumento. Devido à essa vasta aplicação do HSOPSC e aos inúmeros pedidos de hospitais interessados em comparar seus resultados com os de outras instituições, a AHRQ desenvolveu um banco de dados comparativo sobre a pesquisa desde 2006, no qual foram incluídos dados de 382 hospitais americanos; anualmente, ela publica o relatório aos usuários (AHRQ, 2014).
Para o relatório da pesquisa de 2014, a AHRQ recebeu dados de 653 hospitais. A taxa média de resposta foi de 54%, com média de 621 questionários aplicados por hospital. A maioria (76%) utilizou-se de aplicação pela internet, mas teve taxa de resposta baixa (54%) quando comparada à das respostas no papel (69%) (AHRQ, 2014)
As três áreas ou fatores de cultura com porcentual médio mais elevado com respostas positivas foram o trabalho em equipe dentro das unidades (81%), as ações e expectativas promotoras da segurança (67%), a aprendizagem organizacional e
melhoria contínua (73%). Já as áreas com menores respostas positivas foram resposta não punitiva ao erro (44%), passagens de plantões e transferências (47%) e profissionais (55%) (AHRQ, 2014).
Buscando orientar estes hospitais avaliados sobre os próximos passos que devem tomar para transformar seus resultados em melhoria real da cultura de segurança do paciente, a AHRQ (2014) propôs que: entendam seus resultados de pesquisa; divulguem e discutam tais resultados; desenvolvam planos de ação focados; comuniquem-se os planos de ação bem como os resultados; implementam os planos de ação e acompanhem seu progresso; e avaliem o impacto, compartilhando o que funciona.
Estes passos propostos pela AHRQ reforçam o que muitos estudiosos em segurança já expressam: todo e qualquer exame da cultura de segurança deve vir acompanhado de uma proposta de sua melhoria, com vistas a fortalecer as áreas que apontam uma frágil cultura de segurança do paciente na organização avaliada.