A reunião seguinte iniciou pela educação permanente, com a discussão de um caso clínico (não o solicitado pela pesquisa), mas sobre uma usuária do CAPS, advinda de longa internação psiquiátrica, com história de rejeições importantes. Na discussão, foram pontuadas: as dificuldades da paciente em aderir aos grupos, respeitar os limites e regras das atividades; suas limitações cognitivas; sua relação familiar fragilizada; e parte da equipe reforçar o
comportamento infantilizado desta. Além dessas particularidades, a usuária mantinha relações afetivas com outro paciente do serviço, e, em certas ocasiões percebiam interferência na dinâmica terapêutica do mesmo, como relataram, nomeando a relação como “fusionada”. Compreendiam que não era simplesmente decidir a participação ou não do casal nas atividades, tampouco estabelecer um limite para a usuária, como foi sinalizado.
A discussão partia das peculiaridades de cada um, da relação do casal, perpassava pela compreensão da natureza de cada grupo terapêutico. Era importante entender a relação do casal na instituição, fora dela e em cada grupo, para traçar estratégias que pudessem ser terapêuticas. A equipe ia compreendendo que as ações não poderiam ser construídas a priori, mas no cotidiano do serviço com o casal e com cada um deles.
Assim, foram destacadas as dificuldades dos profissionais individualmente no manejo com alguns usuários. Interessante destacar que a discussão não se restringia ao diagnóstico nosológico puramente, ao abordar a condição psicótica da paciente e ressaltar algumas de suas características (a “fusão com o namorado”, a “falta de limite”, a “invasão nos outros espaços não permitidos a ela”). Retornavam na história da mesma o abandono familiar, o tempo de permanência em uma instituição asilar e como estes fatores foram importantes para o adoecimento dela. Em seguida, ampliaram a discussão, destacando as temáticas: “limites”, “escuta” e “relações”, inclusive, comentando ao: “falar do caso L., pensamos nos mais diversos pacientes”.
4.2.1 Outro caminho...
Tem dias que a gente se sente, como quem partiu ou morreu, a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu, a gente quer ter voz ativa no nosso destino mandar, mas eis que chega a roda-viva, e carrega o destino pra lá. Roda mundo, roda- gigante, roda-moinho, roda pião, o tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração. A gente vai contra a corrente, até não poder resistir, na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir, faz tempo que a gente cultiva a mais linda roseira que há, mas eis que chega a roda-viva e carrega a roseira pra lá... (Roda Viva, Chico Buarque)
Essa quebra é meramente ilustrativa, não houve uma interrupção brusca na discussão do caso, mas, ao abordá-lo e ampliar as perspectivas terapêuticas, esbarrava-se nos limites institucionais, trazendo à tona o que seria o mote para repensar o problema original desta pesquisa. O caso não foi encerrado porque seria necessário retomá-lo outras vezes, embora houvesse uma mudança clara na pauta da reunião.
a mais angustiante delas: o “Acolhimento”. Ainda não havia gravação de áudio da Roda, mas uma enxurrada de queixas adveio por toda a equipe e foi possível registrar algumas:
Nossa lista de espera de pacientes para iniciar atendimento no CAPS já passa de setecentos (700)”; “familiares querendo laudo para interditar paciente e não tem médico para realizar”; “pacientes graves no acolhimento, encaminhamos para o Hospital de Saúde Mental de Messejana (HSMM) e não são atendidos, sendo reencaminhados para o CAPS”; “Justiça solicitando perícia”; “pacientes perdendo benefícios no INSS por falta de médico para realizar laudo”; “somos ameaçados por pacientes quando temos que explicar a impossibilidade de iniciar, de imediato, o atendimento psiquiátrico no CAPS”;“os vínculos estão precários”; “nossa estrutura também é precária, insuficiente, só está muito bem pintada, mas, isso não basta”; “o ministério público só empurra na agenda médica”; “como vamos abrir prontuário sem condições de atendimento?”
Relataram, ainda, sobre um paciente que após interromper o uso das medicações psicotrópicas prescritas (por falta delas no serviço), apresentou ideação persecutória, alucinações auditivas, provocando agressões físicas ao irmão com sete facadas. Foi encaminhado ao HSMM, “mas não o receberam alegando que não estavam atendendo porque os profissionais estavam sem receber salários” (informação repassada pelo familiar à equipe). Somente este caso daria uma dissertação de mestrado, não é apenas a falta de medicação que levou ao surto. Este caso emblemático sinaliza a que condições estes e todos os demais pacientes devem se submeter para uma suposta atenção pública em saúde mental.
Enquanto em relação a L., a paciente que foi discutida no início deste subtítulo, a equipe destinava um tempo para repensar seu projeto terapêutico no CAPS, neste outro, viam- se diante de uma grande limitação e impotência. Os casos discutidos pela equipe nos remetiam a conhecida expressão “escolha de Sofia” – que se tornou sinônimo de uma decisão de difícil escolha, quase impossível: a quem salvar da morte? Sofia, uma polonesa Judia, foi obrigada a escolher quem salvaria entre seus dois filhos em um campo de concentração, durante a segunda guerra mundial.
As falas seguintes eram experienciadas pela pesquisadora como grande desabafo: “todo o serviço está sobrecarregado, todos os outros serviços estão sobrecarregados, não têm vagas, não têm leito, não temos médicos, não temos psicólogos suficientes, não temos estrutura adequada”, um outro profissional interrompe: “não temos saúde, estamos todos adoecendo, nós e os pacientes”. Diante do caos, cogitaram fechar o “Acolhimento” para avaliação inicial, já que a lista de espera já passava dos setecentos (700), sem qualquer vislumbre de melhoria. Foi apontado que acolher é se responsabilizar, é se implicar. Nessa direção, se questionavam até que ponto o “Acolhimento” cumpriria sua função, ou serviria meramente a um ordenamento
burocrático.
Um profissional levantou a proposta de reflexão por toda a equipe sobre prosseguir com as avaliações iniciais no “Acolhimento”. Reconhecia que anteriormente percebia a lista de espera como instrumento potente de argumentação diante da Justiça para requerer melhoria técnica e estrutural do CAPS, mas notou a estratégia ser diluída quando uma ação coletiva por parte dos pacientes (totalizando mais de mil usuários) ter sido individualizada. Como solução para alguns desses casos judiciais, que deram prosseguimento na ação individual, foi exigir que o CAPS os atendessem de imediato. Para isso, foi necessário encaixá-los na agenda superlotada do psiquiatra, que já avalia a cada quatro meses ou mais seus próprios pacientes.
A discussão prosseguiu, “não somos campanha de vacinação, não podemos focar em metas de produtividade. Somos CAPS, destinados a casos graves, precisamos debruçar sobre cada um e isso leva tempo”. Do outro lado da roda, mas no mesmo movimento, outro sinalizava: “um psicótico grave, persecutório, não é como ver um paciente clínico pontual, tem muita coisa envolvida”. Embora todos concordassem em determinados pontos, começavam a surgir inseguranças de outra ordem: “minha vontade é gritar todas as merdas com a justiça e com a gestão, pacientes surtando, sem remédio, sem comida, sem vale transporte suficiente, mas, se falo isso, amanhã estou na rua, tenho filhos para sustentar e não sou concursada”.
Nesse momento, a hora já era avançada e foi acordado retornar outras vezes essa pauta, reconheceram que o “Acolhimento” não poderia continuar desta mesma forma. A coordenadora estava de férias e só retornaria em quinze dias, a equipe considerava de fundamental importância a sua participação nesta discussão.
Na semana seguinte, não houve pesquisa de campo em decorrência do “Fórum nacional de saúde mental e direitos humanos” realizado em Florianópolis. Mas, segundo informações fornecidas pelos profissionais, a Roda ficou restrita ao planejamento de um evento festivo que ocorreria no mês de julho na unidade.