As origens do bairro assim como a intensidade e variedade das circulações de pessoas e mercadorias lançam luz para como o Brás, juntamente com outros centros paulistanos de comércio popular, toma a forma de uma espécie de “nó” da “globalização por baixo” (PORTES, 1997; TARRIUS, 2002), na medida em que se vincula a diversos circuitos comerciais nacionais e transnacionais, por onde transitam pessoas de diferentes origens atraídas pelas vantagens dos diferenciais de preços das mercadorias ali transacionadas (RANGEL, 2015). Mercadorias estas que, por sua vez, possuem diferentes origens e, até chegar ao consumidor em São Paulo, atravessam diversas fronteiras geográficas e regulatórias (PINHEIRO-MACHADO, 2011), tanto por vias oficiais – através da multiplicação de empresas importadoras (FREIRE DA SILVA, 2018) –, quanto pelos circuitos das “vias secundárias da globalização” (KNOWLES, 2018).
Atualmente, a principal imagem da globalização materializada no comércio popular em São Paulo se verifica pela quantidade de mercadorias chinesas – situação já naturalizada – e também pelas discussões em torno dos novos movimentos migratórios que se dirigem ao bairro. Já há alguns anos, é visível a presença dos bolivianos que habitam e trabalham na região, multiplicando as oficinas de costura e inseridos também no comércio ambulante, distribuindo mercadorias que eles mesmos produzem (FREIRE DA SILVA, 2014). Não menos evidente é a presença, ainda mais recente, de migrantes africanos e haitianos que ganham as vidas no comércio ambulante na região central de São Paulo. De acordo com Freire da Silva (2014), o processo de reestruturação produtiva, principalmente durante a década de 1990, teve grande impacto sobre os processos migratórios que marcam as feições contemporâneas do comércio popular em São Paulo. A intensificação das estratégias de subcontratação e a demanda por trabalho mal pago e sob negociações alheias à legislação trabalhista favoreceram os agenciamentos de
trabalhadores migrantes. De modo que “a própria mobilidade dos imigrantes se transforma em um nicho de exploração econômica pautada em mercados ilícitos para a facilitação da imigração irregular” (FREIRE DA SILVA, 2014).
Glória é uma dessas imigrantes. Sua trajetória enquanto imigrante ilegal e trabalhadora informal nas franjas da indústria de confecção é digna das histórias que ganham as páginas dos noticiários. Ao mesmo tempo, sua capacidade de aproveitar as brechas que se abrem nos interstícios dos processos de produção e circulação no comércio popular demonstra que também estamos diante de um campo de possibilidades concretas, ainda que restritas, instáveis e aquém dos sonhos de mobilidade daqueles que deixam seus países com grandes expectativas.
Glória
Conheci Glória nas ruas do Brás enquanto ela trabalhava em uma banca de ferro na calçada, vendendo roupas infantis. É uma mulher baixa e branca; óculos grossos e rabo de cavalo. Glória é paraguaia. Está já há 14 anos no Brasil. Sua primeira ocupação no país foi como “escrava de bolivianos”, em suas palavras. Em meados de 2004, em Assunção, capital paraguaia, ela conversou com um homem que a convidou para trabalhar no Brasil. Um paraguaio buscando costureiras para trabalhar em oficinas em São Paulo. Ela já havia feito um curso de costura, “era muito boa costureira”. Havia se separado do marido há algum tempo e cuidava dos cinco filhos. Na época, diz que ficou muito animada com a possibilidade de migrar para o Brasil. “Todo mundo viajava, falava que ganhava dinheiro no estrangeiro”. De fato, muitos daqueles migrantes que se inserem na indústria de confecções em São Paulo já chegam com certo conhecimento no ramo, e aqueles que atuam como mediadores dessa migração já garantem a inserção dos trabalhadores em oficinas específicas, que, apesar da mediação da rede étnica, não correspondem, necessariamente, a patrões com as mesmas nacionalidades dos migrantes ou agenciadores.
Glória veio sozinha para o Brasil. Os filhos ficaram com a avó materna. Imediatamente, foi alocada em uma oficina de costura cujos donos eram um casal de bolivianos. Ao longo de dois anos, trabalhou praticamente todos os dias, das sete horas da manhã à meia noite, com folgas esporádicas e não planejadas. Ela se lembra de ganhar cerca de 0,15, 0,20
centavos por peça produzida. “Dava uns 150 reais a cada quinze dias”. “Não tinha domingo, não tinha feriado, nada”. Segundo ela, os donos tinham receio de que, com folgas mais definidas e livres, alguém aproveitasse a oportunidade para denunciar e a oficina fosse fechada.
Apesar da combinação entre ambiente doméstico e espaço de trabalho, essas experiências não podem ser associadas às situações de trabalho em domicílio, tradicionais na realidade brasileira. Principalmente por não configurarem a inserção da esfera produtiva na esfera da reprodução, inclusive porque o espaço supostamente doméstico não se confunde com um ambiente familiar nem, necessariamente, afetivo. Ao contrário, sendo o ambiente caracterizado pelo aspecto produtivo, o que temos são momentos de reprodução na esfera da produção, que, dada a jornada e as condições de trabalho, pode adquirir conformação quase totalizante na vida desses trabalhadores.
Meses depois de chegar, Glória tentou trazer as filhas. Na época, uma com 10 e a outra com 7 anos, que foram alojadas no mesmo quarto da mãe. “Aí me escravizaram mais ainda. Começaram a cobrar a comida no meu pagamento. Falavam que as meninas comiam muito. Tudo que quebrava diziam que era culpa delas. […] A mais velha chorava todos os dias”. Ela terminou por enviar as filhas de volta para o Paraguai. “Eu também chorava todos os dias”.
Até que ficou sabendo por uma das colegas de trabalho de uma outra oficina que procurava costureiras. Os proprietários eram coreanos. Glória conseguiu se desligar dos bolivianos e foi contratada pela nova “firma”, como ela diz, como piloteira16. Aqui, o tom de Glória muda e ela adota um semblante mais aliviado. O trabalho na nova oficina também era intenso, mas com uma jornada de trabalho menos exaustiva e melhor remuneração. A relação com os novos patrões também era melhor, Glória os define como “honestos” e “justos”. Foi trabalhando nessa oficina que ela aprendeu melhor o idioma. Hoje, fala o português perfeitamente.
Após dois anos, Glória negociou com a dona, uma coreana, e montou a própria oficina, em casa. “Já pensando nos meus filhos”. “A coreana comprou todas as máquinas, e eu ia pagando com as peças. […] Só produzia para eles. Ela confiava muito em mim”. Ela
16 No setor de confecções, a “piloteira” (em geral, no feminino mesmo, dada a presença predominante das
mulheres na atividade) é a pessoa responsável por confeccionar a “peça-piloto”, o modelo a partir do qual outras peças serão produzidas. Ou seja, é uma função importante na cadeia de confecções.
recorda esse episódio de sua vida com muita satisfação. “Foi legal!”, diz com um sorriso, rompendo a tristeza que pairava ao longo da narrativa.
No entanto, logo a sucessão de desventuras continua. Nesse período, Glória trouxe seu filho mais velho. Moravam na Vila Ema, onde pagavam R$1 mil de aluguel. Certo dia, policiais bateram à sua porta. O vizinho (segundo ela, um russo) havia denunciado a oficina informal e a imigrante ilegal, por conta do barulho. Neste dia, ela ouviu das autoridades que não poderia mais ficar no Brasil. Na mesma noite, juntou seus pertences e as máquinas de costura e se mudou com o filho para outra casa.
Com medo de ser expulsa do Brasil, Glória procurou um padre conhecido por ajudar imigrantes. Foi apresentada a um advogado que deu início a um processo, tentando legalizar sua permanência. O processo rolou por alguns meses, ela não sabe ao certo quanto tempo, só se lembra que teria de pagar R$6 mil ao advogado. “E eu tendo que pagar as máquinas, as costureiras, o aluguel. Não sabia o que fazer. Aí veio a anistia”. Em 2009, na semana em que deveria pagar ao advogado, o Governo Federal anunciou que seria instituída a anistia aos imigrantes vivendo no país, inclusive para aqueles que entraram no país ilegalmente. Ela nunca pagou ao advogado pelo processo.
Diferentemente do filho, que rapidamente providenciou os documentos após a anistia, Glória demorou a fazê-lo. O vizinho denunciou-a novamente (ela havia voltado para a casa antiga). “No outro dia a Polícia Federal veio e levou minhas máquinas”. Ela ficou sem sua fonte de renda. Conhecia uma mulher cuja pequena fábrica havia “quebrado” recentemente. “Ela falou, ‘não tem como você ajudar a vender’?”. Glória então pegava as roupas da mulher e revendia sob um tripé no corredor central da Feirinha da Madrugada. Essa forma de venda era contra as regras da Feirinha, uma vez que atrapalhava a movimentação entre os boxes. Até que uma pessoa bastante influente entre os comerciantes da Feirinha veio até ela e a incentivou a invadir um box. Assim ela fez, invadiu e ocupou um dos boxes vazios17.
Após a mercadoria da mulher acabar, Glória voltou a produzir em casa, agora sozinha, em um volume muito menor, de modo que, para vender, complementava a mercadoria
17 Para os comerciantes da Feirinha, a invasão de box é recebida de maneira ambígua. Por um lado, é
reconhecido o direito dos responsáveis legítimos pelos boxes, por outro, é consenso que a manutenção de boxes fechados prejudica os outros comerciantes do mesmo corredor, visto que deixa o espaço menos atrativo para os clientes.
que produzia com outras adquiridas quase aleatoriamente entre os ambulantes. Comprava mais barato entre os ambulantes nas ruas pequenas quantidades de mercadoria que revendia na Feirinha, obtendo algum lucro.
Nos últimos tempos, as vendas de Glória na feirinha caíram muito. “Não vendia praticamente nada. Teve um dia que fiquei sem dinheiro, não tinha dinheiro nem para o ônibus”. Preferiu alugar um ponto na calçada de uma rua movimentada no Brás, onde está hoje. Uma banca com Termo de Permissão de Uso (TPU), portanto regularizada. Vale dizer que esse tipo de negociação é proibido pela prefeitura, mas ocorre com muita frequência; alguém com a permissão para trabalhar nas ruas aluga o ponto para outra pessoa, por dias intermitentes ou sequenciais. “Agora você vê. Aqui estou sempre vendendo”. É uma banca de ferro, com uma madeira apoiada sobre um tripé e coberta por uma lona azul. As mercadorias ficam expostas nas duas laterais da banca e sob a madeira. Glória vende roupas infantis femininas.
Atualmente, todos os filhos moram com ela. O mais velho é pastor evangélico, um deles é técnico em edificações e, de acordo com ela, ganha muito bem, os mais novos ainda estão estudando. Após os muitos percalços e atravessando situações muito difíceis, cinematográficas, passando por trabalho superexplorado, informais e subempregos, sempre agravados pela situação de migrante ilegal, Glória hoje se diz satisfeita por ter vindo ao Brasil. Atingindo uma renda de cerca de R$2 mil reais por mês, garante poder viver com dignidade, contando também com o suporte dos filhos.
No entanto, o “final feliz” apresentado por ela ao fim de nossa conversa não esconde a precariedade na qual ela ainda está inserida. Como mencionado, a banca em que ela trabalha é alugada ilegalmente e sua situação de trabalho pode se alterar a qualquer momento. Como deixou de pagar o box que havia invadido na Feirinha, e que ainda usa para armazenar mercadoria, certamente perderá mais cedo ou mais tarde o direito de utilização desse espaço; que poderia ser uma refúgio caso se veja impossibilitada de trabalhar na rua. Além disso, ela ainda está em processo de regularização de sua situação enquanto imigrante, e a própria condição de trabalho na qual tem se engajado não possibilita qualquer garantia de estabilidade futura, a não ser através do suporte dos filhos, que têm se estabelecido e ascendido socialmente graças ao esforço da mãe.
Escolhi apresentar a trajetória de Glória por esta representar de maneira combinada diversos aspectos associados ao comércio popular, tanto os mais evidentes que são
construídos via representação cotidiana – precariedade e exploração do trabalho, migração ilegal, informalidade –, quanto dimensões mais sutis e menos reconhecidas nesse universo, como a possibilidade de encontrar alguma satisfação nesse trabalho e a possibilidade de ascensão econômica e social através dele, sobretudo quando se trata da geração seguinte. No entanto, apesar do caso de Glória ser ilustrativo da imagem hegemônica acerca desses mercados, o comércio popular, como já dito, é constituído por um conjunto de atividades de trabalho bastante heterogêneo.
Ainda que o trabalho no comércio popular seja percebido à distância como algo homogêneo, “coisa de pobre”, “muambeiro”, numa concepção ainda atrelada ao improviso e urgência do trabalho no comércio de rua, em oposição à idealização do emprego formal, essas atividades se apresentam de maneira muito mais complexas. Na sessão seguinte, apresentarei parte dessa diversidade de formas de engajamento no comércio popular a partir de categorias construídas na pesquisa de campo, abordando também uma análise mais específica dos processos de trabalho.