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C. Les premières études sur le mésusage des SGAPs

VI. Article

2. SGAPs

Algumas obras seminais a tratar da temática da hibridação, como A Ilha Do Doutor Moreau e Frankenstein, tornaram-se produtos emblemáticos do cinema de FC. A obra de Shelley é uma das mais adaptadas para o cinema em todos os tempos, somando a marca de 110 produções, nas quais se destacam o clássico de 1921, dirigido por James Whale, tendo Boris Karloff no papel da criatura, e Mary Shelley’s Frankenstein, de 1994, a adaptação mais fiel ao romance, dirigida por Kenneth Branagh e com Robert de Niro no papel do monstro. Já o livro de Wells, teve duas versões para o cinema que ficaram notórias, o clássico de 1933, dirigido por Erle C.

Kenton, com Bela Lugosi no elenco e a versão moderna de John Frankeinheimer, tendo Marlon Brando no papel do Dr. Moreau. Nesse filme de 1996, a questão da hibridização dos seres é apresentada na forma de experiências genéticas, e a dupla espiral de DNA é explorada como elemento estético na impressionante seqüência de abertura.

A hibridização genética é também o tema central do clássico moderno do cinema de ficção científica A Mosca, dirigido pelo polêmico cineasta canadense David Cronenberg, em 1986. O filme conta a história de um cientista envolvido com a criação de um aparelho que permite teletransportar seres vivos, empolgado com sua invenção, ele resolve ser cobaia do próprio invento, mas durante sua teleportação, seus genes se unem aos de uma mosca que havia entrado na máquina sem que ele percebesse. Após sair do aparelho o cientista irá passar por uma transformação gradual, adquirindo as formas e hábitos de uma mosca. O filme é um remake baseado na versão de 1958, dirigida por Kurt Neumann (com Vincent Price em um dos papéis principais) e intitulada A Mosca da Cabeça Branca. Entretanto, no filme de Neumann, a transformação era parcial e imediata, enquanto que na versão de Cronenberg a fusão em nível genético promove uma deformação lenta e total da personagem. Mais uma vez as implicações de uma hibridização entre humano e animal são representadas pelo surgimento de uma criatura grotesca e deformada, novamente a transgressão da ciência traz conseqüências aterradoras.

Talvez a produção mais bem cuidada do cinema a tratar do tema da engenharia genética seja o polêmico e instigante GATTACA, película norte-americana de 1997, dirigida por Andrew Niccol, com Uma Thurman e Ethan Hawke no elenco. O filme mostra a humanidade num futuro não muito distante, quando as características genéticas dos futuros bebês poderão ser manipuladas geneticamente, visando a geração de humanos superiores, criando uma nova forma de eugenia, que desta vez não será baseada na raça ou na cor da pele, mas sim nas características genéticas de cada um, produzindo uma nova espécie de excluídos: os humanos nascidos a partir de uma relação sexual, batizados no filme de "degenerados". No prólogo do livro De Volta ao Éden – Engenharia Genética, Clonagem e o Futuro das Famílias, também de 1997, o autor Lee M. Silver nos apresenta um vislumbre de um futuro muito semelhante ao visto em GATTACA. Nele surgirá uma nova espécie, criada a partir de sucessivas manipulações genéticas visando a melhoria das características dos filhos da classe social mais abastada (que poderá pagar por essas modificações). A essa espécie ele dá o nome de "genricos", e essas pessoas estarão no topo da pirâmide social. São previsões catastróficas que mais uma vez nos remetem ao Admirável Mundo Novo de Huxley, mas a verossimilhança e detalhismo com que é desenvolvido o filme de Niccol, no qual um degenerado tenta burlar as regras eugênicas da sociedade para ser piloto de foguetes, usando como subterfúgio amostras de material genético de um "genrico" que ficou paraplégico, faz-nos questionar seriamente a possibilidade dessas previsões virem a tornar-se realidade no futuro. O nome GATTACA, foi inspirado pelas iniciais das bases de nucleotídeos que compõem o DNA: Guanina, Adenina, Timina e Citosina.

Na década de noventa, o autor Michael Crichton escreve Jurassic Park (O Parque dos Dinossauros), filmado em 1993 por Steven Spielberg, transformando-o em grande sucesso de bilheteria. No filme, diversas espécies de dinossauros são ressuscitadas a partir da clonagem resultante de células sangüíneas encontradas no corpo de um mosquito jurássico conservado em âmbar. Como de praxe, novamente os cientistas (e nesse caso também um magnata interessado em lucrar com as criaturas) pagarão um alto preço por tentarem sobrepujar o curso da história natural. O tema da clonagem tornou-se mais freqüente depois do episódio Dolly e

muitas produções cinematográficas passaram a enfocá-lo, sem contudo acrescentar muito, atendo-se a clichês já desgastados. Esses são os casos dos filmes Replicante (2001), com Jean Claude Van Dame no papel principal, O 6º Dia (2001), com Arnold Schwarzenegger, e também da novela da rede Globo O Clone, escrita por Glória Perez, produções que pouco ou nada acrescentam, investindo no sensacionalismo e aproveitando-se da notoriedade do tema. Dentre as películas tratando do tema clonagem, uma das mais contundentes foi Alien Ressurection (1997), quarta seqüência do notório filme Alien, de Ridley Scott (1979), dirigida pelo francês Jean-Pierre Jeunet e contando com Sigourney Weaver e Winona Ryder no elenco. O filme tem como mote principal a recriação da tenente Ripley, que havia morrido no filme anterior, por meio de uma clonagem de seu DNA, mas o motivo da clonagem é recriar também um espécime do alienígena, já que Ripley estava “grávida” do Alien quando se suicidou. A cena mais impressionante do filme é quando a personagem descobre o laboratório de clonagem da nave, dentro dele estão conservadas, vivas ou mortas, várias das criaturas deformadas que resultaram das tentativas de cloná-la, demonstrando que para obter o resultado esperado muitos experimentos fracassados tiveram que ser realizados. A seqüência parece ser uma propaganda quase explícita dos perigos de se clonar um ser humano, apresentando monstruosidades como possíveis resultados de tal empreitada. É claro que no filme, o DNA de Ripley está corrompido, pois possui traços do DNA do alien, mas esse fato é até esquecido quando assistimos à consternação e angústia da personagem Ripley diante de uma das criaturas resultantes do processo de clonagem fracassado. Ela sente uma piedade arrasadora e resolve matá-la, como se estivesse fazendo um favor para o clone deformado. Esta é uma das mensagens anticlonagem mais viscerais do cinema.

Dois outros filmes, um realizado, e outro ainda sem previsão de ser produzido, criaram polêmica com seus roteiros envolvendo clonagem, o primeiro é Os Meninos do Brasil, de 1978, baseado no romance de Ira Levin, dirigido por Franklin J. Schaffner e contando com as participações de Gregory Peck (como o Dr. Mengele) e de Laurence Olivier. A película relata uma experiência de criação de clones do ditador nazista Hitler, visando a reestruturação do Nazismo e a criação do 4º Reich. Foi aclamado pela crítica e gerou discussões sobre as possibilidades aterradoras de um experimento real de tal envergadura. O outro filme é Clone (ou O Santo Sudário), um projeto controverso, no qual alguns cientistas intencionam criar um clone de Jesus Cristo a partir do DNA encontrado nas nódoas de sangue existentes no Santo Sudário, tentando trazer o “filho de Deus” de volta para o nosso convívio. A tentativa fracassa e algo terrível acontece. O cineasta David Rolfe é o responsável pelo roteiro e direção, entretanto o projeto está parado por falta de produtores interessados, já que o roteiro pode vir a gerar enorme polêmica e problemas com autoridades religiosas.

De modo geral, a visão do cinema e da cultura ciberpop em relação à transgenia e à clonagem é negativista, incluindo-se aí os games de computador também infestados por múltiplos híbridos. A grande maioria das obras apresenta essas possibilidades como uma ameaça ao futuro da raça humana, ou colocam questões instigantes sobre ética, moral e religiosidade envolvendo a realização desses experimentos. O poder premonitório da ficção científica já anteviu a criação do primeiro clone humano e dos diversos seres híbridos, que aos poucos vão incorporando-se ao nosso cotidiano – como no caso de alimentos transgênicos que unem genética animal e vegetal – mas nem só de especulações sobre hibridizações humanimais vive a arte contemporânea. Alguns trabalhos se inspiram em possibilidades diversas de hibridização homem-máquina, como a transbiomorfose, por exemplo, proposta pelos integrantes do movimento filosófico The Extropy.

Podemos destacar nesse contexto: Passageiro do Futuro (1992, Brett Leonard), Matrix (1999, Andy Wachowski e Larry Wachowski) e O 13º Andar (1999, Josef Rusnak), onde os limites entre universos virtuais e realidade são também explorados; A.I. - Inteligência Artificial (2001, de Stanley Kubrick & Steven Spielberg), O Homem Bicentenário (1999, Chris Columbus - baseado no romance homônimo de Isaac Asimov), o cult Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982, Ridley Scott) e ainda o clássico 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968, Stanley Kubrick), onde as possibilidades da chamada “singularidade”, ou seja, da tomada de consciência por parte das máquinas, são exploradas de maneiras diversas. Já Robocop- O Policial do Futuro (1987, Paul Verhoeven) e A Geração de Proteus (1977, Donald Cammell), são algum dos filmes que tratam da hibridização homem-máquina e de suas possíveis implicações.

Um dos filmes mais emblemáticos a tratar da figura do andróide é O Exterminador do Futuro 2 (1991), protagonizado pelo atual governador da Califórnia, Arnold Shwarznegger, ídolo dos fisioculturistas do início dos anos 90, antigo levantador de pesos e aficionado dos esteróides, nascido na Áustria. Seu papel mais emblemático é o do cyborg assassino da série de filmes do Exterminador do Futuro. Na segunda parte da trilogia, o andróide T-800 representado por Shwarznegger é o arquétipo da masculinidade machista enquanto o vilão da história, o protótipo avançado T-1000, com sua volatilidade e capacidade de metamorfosear-se, é o arquétipo feminino. Para Mark Dery (1998), o filme reafirma em seu conteúdo tecnofálico a dominação machista. Outra película interessante e seminal a abordar o assunto dos ciborgs é Tetsuo, um filme caótico, indigesto e metalfetichista , dirigido pelo japonês Shinya Tsukamoto.

Centenas de quadrinhistas ao redor do mundo têm criado histórias de ficção científica que apresentam como protagonistas criaturas híbridas das mais diversas estirpes. Dos mutantes da série consagrada X-Men, passando pela aranha radioativa que muda o DNA do Spiderman, e chegando aos mundos fantásticos utópicos e distópicos criados pelos autores da Metal Hurlant, revista em quadrinhos francesa editada a partir da década de 70, capitaneada por nomes como Moebius e Druillet. A Metal Hurlant passou a ser uma referência quase obrigatória para os diretores de ficção científica. Talvez um dos exemplos mais notórios de influência da revista sobre o cinema de FC seja o dos seminais filmes Alien - O oitavo Passageiro e Blade Runner - O Caçador de Andróides, dirigidos por Ridley Scott. Moebius, um dos criadores da Metal Hurlant, é considerado um dos revolucionários da linguagem quadrinhística, seus quadrinhos de ficção científica tornaram-se lendários entre os aficionados pelo gênero e sua influência e importância podem ser medidas pelas palavras de Fellini em trecho de missiva endereçada ao artista:

O que há de mais admirável nos seus desenhos é a luz, sobretudo nos teus desenhos em preto e branco: uma luz fosfórica, oxídrica, luz de lux perpétua, de limbos solares... Fazer um filme de ficção científica é um de meus velhos sonhos. Eu penso nisso desde sempre, pensava nisso antes destes filmes estarem na moda. Tu serias sem dúvida, o colaborador ideal, entretanto, não te chamarei jamais, pois tu és completo demais. Então o que eu iria fazer nessas condições?(FELLINI apud MOEBIUS, 1993).

Alien – O Oitavo Passageiro, lançado em 1979, marcou época por ter criado um novo gênero cinematográfico ao unir ficção científica, suspense e horror num único filme, tornando-se um sucesso de crítica e bilheteria em todo mundo. A prova da qualidade dessa película é sua recente reestréia em 2004 nos cinemas do mundo todo em cópias remasterizadas e contendo

algumas cenas deixadas de fora da versão original (FRANCO, 2004: 42). Estiveram envolvidos na produção de Alien uma série de quadrinhistas ligados a Metal Hurlant, o diretor Ridley Scott era uma confesso admirador da revista, assumindo ser um de seus quadrinhos prediletos. Para roteirizar Alien, foi convidado Dan O’Bannon, o mesmo da polêmica HQ The Long Tomorrow, considerada um dos trabalhos mais influentes desenhados por Moebius, que, por sua vez também colaborou com o desenho de produção do filme, produzindo o uniforme espacial dos astronautas. Os quadrinhistas Ron Cobb e Chris Foss ficaram responsáveis pelo desenho da nave mãe Nostromo e pelo módulo de comando Narcisus. Completando a equipe de designers da produção estava o artista plástico suíço H.R.Giger. Desconhecido em Hollywood, Giger era famoso no mundo das ilustrações por seus trabalhos “biomecanóides” publicados na Metal Hurlant e em capas de discos como Brain Sallad Surgery, da banda Emerson Lake & Palmer. Esse filme é um exemplo notório da contaminação entre os diversos campos da cultura pop. Giger veio a tornar-se um ícone da cibercultura devido ao sucesso de Alien, que projetou seu trabalho para o mundo, influenciando o design dos games de computador com suas criaturas híbridas orgânico-maquínicas.

Outras séries contundentes apresentam previsões catastróficas para o futuro, como é o caso da impressionante HQ Cyberpunk Ranxerox, dos italianos Liberatore e Tamburini, na qual o protagonista é um andróide, que tem como proprietária uma menina de 12 anos viciada em heroína e em praticar sexo com seu robô. Outros trabalhos possuem algo de visionário, demonstrando uma visão prospectiva, que antecipa atuais previsões da ciência e da nanotecnologia, como visto na década de 80 no álbum Ronin, de Frank Miller, no qual a arquitetura é biomecânica e viva, uma estrutura nanotecnológica altamente aperfeiçoada. Nela os edifícios crescem voluntariamente dominando o espaço envolvente.

A série em quadrinhos WE3, lançada em 2005 pelo roteirista Grant Morrison e pelo ilustrador Frank Quitely, ambos escoceses, recebeu o prêmio Eisner e foi eleita pela revista norte- americana Wizard a melhor série de 2005. O trabalho é baseado em uma experiência do exército norte-americano, que utiliza um cão, um gato e um coelho com modificações genéticas e implantes robóticos como máquinas de guerra, criaturas híbridas de animal e máquina que irão substituir os humanos nos campos de batalha futuros. Na história, os animais desensibilizados para a guerra acabam mantendo algo de sua personalidade anterior, lembrando o filme Robocop (1987), no qual o policial meio homem, meio máquina, é assombrado pelas memórias de sua existência anterior.

Um de meus trabalhos, a HQtrônica (história em quadrinhos eletrônica) NeoMaso Prometeu, que recebeu menção honrosa no 13º Videobrasil – Festival Internacional de Arte Eletrônica, trata de questões éticas envolvendo a engenharia genética. Neste trabalho, questiono a visão utópica e fantasiosa de muitos cientistas que acreditam que o avanço da ciência está diretamente ligado ao avanço da humanidade. Na história, a personagem principal é um membro da elite geneticamente modificada do futuro, que compra órgãos artificiais para transplantá-los em seu corpo, mas ele faz isso não porque precisa, mas sim para que esses órgãos sejam esfacelados por robôs num ritual de autoflagelação. Ele é um masoquista assumido, que sente prazer com esses atos e como é muito rico sempre pode comprar novos órgãos, clonados a partir de suas próprias células. Nesse caso, os órgãos clonados não são utilizados para auxiliar pessoas que necessitam e sim para alimentar a tara doentia de um membro da elite geneticamente modificada do futuro.

Até a música pop tem dedicado letras à reflexão sobre clonagem e biotecnologia. A letra da música Biotech is Godzilla da notória banda brasileira Sepultura, foi escrita pelo polêmico e engajado Jello Biafra (ex-integrante do grupo punk norte-americano Dead Kennedys). Ela é uma crítica ao que a biotecnologia pode vir a criar: monstros, como o ícone do cinema trash japonês Godzilla. Outro grupo de rock brasileiro chamado Immunoaffinity, trata do tema da clonagem em várias das músicas de seu primeiro álbum intitulado Slaves of DNA (escravos do DNA). Eis um trecho da letra de Biotech is Godzilla, destacando as críticas explícitas à biopirataria e biotecnologia:

Mina a céu aberto, o rio Amazonas / De células da vida / A procura pelo ouro dos genes é iniciada / Os nativos não recebem nada / Biotecnologia é o Godzilla / Mutações cozinhadas em laboratórios / Dinheiro - experiências extremas / Novo alimento, mais remédio? / Novo micróbio, mais acidentes? (JELLO BIAFRA no álbum Chaos A.D. da banda Sepultura, 1993).

O número de produções tratando dos temas da clonagem, hibridização genética e interpenetração entre carne, máquina e silício é realmente impressionantes e o interesse por esses assuntos tem aumentado vertiginosamente na mídia contemporânea, ajudando a produzir verdadeiros fenômenos da cultura pop, como a série Matrix, tornando-se parte do universo cotidiano das massas por se tratarem de temas recorrentes em telejornais, novelas e jornais impressos. Como destacamos no início, as artes, dentre elas o cinema, têm demonstrado um impressionante poder visionário. É possível então, que na essência de alguns desses filmes e obras artísticas atuais possamos encontrar respostas para o destino de nossas imbricações com as novas tecnologias; o grande desafio está em mapeá-las. Nesse contexto, as obras do pintor H.R.Giger e do cineasta David Cronenberg destacam-se por sua singularidade e visão particular do fenômeno pós-humano em cenários cyberpunks.

2.4.3. H.R.Giger e os Biomecanóides: Pintura