A vida dos meus avós paternos e a vida dos meus avós maternos são caracterizados pelo adjetivo “simples” e “difícil”. Embora, essas duas famílias sejam representadas pelos mesmos adjetivos, elas possuem estruturas distintas, que refletem no horizonte dos seus descendentes. Esse texto se focalizará nas mulheres dessas duas famílias e na presença do trabalho do care em suas vida para a compreensão dos diferentes posicionamentos sociais que elas representam.
É consenso que tanto meus avós paternos quanto meus avós maternos eram pessoas simples: maneira pela qual nos referimos àqueles que não possuem muito dinheiro ou conhecimentos além do básico para conduzir suas vidas. Do mesmo modo, a vida deles é reconhecida como difícil, visto que, para sobreviver, era necessário muito trabalho e esforço e pouco conforto material. Portanto, a categoria sociológica que os definiria é a pobreza e os adjetivos simples e difícil são eufemismos comuns para caracterizá-la. No entanto, dentro
desta representação social, meus avós paternos possuíam uma dinâmica diferente da dos meus avós maternos, o que os distingue dentro de uma hierarquia social.
Os primeiros não vendiam sua força de trabalho: eram autoexplorados, comerciantes que, apesar das condições financeiras em que viviam, conduziam seus próprios negócios. Já meus avós maternos eram empregados no campo, lavradores, um dos trabalhos mais explorados e cansativos na hierarquia dos trabalhos.
A diferença das condições de vida entre as duas famílias pode ser vista na posse de condições materiais para cuidar de seus filhos. Dentro da organização familiar dos meus avós maternos, era comum, por exemplo, delegar os cuidados necessários a outros parentes, caso um filho ficasse doente. Essa prática nunca foi realizada pelos meus avós paternos que, assim como os maternos, tinham uma dezena de filhos. Além disso, há o fato de que durante muitos anos a família de minha mãe residiu no meio rural, enquanto a do meu pai, passou a maior tempo do tempo na cidade. Portanto, minha família materna esteve claramente mais exposta a dificuldades socioeconômicas e tinha menos poder para organizar-se materialmente, havendo uma hierarquia entre elas apesar delas pertencerem a um mesmo grupo social.
Mesmo que adjetivos como “simples” e “difícil” correspondam à descrição do tipo de vida dos dois lados da minha família e que, nesse sentido, ambas se encontrem também em uma mesma categoria sociológica, as definições propostas por tais adjetivos não comtemplam as especificidades que viveram e não traduzem suas diferenças sociais80. O fato que os dois lados da minha família se encontram no mesmo grupo social, pode também ser constatado no fato de que de alguns dos seus membros frequentarem os mesmo lugares, se conhecerem e, no caso dos meus pais, terem se casado.
É possível, desta maneira, destacar duas observações. A primeira, é a de que dentro de um mesmo grupo social, há hierarquias facilmente perceptíveis, que influenciam nas trajetórias diversas das pessoas que formam esse grupo. Nesse caso, compreende-se como pessoas pertencentes a um mesmo grupo social ocupam posições distintas na sociedade e, por consequência, entende-se as trajetórias para além das motivações ditas individuais. De acordo com a segunda observação, necessitamos saber quando as análises sociológicas precisam ser realizadas com ênfase nas relações interpessoais e quando a perspectiva deve ser ampliada. Este é o movimento que abarcará com a complexidade das situações81. Devido a essa
80 Esta afirmação aponta tanto para a importância de distinguir empregadas domésticas, babás e au pair, com o objetivo de compreender a especificidade da experiência de cada uma, quanto demonstra a utilidade de colocá- las em um mesmo grupo.
81 Esta afirmação aponta tanto para a importância de distinguir empregadas domésticas, babás e au pair, com o objetivo de compreender a especificidade da experiência de cada uma, quanto demonstra a utilidade de colocá-
percepção, falarei sobre minha família paterna e farei uma comparação entre as trajetórias das mulheres que delas fazem parte. A partir deste espaço de relações interpessoais será desenvolvida uma análise apontando a influência de trajetórias do care na vida das pessoas que o executam para terceiros. Pretende-se, dessa maneira, para além do retrato dessas famílias que compõem minha autossocioanálise, e suas especificidades, o incentivo as reflexões sobre a influência das designações do care na vida das mulheres. Assim, por meio de dois modelos distintos dentro de uma mesma classe social, será mostrado como o care modela a trajetória das pessoas e, nesse sentido, como é definida a trajetória social daqueles que o vivenciam no ambiente doméstico.
Meu avô paterno, Pedro, nascido no dia 1° de julho de 1912, na cidade de Almeria, Espanha, chegou no Brasil aos dois anos de idade. Embora nunca tenha ido à escola, tinha um ótimo raciocínio para fazer cálculos, habilidade que, segundo contam, foi determinante para sua facilidade para os negócios. Minha avó materna, Tereza, filha de espanhóis, nascida em 6 de fevereiro de 1918, também analfabeta e falante de uma mistura de português com espanhol, dividia-se entre cuidar da casa, dos filhos e vender algo com eles.
Esse casal de comerciantes não era dono de loja ou alugava um lugar para vender seus produtos que, tampouco, eram específicos. Eles criavam porcos e galinhas, os quais utilizavam para consumo próprio e para o comércio. Também revendiam frutas e sacos de tecidos, cuja finalidade, para quem os comprava, era fazer guardanapos e peças de vestuário. Na feira, não possuíam uma banca, por isso os produtos e os animais eram expostos em caixas dispostas no chão. Na rua, utilizavam uma carroça. Também vendiam pipoca na porta de escolas e sapatos em frente a uma fábrica.
Meus avós paternos conseguiram ter uma vida financeiramente mais organizada e independente que meus avós maternos, que eram lavradores. A força de trabalho dos primeiros não recebia intermediários de apropriação e a energia física dispensada em um dia de trabalho era incomparável. Mesmo que os dois lados possam, com razão, dizer que tinham uma vida “difícil e simples82”, a diferença entre ambos é clara, culminando no fato de que nenhuma das minhas cinco tias paternas viveu a experiência do trabalho doméstico/do care realizado para terceiros até a idade adulta.
Especifico “idade adulta”, pois uma das minhas tias foi caseira em um sítio e cuidava da casa e da comida de seus patrões. No entanto, essa experiência ocorreu depois de seus 40
las em um mesmo grupo. Portanto, ao pensar no trabalho doméstico há momentos em que devemos considerá-
lo na amplitude dessa categoria. Em outros momentos, é necessário pensarmos nos grupos que o compõem. 82Essa forma de expressão, usada na fala das pessoas, é traduzida em categoria sociológica de pobreza.
anos, como consequência da falência nos negócios de seu companheiro. Graças a essa união, minha tia viveu uma ruptura familiar, pois seu companheiro era divorciado quando se conheceram, algo inimaginável na época. Portanto, ela fugiu dos moldes tradicionais, o que explica sua diferença no percurso familiar e também nos exemplifica como o trabalho doméstico pode ocorrer de várias formas, em contextos e momentos distintos da vida de cada pessoa. Essa foi a única filha dos meus avós que, na idade adulta, não abriu seu próprio negócio. Embora, como todas as outras, tenha iniciado sua trajetória de trabalho no comércio por volta dos 13 anos de idade, seu destino não se concretizou como o das demais.
A primogênita, Maria, teve um bar onde as família das redondezas também podiam comprar alguns mantimentos, assim como criava porcos para a venda. Na sequência, Alzira, teve um salão de cabeleireiro. Araci e Isabel mudaram-se para a capital do estado de São Paulo e, após trabalharem para terceiros, montaram sua própria confecção de roupas; por muitos anos, tiveram lojas. Em paralelo a suas profissões, esses mulheres da minha família paterna fizeram investimentos imobiliários: influência do meu avô que, em vida, mostrou interesse por esse ramo.
Quando crianças, o cotidiano da família era sem nenhum luxo e oferecia pouco conforto, o que era perceptível nos trajes do meu avô. Em suas roupas, não havia grandes traços de vaidade, exceto por um adorno, o chapéu, que devia ser sempre do mesmo tipo. Meu avô parecia não se distrair com o que lhe parecia vão, priorizando investimentos imobiliários, tendo como meta deixar alguma herança para os filhos. E assim o fez.
O analfabeto com tino para comércio que era o meu avô paterno deixou um terreno para cada um de seus 10 filhos. O dinheiro conseguido para a aquisição de tais terrenos veio dos pequenos comércios que realizava, mas também de investimentos imobiliários que geravam mais capital para a realização de novos negócios, além da ajuda da minha avó. Esta, além de trabalhar com as vendas, cuidava da casa, dos filhos, e não se opunha à visão de seu marido sobre as coisas. Assim, meus avós paternos deixaram para seus filhos não apenas uma herança material, como também o legado de fazer negócios, uma das características mais evidentes entre os membros da família.
Meus avós maternos nunca tiveram sua casa própria e, na velhice, o aluguel era assegurado pelos filhos solteiros que com eles habitavam. Mais tarde, quando todos se casaram, meus avós maternos mudaram-se para os fundos da casa de uma de suas filhas.
É possível notar diversos elementos em relação às minhas famílias paterna e materna: embora tivessem o mesmo número de integrantes – e, dentre estes, o mesmo número de mulheres e o mesmo número de homens –, embora façam parte de uma mesma geração,
embora estivessem todos localizados no mesmo Estado, São Paulo, na mesma cidade, Bauru, e até no mesmo bairro, o Bela Vista e, embora correspondam à categoria raça branca, tinham condições estruturais muito distintas. Essas condições influenciaram na trajetória de seus membros, de maneira a resultar dois grupos diferentes de mulheres de uma mesma geração.
As mulheres da minha família materna tiveram uma trajetória na qual o trabalho doméstico/do care para terceiros se fez presente, sem exceção. Para a minha família paterna, aconteceu o oposto. Como resultado dessa diferença, todas as minhas tias maternas, ao contrário das paternas, são identificadas como donas de casa. Do lado paterno da minha família, as mulheres não são majoritariamente associadas à definição “dona de casa”. Ainda que não possuam um local de trabalho, que não tenham obrigação no cumprimento de horários e realizem afazeres domésticos em suas casas, são mais facilmente associadas aos negócios de que são responsáveis, que aos serviços da casa. Mesmo Alzira83, a única que realizou um trabalho do care sendo cabeleireira e que, hoje, passa a maior parte de seu tempo a cuidar de sua família, é referida por sua capacidade de “ganhar dinheiro”. Assim, com exceção de Tereza, minhas tias paternas são reconhecidas por uma capacidade de fazer negócios, conquista que nunca alcançará as mulheres da minha família materna. Inclusive, essa característica que as representa alcança suas relações íntimas e, na maioria dos casos, elas são a voz predominante em sua família nuclear. Mesmo que, simbolicamente, permitam que seus maridos ocupem o posto de chefe de família, respeitando, assim, uma hierarquia social, tacitamente, sabe-se que são elas que gerenciarão as decisões. No entanto, cada uma, à sua maneira, precisa negociar a evidência dessa posição na relação84.
Já na minha família materna, os estereótipos tradicionais são mais evidentes. Os homens trabalham no espaço público e as mulheres não sabem exatamente quais são as condições financeiras que as englobam. Elas realizam o trabalho doméstico e participam daquilo que os maridos lhes permitem quando se tratam de decisões feitas fora do espaço privado.
As diferenças observadas entre as mulheres das minhas famílias paterna e materna encontram uma justificativa concreta no trabalho que sustenta cada uma das organizações
83Aos 13 anos, Alzira foi trabalhar em um salão de cabeleireiro. Aos 16, alugou um cômodo, onde abriu seu próprio salão e, aos 19, transferiu seu negócio para os fundos da casa dos pais. Ela conta que, em um fim de semana, atendia 60 mulheres: “Eu fazia 60 cabelos em um final de semana”.
84 Desta análise, excluo Tereza, cuja trajetória se diferencia das outras irmãs e resulta em outra forma de viver a relação matrimonial. Tereza se assemelha a dona de casa que depende financeiramente do marido e a ele obedece. Mesmo que hoje seja graças ao seu trabalho que ela e o seu marido possuem moradia, a relação de poder entre eles é muito diferente da vivenciada pelas minhas outras tias. Essas, embora tenham suas particularidades geracionais umas em relação às outras, podem passar pela homogeneização aqui proposta.
familiares. O fato de os meus avós paternos serem comerciantes não apenas lhes deu mais dinheiro para o sustento da família, mas também a oportunidade de organizar-se em torno dos negócios. Mesmo que seus filhos também precisassem trabalhar e colaborar no sustento da casa, isso ocorria de maneira menos aguda que com meus avós maternos. Esses, por terem, sido durante muitos anos lavradores, estavam muito longe de ter um capital para investir no futuro da família, ainda que pudessem contar com a ajuda financeira dos filhos e não tivessem que alimentá-los cotidianamente, por estes morarem na casa de outros parentes. Portanto, o cotidiano da minha família paterna e da minha família materna se construiu de maneira distinta.
Também seria possível especular, além do trabalho que sustentava a família, outros aspectos como fatores gerados da diferenciação entre elas. Um deles é o fato de os meus avós paternos serem migrantes, o que possivelmente lhes ofereceu um modo de organização particular (KRISTEVA, 1988). O outro é o fato de a minha avó materna ter tido durante grande parte da sua visa um problema de saúde, o que também poderia ser visto como um fator a mais na dificuldade da família em estabelecer um cotidiano mais organizado. Desse modo, seria possível considerar o contexto de imigração e o papel das esposas nessas famílias para entender suas diferenças. No entanto, esses aspectos para além de ultrapassarem o que aqui representa o cerne da minha autossocioánalise, não tem influencia no meu intuito de mostrar a posição social daquelas que se dedicam ao care. Por isso, detive-me à constatação aqui apresentada: o trabalho doméstico do care realizado para terceiros ocorre entre as mulheres da minha família materna e não entre as mulheres da minha família paterna, pois são as primeiras que vivem uma dificuldade financeira mais aguda, o que traz consequências na forma como são socialmente identificadas. Assim, ainda que as mulheres da minha família materna não sejam associadas às empregadas domésticas, pois realizaram um trabalho doméstico do tipo “veículo” – aquele que tem como objetivo outro destino – e tenham sido trabalhadoras familiares – aquelas cujas atividades são realizadas para parentes –, elas sempre desenvolveram atividades ligadas ao care e não desenvolveram atividades pelas quais são identificadas no meio público. As mulheres da minha família paterna, mesmo que hoje realizem o trabalho doméstico em suas casas, são associadas as suas capacidades em fazer negócios e possuem voz ativa no meio familiar a esse respeito.