Durante o desenvolvimento da pesquisa notamos a importância de destacar o conceito de comunidade, tendo em vista que estamos nos referindo em nosso estudo às comunidades surdas.
Para isso, nos aproximamos das reflexões de Bauman (2003) sobre comunidades, tentando lincar aspectos trazidos pelo autor com o estudo do corpus. Além de Bauman, Karnopp (2007) e Kyle e Woll (1985) também contribuíram para esta reflexão.
Bauman (2003) discute sobre o que faz um sujeito ter o desejo de pertencer a uma comunidade. Segundo o autor, o fato de ser membro de um grupo ou de uma comunidade dá ao sujeito uma sensação de segurança, pois seus membros compartilham de um mesmo modo específico de ser, de se vestir, de se comportar, de gostos, de uma língua, de uma cultura, entre outros. Para o autor, a comunidade é sempre vista pelos sujeitos como uma “coisa boa”, como um “paraíso perdido” em que todos procuram o caminho para, um dia, alcançá-lo. Pertencer a uma comunidade, complementa Bauman, nos remete a uma sensação imaginária de aconchego. Entretanto, acentua o autor, quando nos damos conta, não é mais a mesma comunidade que imaginávamos quando, de fora, ainda não fazíamos parte dela.
Paralelamente a essa sensação de segurança, Bauman (2003) traz que, ao ingressar em uma comunidade, o sujeito, agora membro da mesma, sofre uma perda significativa, a perda de sua liberdade. Uma liberdade que o caracteriza como indivíduo, que marca sua autonomia. Para o autor, este é o preço que se paga por pertencer a uma comunidade. “Não seremos humanos sem segurança ou sem liberdade; mas não podemos ter as duas ao mesmo tempo e ambas na quantidade que quisermos”. (Bauman, 2003, p.11)
Contudo, pertencer a uma comunidade não garante ao sujeito uma permanência vitalícia, definitiva e eterna. Esse aspecto é uma característica importante que, nesta pesquisa, deve ser considerada, já que os ILS de hoje não são mais aqueles ILS que surgiram de dentro das comunidades de surdos, conforme já referimos anteriormente. Hoje, nota-se que muitos dos sujeitos que procuram os cursos de ILS, são os egressos dos cursos de Libras os quais lutam muito para serem aceitos e reconhecidos como membros da comunidade. Obviamente que esta tensão de pertencer e não pertencer à comunidade surda não é exclusiva dos ILS mais novos. Mesmos ILS já referendados como membros da comunidade, também são sempre observados e avaliados no sentido de garantir sua permanência. Bauman (2003) alerta ainda que “o teste de admissão nunca é definitivo; não há aprovação conclusiva” (Bauman, 2003, p.87), e complementa dizendo que há um lugar de suspensão permanente em que os sujeitos, desejantes de um espaço na comunidade, permanecem em um limbo, um lugar na comunidade ao qual todos esperam ascender.
Karnopp (2007, p.120) retoma a importância da língua como uma marca da cultura das minorias lingüísticas, em nosso caso, a Libras para os surdos – e também para os intérpretes. Segundo a autora, as produções culturais dos surdos envolvem aspectos como: o uso da língua, o pertencimento a uma comunidade e o contato com as pessoas ouvintes. Sendo assim, esses aspectos denotam a importância da experiência lingüística bilíngüe na comunidade surda, já que o contato com as pessoas ouvintes coloca, não apenas a Libras, mas também a língua portuguesa como indispensável aos surdos. A partir disso reflito que o ILS, sendo membro da comunidade de ouvintes, desejante em pertencer à comunidade surda, também tem um “trunfo imaginário” na luta por um espaço dentro da comunidade de surdos, ou seja, a língua portuguesa como primeira língua.
Por muitas experiências compartilhadas com membros da comunidade surda, vivenciei, e ainda vivencio, momentos em que alguns surdos me consideravam uma boa intérprete por ajudá-los em questões da língua portuguesa, seja por apenas auxiliá-los com uma palavra ou outra, como também em realizar traduções mais formalizadas. Temos claro que não se trata de um jogo binário entre ser surdo ou ouvinte, de ser usuário da Libras ou da língua portuguesa, ou ainda, não se trata de marcar as fronteiras dos “guetos”, pensando que isso poderia sedimentar ainda mais uma comunidade. Ao contrário disso, trazemos estas reflexões para ressaltar que a
fronteira entre essas comunidades, de surdos e ouvintes, não possui uma linha fixa, mas sim uma linha flexível, em que o estar sendo dos sujeitos é evidenciado, um estar sendo que às vezes faz os sujeitos pertencerem a uma ou a outra comunidade, de ser membro de um ou de outro grupo, um hibridismo cultural onde um é permeado e atravessado pelo outro. “A experiência de viver em contato com duas ou mais línguas pode possibilitar o movimento das pessoas em universos lingüísticos diferentes”. (Karnopp, 2007, p. 121)
Kyle e Woll (1985) apresentam alguns estudos que destacam o aspecto referente ao compartilhamento de cultura que há entre os sujeitos partícipes das comunidades surdas. Compartilhar a cultura, nestes estudos, está relacionado à noção de compartilhar uma atitude surda56 no sentido de se aproximar e de estar envolvido nas lutas dos surdos, na participação em seus movimentos sociais, políticos, educacionais, de frequentar os clubes de surdos, entre outros. Um aspecto interessante de um dos estudos apresentados pelos autores57 é que o “visto” que autoriza alguém a pertencer e ser membro de uma comunidade surda não se limita apenas a ser ou não surdo, mas sim, como já citamos, ao fato de compartilharem uma cultura.
No estudo, surdos que convivem apenas com pessoas ouvintes (39%) têm menos aceitação de serem aceitos como membros das comunidades surdas do que as pessoas ouvintes (44%). Isso nos faz pensar o quanto o envolvimento nas ações e movimentos dos surdos são pré-requisitos importantes para se fazer parte de uma comunidade surda, já que, segundo este estudo, os ouvintes também são candidatos a ocuparem este espaço de desejo que é a comunidade surda. Além disso há o fato de, as comunidades surdas não serem geograficamente demarcadas, territorializadas, como nos alerta Karnopp (2007), já que estão em vários lugares pelo mundo todo, diferenciando-as de outras comunidades lingüísticas. Esse fato facilitador estimula ainda mais os ILS a desejarem pertencer à comunidade surda. 56 Kyle e Allsop (1982) 57 Kyle e Allsop (1982)