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Os primeiros anos da década atual (2010-2019) resguardaram ainda uma continuidade de um governo que priorizou a manutenção de políticas sociais e de parcerias com a iniciativa privada na gestão de setores estratégicos da sociedade (VAN NOORDEN, 2014). Por outro lado, a segunda metade da década, influenciada por um período de recessão econômica e pela mudança de governo, está sendo marcada pela restrição de investimentos sociais em vários setores, com destaque para a ciência e tecnologia (ANGELO, 2019, 2017; GIBNEY, 2015) e, principalmente, para a pós- graduação com cortes de bolsas de estudos e investimentos (CAPES, 2019).

No âmbito profissional, tem se constatado desde 2011, um avanço no campo de exercício da terapia ocupacional no que diz respeito à normatização de parâmetros assistenciais e o reconhecimento de suas especialidades em diferentes contextos de atuação (COFFITO, 2014). Da mesma forma, observa-se a continuidade da

normatização das práticas do terapeuta ocupacional em diversos contextos nas políticas públicas de saúde (CARVALHO, 2012; BEIRÃO; ALVES, 2010). Além disso, um marco muito importante nesse período foi a inclusão do terapeuta ocupacional no Sistema Único de Assistência Social (SUAS), legitimando uma prática desenvolvida desde os anos 1970 (ALMEIDA et al, 2012). Esses avanços têm possibilitado aos terapeutas ocupacionais um diálogo mais profícuo em instâncias legislativas e executivas.

Sobre o contexto da formação do terapeuta ocupacional, como bem afirmaram Pan e Lopes (2016), o REUNI foi determinante para o incremento de vagas e cursos de graduação em terapia ocupacional no país, aspecto também notado por Carvalho (2012). No entanto, desde o período anterior tem ocorrido uma diminuição do número de cursos em IES privadas. Em 2013, de acordo com dados disponibilizados pelo MEC existiam 63 cursos, onde 21 estavam na esfera pública e 42 na esfera privada (PAN; LOPES, 2016. Segundo Emmel, Cruz e Figueiredo (2015), as diferenças regionais na distribuição desses cursos têm sido semelhantes às de décadas anteriores.

Ainda no âmbito da formação graduada, Pan e Lopes (2016), a partir do levantamento e da análise dos projetos político-pedagógicos de cursos de graduação em terapia ocupacional nas universidades federais, elucidaram um panorama dos cursos e contextualizaram o processo de implantação dos mesmos tomando por base o REUNI e o Pró-Saúde. Bianchi e Malfitano (2017) compararam a trajetória da formação graduada em terapia ocupacional na América Latina. Reis e Lopes (2018) descreveram a trajetória histórica de implantação dos primeiros cursos de terapia ocupacional no Brasil. Reitera-se que todos esses estudos sobre a formação foram derivados de pesquisas de mestrado desenvolvidas no PPGTO/ UFSCar.

Nota-se que temas de pesquisa relacionados à constituição do campo da terapia ocupacional, ainda têm sido publicados, o que significa que ainda são questões de interesse da comunidade dos terapeutas ocupacionais. Nesse contexto, destaca-se a reflexão de Carvalho (2012) acerca das contribuições da teoria de estigma desenvolvida por Erving Goffman para compreender a identidade do terapeuta ocupacional. Galheigo (2014), tendo por base a compreensão de epistemologias do Sul

proposta por Boaventura de Souza Santos, discorreu sobre os elementos que unem e contribuem para um pensamento latino-americano na terapia ocupacional.

No que concerne ao registro histórico da profissão no país, Bezerra (2011) refletiu acerca da relação entre o capitalismo estatal brasileiro e suas influências sobre a profissionalização da terapia ocupacional e afirmou que o desenvolvimento da profissão no país tem estado condicionado às políticas sociais adotadas pelo Estado em diferentes momentos históricos. Em linha semelhante, Malfitano e Ferreira (2011) afirmaram que o desenvolvimento da profissão também está associado à sua inserção nas políticas públicas, o que demandou a produção de novos saberes e práticas bem como a reformulação e reorganização dos saberes já existentes.

Ainda sobre o aspecto histórico da profissão no país, Bezerra e Trindade (2013a) propuseram uma abordagem teórico-metodológica para a compreensão da constituição histórica da terapia ocupacional. Destaca-se que outros estudos têm buscado compreender as trajetórias e contribuições de terapeutas ocupacionais pioneiros no Brasil (MELO; GALIAN, 2017; BATTISTEL; ISAIA, 2017). Soliani (2012) apresentou marcos históricos da profissão no país e a constituição de um dos primeiros cursos no Nordeste.

Nessa década, observou-se uma maior frequência de artigos que apresentaram métodos de pesquisa em terapia ocupacional como temática, o que enuncia um avanço do campo. Nessa linha, foram observados os estudos de Silva e Barros (2010) acerca do método de história oral e de Packer e Turato (2011) sobre os facilitadores e barreiras à pesquisa de campo. A entrevista foi foco de abordagem de Malfitano e Marques (2011) no contexto de pessoas em situação de rua e de Gonçalo e Barros (2013) na sua realização à distância. Da mesma forma, as atividades foram objeto de análise de Silva (2013) e de Estevão e Malfitano (2014). O desenvolvimento da pesquisa na saúde mental também foi abordado por Dimov e Ricci (2016). Por fim, Coster e Mancini (2015) apresentaram recomendações para tradução e adaptação transcultural de instrumentos para pesquisa em terapia ocupacional.

No que tange ao desenvolvimento de atividades de pesquisa, observou-se o seu contínuo monitoramento, principalmente nos eventos da categoria. Oliver et al. (2011), face a realização do VI Encontro Latino–americano de Escolas e Docentes de Terapia Ocupacional, realizado em 2011, na USP, notaram que, embora o Brasil

apresente uma estrutura mais consolidada no que diz respeito à produção de conhecimento em terapia ocupacional, as exigências brasileiras para participação na pós-graduação podem comprometer sua expansão (OLIVER et al., 2011).

Lopes et al. (2010), retomando encaminhamentos derivados do encontro de docentes, apresentaram dados referentes aos grupos de pesquisa em terapia ocupacional no país e identificaram 26 grupos ativos de pesquisa na área, concentrados predominantemente na região Sudeste e, também, em escolas públicas, especialmente na USP e UFSCAR. Identificaram que a organização da categoria nesses grupos é recente, com maioria dos grupos registrada a partir dos anos 2000 (LOPES et al., 2010). Essas autoras perceberam também nesses grupos a ocorrência de uma pulverização de projetos de pesquisa em detrimento de um projeto guarda-chuva que realiza a integração das atividades do grupo. Sobre esta característica, elas abordaram que

Tem-se, portanto, um quadro que demonstra a necessidade de organização em torno da pesquisa em terapia ocupacional, por meio do delineamento de suas áreas e subáreas, do seu objeto de investigação, avançando para que se possa alcançar os financiamentos disponíveis e ingressar, formalmente e de forma fortalecida, no campo da produção de conhecimento científico brasileiro (LOPES et al, 2010, p.213).

Outro registro das atividades científicas desenvolvida na área foi realizado por Lopes et al. (2014) acerca da realização do II Seminário Nacional de Pesquisa em Terapia Ocupacional, Rio de Janeiro. Inicialmente, foram apresentados dados que ratificaram a discrepância regional do número de cursos de graduação em terapia ocupacional no país. Sobre os grupos de pesquisa na área, observaram um modesto crescimento em relação ao levantamento anterior (LOPES et al., 2010).

Nesse estudo, identificou-se 88 pesquisadores com doutorado, sendo que a maioria desenvolveu formação pós-graduada no Brasil. Constatou-se a presença de 16 terapeutas ocupacionais orientadores na Área 21 da Capes. Sem essa condição, constataram a atuação de 34 orientadores. Essa diferença foi compreendida como a inserção de terapeutas ocupacionais em programas de pós-graduação fora da área específica de terapia ocupacional, o que corrobora a demanda para a criação de mais cursos de pós-graduações específicos da área no país (LOPES et al., 2014). Os dados de Cruz (2019) referentes à existência de 61 orientadores em 2018 fortalecem a perspectiva da demanda levantada por Lopes et al. (2014).

Seguindo essa mesma linha descritiva, em 2014, foi realizado o III SNPTO em João Pessoa, na UFPB. O evento reuniu mais uma vez reuniu docentes e pesquisadores da área para a construção de consensos e estratégias frente aos desafios da pesquisa e da pós-graduação em terapia ocupacional (OLIVER et al., 2016). Em 2016, em Vitória, foi celebrado os 30 anos de encontro de docentes e refletiu-se sobre a importância deste fórum no desenvolvimento da profissão no país (HAHN et al., 2018).

Ainda sobre o monitoramento da pesquisa na área, Vasconcelos et al. (2014) analisaram o perfil do pesquisador terapeuta ocupacional doutor com base no Currículo Lattes. Diferente das abordagens metodológicas dos estudos anteriores com este enfoque, os autores não partiram da presença de pesquisadores em grupos de pesquisa sobre terapia ocupacional. Eles realizaram a busca de forma individual, utilizando filtros relacionados à titulação e à região de formação/ atuação dos doutores. Identificaram 102 doutores terapeutas ocupacionais no país, em 2012.

Como resultados, constataram que 94% eram do gênero feminino, graduados principalmente na USP e UFSCar. Observaram que 70% das titulações foram obtidas entre o final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Quanto a atuação profissional, verificaram que aproximadamente 90% dos doutores atuam em IES. Quanto a distribuição regional, constataram um desequilíbrio regional, pois 81,4% estavam no Sudeste, 7,8% no Nordeste, 6,9% no Sul, 2% no Norte e 1% no Centro-Oeste. Os doutores identificados foram responsáveis pela publicação de 1361 artigos, 90 livros e 488 capítulos.

Além dessas investigações sobre as atividades de pesquisa dos terapeutas ocupacionais, observou-se o registro das trajetórias profissionais de pesquisadores (MARTINEZ, 2018; EMMEL, 2017; PFEIFER, 2017; ASSIS, 2013; FERRARI, 2013; LOPES, 2013; MAGALHÃES, 2012; MANCINI, 2012; LANCMAN, 2012). Considera-se que esses relatos são um meio frutífero para o compartilhamento de experiências na área e refletem, em parte, às constatações sobre a necessidade de articulação de gerações de pesquisadores para favorecer o processo de continuação e consolidação do campo científico da terapia ocupacional (OLIVER, 2009).

Sobre as publicações científicas no campo, Emmel et al. (2010) contextualizaram historicamente o surgimento dos periódicos brasileiros, destacando

suas mudanças ao longo do tempo com vistas à realização de aperfeiçoamentos para obtenção de melhores indexações em bases de dados, aspecto considerado essencial para a inserção e manutenção das atividades de pesquisa e atuação na pós-graduação. Lopes et al. (2016) investigaram a produção bibliográfica difundida nos dois principais periódicos científicos da área no cenário brasileiro.

Observou-se que as estratégias deliberadas nos fóruns da categoria acerca do fortalecimento dos periódicos científicos têm produzido notáveis resultados. Dessa forma, constatou-se a continuação da profissionalização dos periódicos (EMMEL et

al., 2010), com a disponibilização online (MALFITANO; HAHN, 2010a); a adoção da

publicação outros idiomas (MÂNGIA et al., 2015; MALFITANO; HAHN, 2010b); a indexação em bases de dados internacionais (LOPES; CRUZ; MALFITANO, 2017; CRUZ; VEIGA, 2014; MALFITANO; HAHN, 2011c; LUSSI, 2011), a elaboração de dossiês temáticos (MALFITANO; PALM, 2012); e o crescimento da diversidade de autores oriundos outras de regiões do Brasil (MÂNGIA; LANCMAN, 2016, 2014, 2013; EMMEL et al., 2010).

Desde 2010 tem se observado a busca por diálogo mais amplo com a comunidade internacional da terapia ocupacional (MAGALHÃES; GALHEIGO, 2010; GALHEIGO, 2011), com destaque para o contexto latino americano (ARAÚJO

et al., 2011; OLIVER et al., 2011; ARAÚJO; FOLHA, 2010). Mais recentemente,

esse diálogo tem sido impulsionado pela demanda da pós-graduação.

No que diz respeito à pesquisa e pós-graduação, os anos de 2010 registraram vários marcos da trajetória brasileira. Houve a implementação do mestrado no PPGTO/ UFSCar e até fevereiro de 2019 cerca de 102 dissertações de mestrado foram defendidas nesse programa (REPOSITÓRIO INSTITUCIONAL, 2019). Fruto do crescimento do PPGTO, em 2015, ocorreu a aprovação e implantação do doutorado em terapia ocupacional (DRUMMOND; CRUZ, 2018; MALFITANO, 2015) com previsão de conclusão da primeira turma em setembro de 2019, 60 anos após a formação das primeiras turmas de técnicos em terapia ocupacional (REIS; LOPES, 2018; SOARES, 1991) e 50 anos da regulamentação da profissão no país (BRASIL, 1969).

Ainda, no fim de 2018, foi aprovada a criação de dois novos cursos de pós- graduação stricto sensu na área de terapia ocupacional no Brasil, o Mestrado

Profissional de Terapia Ocupacional e Processos de Inclusão Social da USP (CAPES, 2018b) e o Mestrado em Estudos da Ocupação da UFMG (CAPES, 2018c). Além desses, foi aprovado o primeiro programa de pós-graduação da Área 21 da Capes no Norte do Brasil, o Mestrado em Ciências do Movimento Humano na UFPA (CAPES, 2018d). Esses três programas estão situados na subárea de fisioterapia e terapia ocupacional da Capes.

É notório o crescimento do campo científico da terapia ocupacional brasileira na década atual, no entanto, alguns desafios à sua institucionalização científica têm sido levantados. Segundo Cruz (2019), manter e fortalecer a publicação de periódicos e o desenvolvimento de pesquisas e da atividade da pós-graduação em tempos de redução orçamentária é um desafio importante. Da mesma forma, as políticas avaliativas da Capes têm demandado o crescimento contínuo dos programas de pós- graduação. Isso inclui melhorar a qualidade dos periódicos onde os artigos produzidos nas pós-graduações são publicados, o que é mais difícil em períodos de contenção de despesas.

Outro desafio está relacionado ao desequilíbrio regional na formação graduada e pós-graduada em terapia ocupacional no país que é refletida na produção de conhecimento desenvolvida. Lopes et al. (2016) identificaram que a produção de conhecimento científico no país é concentrada em poucos autores e instituições, portanto, expandir a comunidade de pesquisadores terapeutas ocupacionais é fundamental. Quanto à formação pós-graduada na área, ela somente ocorre no Sudeste, sendo necessário desenvolvê-la em outras regiões (MALFITANO et al., 2013). Essa é uma das missões institucionais de um dos programas específicos da área (PPGTO, 2019).

1.4.9 Impressões e lacunas. O que se sabe sobre a formação e a atuação

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