Rio Grande do Norte
Após apresentadas as produções corográficas de Manoel Dantas, Tavares de Lyra, Amphiloquio Camara, Antônio Soares e Nestor Lima, publicadas entre 1921 e 1937, encontramos na produção de Luís da Câmara Cascudo, intitulada Nomes da
Terra (1968), uma referência para estudos de história, geogra-
fia, toponímia e outras áreas.
Não levando em consideração apenas a autoria, mas, so- bretudo, a vastidão dos conteúdos, este trabalho é considerado como o de maior abrangência quando se trata de problematizar as denominações das espacialidades no Rio Grande do Norte, qualidade que o próprio Cascudo fez questão de frisar no prefá- cio, quando se revelou conhecedor das produções anteriores de mesma temática e as considerou incompletas.
As obras citadas foram criticadas, compiladas e tomadas como modelo por Cascudo que decidiu dividir Nomes da terra em duas partes: uma que contempla um dicionário com vários
verbetes, e a outra construída como o modelo corográfico utili- zado pela maioria dos demais autores analisados, descrevendo os espaços urbanos destinados para a problematização dos to- pônimos. A descrição feita por Cascudo reuniu os topônimos correspondentes aos 150 municípios que existiam no Rio Gran- de do Norte à época da publicação, cuja maioria teve criação naquela década de 1960. Nessa descrição, Cascudo transitou por épocas, espacialidades e leituras diversas e pôde contemplar em
Nomes da Terra os vários gêneros de escrita corográfica presen-
tes nas obras dos autores já mencionados, utilizando-os para a construção da identidade e da espacialidade norte-rio- grandense na primeira metade do século XX.
Com isso, queremos fazer notar que a perspectiva de bus- car explicações para os nomes das espacialidades através de su- as relações semântico-lexicais se estabeleceu efetivamente ape- nas durante o século XX e os corógrafos que o fizeram seguiram a mesma lógica fundante – presente na obra de Manoel Ferreira Nobre – para sistematizar as explicações dos nomes, partindo inicialmente de exposições lexicais. Enquanto Nobre fazia o re- conhecimento dos nomes de cidades, vilas e comarcas, algumas vezes citando as alterações que se processaram ao longo de suas existências, os corográfos que o sucederam visualizavam os es- paços em sua origem através da tradução desses topônimos,
valorizando o significado da palavra que concretizava o interes- se envolvido, mas sem construir uma lógica mais fundamentada na história para a denominação.
Tomemos como exemplo a referência dada por Cascudo para o topônimo de uma das cidades que passou pela supressão da referência imperial através do Decreto Nº 12, de 1º de Feve- reiro de 1890. A Cidade do Príncipe, que passa a se chamar Ci-
dade do Seridó e no mesmo ano passa por uma nova alteração
fazendo referência a sua denominação de origem: “CAICÓ: [...] Topônimo cariri, ou tarairiú, indígenas aliados aos Curemas ou Panaticuremas, tiveram aldeamentos na região, determinando o nome, Caicó, provindo dos Caicós, como Mossoró veio dos Monxorós. As interpretações tupis servem de simples curiosi- dade, sem aplicação lógica [...].” (CASCUDO, 1968, p. 75).
A representação proposta por Cascudo para o topônimo
Caicó fazendo alusão a uma tribo indígena, encontra seu alicer-
ce na etimologia da palavra, que se apresenta comparada à de- nominação de outra cidade. Atualmente, a versão mais difundi- da para a origem do nome da cidade vai na contramão da tradi- ção secular que o associou ao nome de um grupo de indígenas. Encontramos, em Olavo de Medeiros Filho, a versão mais aceita sobre a origem do nome Caicó, cuja gênese se encontraria, se- gundo ele, na significação de Queiquó, resultante da justaposi-
ção dos termos quei – pelo qual os índios tarairiú se referiam a rio – e Cuó – nome dado pela mesma tribo a um pássaro bas- tante comum na região. A partir de tais constatações, presume- se que “Caicó” é uma corruptela de “Queiquó”, o rio do Cuó; o mesmo chamado de Acauã, pelos tupi.4
A partir deste exemplo, gostaríamos de colocar um dos pontos que enfatizaremos em nosso estudo: pensar a relação história e espaços, visualizada pela ótica linguística, tendo a oportunidade de problematizar o espaço através dos imaginá- rios que o demarcam toponimicamente e em parte realizando um processo de desconstrução da naturalização toponímica atribuída ao espaço norte-rio-grandense por parte de alguns escritores.
Desse modo, pensar a sua importância no legado das in- formações existentes sobre a toponímia deste estado, sob um olhar crítico lançado para a forma como foram processadas, tornou premente uma consistente e atenta investigação da es- crita dos “corógrafos” do Rio Grande do Norte e lhe assegura lugar central no desenvolvimento desse trabalho.
Segundo Jean Charles Depaule e Christian Topalov, já era uma prática antiga abordar as cidades através das palavras, na maioria das vezes centralizando-se na língua em decorrência de
4 Ver: MEDEIROS FILHO, 1982, p.144.
outros importantes fatores evolutivos, de particularidades e dis- cursos suprimidos:
Abordar as cidades através das palavras que as designam e designam suas diferentes partes? Há muito tempo, viajantes e etnólogos, geógra- fos e historiadores, lexicógrafos e linguistas re- colhem ‘palavras da cidade’. Tesouros foram as- sim reunidos, na maioria das vezes de maneira dispersa e à margem de outras preocupações. É raro que tenham sido aproveitados de outro modo que não para estabelecer listas acompa- nhadas de definições. O observador às vezes atém-se à língua, à sua riqueza, à sua evolução, às suas particularidades e muito pouco aos ob- jetos do discurso (DEPAULE & TOPALOV, 2001, p. 17).
Ressaltamos ainda que, após apresentadas as explicações para a origem do nome Caicó, devemos considerar que, além da presença de elementos da natureza e da religiosidade católica, o imaginário toponímico provincial norte-rio-grandense também contava com outros elementos de referência. E assim, alguns referenciais historio-sociotoponímicos, como os que já mencio- namos, se apresentavam como marcas do poder imperial sobre as terras do Rio Grande do Norte. Imperatriz, Príncipe, Impe-
espaços urbanos e geopolíticos diversos, como: cidade, municí- pios e comarca.
Os imaginários sociais compreendidos a partir das repre- sentações toponímicas que foram gradualmente sendo tecidas ao longo do tempo revelaram a necessidade de empreender a posse e demarcar o espaço através dos nomes ali instaurados. São marcas de poder e de referências que dão visibilidade ao encontro do colonizador com o indígena, à Coroa portuguesa, ao ato de posse e afirmação de “seus” espaços com nomes de seus membros, e, mais especificamente, a uma nova dinâmica topo- nímica que surgiu com o advento da República a partir da ne- cessidade de denominar o espaço conforme os ideais do novo regime governamental da nação.
Foi observando o imaginário social do Rio Grande do Norte no final do século XVIII e em quase todo o século XIX, que nos direcionamos para a evidência da relação (de)marcante que estabelecida pela toponimização do espaço constituída em elemento simbólico e expressão enunciativa do poder imperial. Para Michel de Certeau, esta prática é latente e própria daqueles que ocupam o poder sobre o espaço, é uma forma de afirmação e demarcação político-social. Para ele, “O fato de mudarem de nomes (todo poder é toponímico e instaura a sua ordem de lu- gares dando nomes) nada tira essa força múltipla, insidiosa,
móvel. Ela sobrevive aos avatares da grande história que os des- batiza e rebatiza.” (CERTEAU, 1994, p. 216).
A partir desta concepção, entendemos que espaço e poder se envolvem e reproduzem lógicas imaginárias que estão imbri- cadas na toponimização de cidades, municípios, vilas, distritos, comarcas, ruas, edifícios e praças no momento de suas emer- gências denominativas. Nesta mesma direção, Raimundo Arrais evidencia, no contexto de Recife na segunda metade do século XIX, um conjunto de atos que trataram de evocar na toponímia local o hábito de homenagear os membros da Família Real e outros “heróis”, inclusive da Guerra do Paraguai.
Assim, Recife foi sendo marcada toponimicamente pela passagem da Família Real e por outros acontecimentos de or- dem nacional. Arrais enfatiza os momentos principais na mu- dança de representação: “Em dois momentos, durante o Segun- do Reinado, as elites provinciais lançaram mão do corpo da ci- dade para transformá-lo numa reserva simbólica que pudesse ser empregada em seu benefício, na relação com o poder cen- tral: em 1859 e na segunda metade da década de 1860.” (AR- RAIS, 2004, p. 338).
Recife seguia então a mesma lógica denominativa que ha- via se instalado na nação durante o domínio imperial, já verifi- cada no Rio Grande do Norte, com as denominações Príncipe
(1788), Princesa (1788), Maioridade (1841), Imperatriz (1847) e Imperial (1852). E foi essa presença histórica do poder ema- nado da monarquia nas épocas de Capitania e Província do Rio Grande do Norte, percebida através dos vários exemplos da to- ponímia, que nos fez entender a necessidade de um estudo mais aprofundado sobre a organização política do estado nos últimos anos do domínio imperial, tendo em vista o surgimento do Par- tido Republicano do Rio Grande do Norte e os novos direcio- namentos dados à realidade imaginária e espacial daquela soci- edade. Direcionamentos que envolveram algumas tentativas de “adequação” da sociedade norte-rio-grandense à nova situação política da nação, suprimindo do imaginário toponímico aque- las denominações que rememoravam o domínio imperial ao mesmo tempo que requeriam uma produção histórica espaço- identitária para a realidade local enquanto projeto intelectual de afirmação de uma sociedade imaginariamente instituída.