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Dans le document VOS TARIFS ET CONDITIONS (Page 118-122)

Em consenso ao que vem sendo enfatizado sobre o multiculturalismo e

interculturalismo há a necessidade de trazer argumentos que comprovem que o ideal adotado

pelo interculturalismo pode ser pensado como uma possibilidade palpável de mudanças no que diz respeito à convivência entre as culturas diferenciadas. Isso implica em entender que uma vez essa postura seja adotada, muitos ganhos seriam obtidos pelos afro-brasileiros, sendo importante resgatar o fato de que alguns ganhos jurídicos foram conquistados ao seu favor, o que não mudou a sua condição de subalterno para grande parte da sociedade. Esta por sua vez parece estar presa em valores impregnados de sentimento racista. Nesse sentido é que se buscará apresentar estudos que possam inferir que o pensamento intercultural é um passo significativo para mudanças no que diz respeito à aceitação das diferenças.

No ano de 2001, Santos foi entrevistado pela revista Educação e realidade cuja entrevista foi intitulada Dilemas do nosso tempo: globalização, multiculturalismo e

conhecimento e dentre as questões levantadas, uma foi sobre qual a diferença de multiculturalismo emancipatório trabalhado por ele e as outras visões de multiculturalismo. Já

Uma das formas de pensar a globalização contra hegemônica é pensar em modos alternativos de pensar, é pensar em culturas alternativas, em conhecimentos alternativos, os quais só podem, naturalmente ser reconhecidos se tomarmos uma atitude de multiculturalismo ativo e progressista. Neste sentido, é muito importante que se distinga entre as formas conservadoras ou reacionárias do multiculturalismo e as formas progressistas e inovadoras. (SANTOS, 2001, p. 20)

Para distinguir tais formas o autor pontua que de início precisamos entender que vivemos num momento de grandes discussões sobre o multiculturalismo sendo que por muito tempo vivemos sob o domínio do monoculturalismo (a assimilação dos imigrantes e da sua cultura nos países de acolhimento). Não que o multiculturalismo não existisse muito pelo contrário, o que acontecia é que este não era reconhecido e “portanto o monoculturalismo assentou-se fundamentalmente numa grande supressão de culturas alternativas que sempre existiram sob a cultura dominante” (SANTOS, 2001, p.20).

As culturas alternativas mesmo marginalizadas foram sobrevivendo, progredindo, ainda que por vezes suprimidas pela cultura dominante, afirma o autor e discute que estas jamais foram de todo extinguidas, e, em momentos, incontestavelmente iam se revelando. Relembra também que a primeira forma de multiculturalismo foi o imperial, e define este como sendo aquele em que o colonizador até reconhece a existencia de outras culturas, porém como inferiores.

Tal cultura dominante é de fato extramente ligada aos costumes europeus, admitindo somente como cultura válida aquela que se assimila a essa visão eurocêntrica. A cultura eurocêntrica, explica Santos (2001) nunca é étnica porque o étnico significa o não branco, e por isso não é admitida a etnicidade21. Na visão do autor o que se pensava sobre essa cultura era que:

Essa é uma cultura em que em si mesma contém tudo o que melhor foi dito e pensado no mundo. É uma cultura universal como toda cultura eurocêntrica de tradição, e é ela que resume em si mesma tudo o que foi dito e pensado no mundo em geral. E, como tal, tem o direito a esta universalidade, tem o direito de se impor, não tem particularismos e, quando muito pode ser enriquecida por adições de outras culturas. (SANTOS, 2001, p.21)

Um exemplo desta adição de outras culturas se dá na pintura moderna do início do século que tem muito da cultura africana. O autor ainda argumenta que o interesse não era

21

A etnicidade distinta de um grupo se constitui pelo auto-reconhecimento de pertencimento a um determinado conjunto de pessoas que possuem heranças culturais comuns e que também são reconhecidas pelos outros como diferentes da cultura oficial. Outro aspecto a ser considerado é o fato de que estes grupos buscam de alguma maneira constituir um espaço de livre manifestação e formas de preservação de suas tradições culturais. (Silva, 2004, p. 298)

ressaltar como tal esta cultura, mas como matéria-prima tranformá-la em alta cultura, ou seja, de acordo com os termos da cultura dominante. Logo, a prioridade do multiculturalismo conservador era a assimilação de outros a sua cultura. “Portanto, eu penso que o

multiculturalismo conservador tem naturalmente como consequência, uma política de

assimilacionismo” (SANTOS, 2001, p. 21).

O autor defende que um multiculturalismo que somente reconhece a existência de culturas distintas consequentemente prioriza uma língua normalizada, padronizada que é a língua considerada oficial, neste caso seja qual for inglês, português, etc. Porém, o teórico menciona outra forma de multiculturalismo. “O multiculturalismo emancipatório que buscamos é um multiculturalismo decididamente pós-colonial, neste sentido amplo. Portanto, assenta fundamentalmente numa política, numa tensão dinâmica, mas complexa , entre a política de igualdade e a política da diferença” (SANTOS, 2001, p. 21).

No entanto, o autor traz à tona que o fato de pensarmos sermos todos iguais fosse exigir que se optasse por uma redistribuição social ao nível ecônomico para assumirmos a igualdade como príncipio e como prática. O autor assume que:

Naturalmente que este princípio não reconheceu a diferença como tal. A política de igualdade, baseada na luta contra as diferenciações de classe, deixou na sombra outras formas de discriminação étnicas, de orientação sexual ou de diferença sexual, etárias e muitas outras. É a emergência das lutas contra estas formas de discriminação que veio a trazer a política da diferença. E a política da diferença não se resolve progressisticamente pela redistribuição: resolve-se por reconhecimento. (SANTOS, 2001, p. 21) O multiculturalismo progressita é aquele que ainda de maneira complexa, tenta se refletir numa equação, política, científica, intelectual e cultural e desta forma, defende o teórico, “vale a pena ser um objeto de luta, esta tensão entre uma política de igualdade e uma política de diferença”(SANTOS, 2001, p.21). O mesmo acredita que tais políticas, no entanto se estabelecem em dois objetivos que não devem ir de encontro um ao outro, que é os objetivos da redistribuição social-econômico e do reconhecimento de diferença cultural.

Para o autor essa forma de pensar, pode causar alguns problemas, tendo em vista que é bem mais fácil falar do que realizar o proposto, e também porque pode vir a adimitir uma ideia de homogeneidade das culturas. Devido a isso, é importante para o multiculturalimo emancipatório ter como referência a questão de que todas as culturas se diferenciam internamente. E sendo assim é fundamental que as culturas sejam, reconhecidas umas entre as outras, mas, da mesma forma reconhecer a diversidade dentro de cada cultura e permitir que exista resistência, diferença, argumenta Santos (2001).

Dessa forma, é que o autor enfatiza assumir um postura completamente antiessencialista, ou seja, ele se esquiva do conceito de essência e pontua que as defesas de uma cultura minoritária em se tratando às ameaças externas possa ser complementada, porém sem que se esmague a diversidade, o dissenso interno de cada cultura em nome de uma pureza, de uma essência. Neste sentido, para Santos (2001, p.22) “as culturas só se movem por conflito. Todas as culturas são conflituais, e isso se aplica tanto às culturas hegemônicas como às culturas não-hegemônicas. E é nessa luta e nessa prioridade dada ao conflito que o

multiculturalismo também se firma”.

O diálogo e as interações seguem limitados ainda por muito tempo, porque vem de um contexto em que é muito desigual, e remete a certas medidas no que discerne a avaliar, melhorar e apressar as condições de igualdade para que esse diálogo, possa então ser realizado de forma com que não venha significar uma outra liquidação do passado, e uma outra eliminação das diferenças culturais.

E é justamente neste enfoque que é preciso mostrar que existe outro lado deste

multiculturalismo que para o autor tem em si outro risco, ou seja, o de cair na armadilha de

aceitar que reconhecimento signifique chegar ao ponto de estabelecer critérios de autenticidade, o que por certo acarretaria com que as culturas se tornassem apenas culturas de testemunho. O autor esclarece que desta forma:

Sobre as mulheres, sobre o movimento das mulheres e sobre a discriminação contra as mulheres só possam falar as mulheres; pelos negros e contra a discriminação contra os negros, só passam falar os negros. A ideia da autenticidade de testemunho é, no meu entender, uma das formas que pode levar a um desenvolvimento de um novo apartheid cultural realizado através de um radicalismo excessivo, porque permitiria criar iguladade, mas com separação. (SANTOS, 2001, p.22)

Reconhecer as culturas diferentes, não significa autenticar as culturas para que estas não venham a se tornar culturas de reconhecimento, em que cada movimento fala por si próprio, sem interação alguma com outros movimentos, outras lutas. O autor reconhece que os movimentos sociais precisam estar articulados e buscar força no que está dando certo em outros movimentos. Esta interação é o que ele passa a chamar de rede de inteligibilidade que acontece a partir da troca de ideias e experiências para conseguir alcançar bons resultados.

Para Santos (2001) é evidente ainda hoje há a existência do multiculturalismo colonial, uma vez que tomado como exemplo alguma das diferentes políticas conservadoras dos Estados Unidos e da Alemanha é possivel ver que o primeiro tem um conceito dos chamados

seja, assimilar para poder ser naturalizado. O segundo, da mesma forma tem o conceito chamado leit-kultur, que é a cultura guia, a qual todos, inclusive os imigrantes devem seguir para se inserir na sociedade alemã.

Assim, é notável que o multiculturalismo adotado é colonial, e parte do princípio de que as outras culturas são inferiores, pois no mesmo momento que aceitam e reconhecem a diferença, acabam por inferir estratégias para abafar essas diferenças, deixando sempre em evidencia a sua própria cultura que é a então cultura dominante.

Se até o momento, foi pensado e discutido sobre as questões e definições para o

multiculturalismo, abre-se uma nova janela para se retratar o termo interculturalidade, uma

vez que esse aponta novas possibilidades de pensar.

Sob a perspectiva multicultural, é considerada a existência da diversidade cultural, enquanto que a “educação intercultural preconiza a intervenção propositiva e desafiadora no trabalho com as diferenças culturais para além do reconhecimento” (SILVA, 2006, p. 146). Nesse sentido a interculturalidade sugere que se problematize a realidade sócio – cultural para que se instigue a troca de saberes de enfrentamentos bem como de cruzamentos culturais. Para Silva (2006) ainda que haja cruzamento de culturas é válido salientar que é preservado a originalidade de cada cultura, e que estas se complementam umas com as outras o que possibilita que se crie laços espirituais e sociais que acaba por agilizar a organização de sistemas de trocas entre si.

Tendo como referencia a postura de Silva (2006) é que se pode também pensar nos conflitos e enfrentamentos causados nessas interações, uma vez que esses encontros não são harmoniosos. Nesse caso, o interessante é entender que mesmo nos conflitos há relações que permitem o crescimento intercultural. No que aponta o autor:

Aqui cabe destacar, preliminarmente, a noção de interculturalidade como esta espécie de intervenção, pois no encontro/enfrentamento resultam processos de interações e trocas que podem e devem ser potencializadas como elementos fundantes da constituição do novo. (SILVA, 2006, p.141) Dessa maneira, se reconhece que apenas aceitar que existem as diversidades, e que devemos respeitá-las já não é o suficiente para o momento em que há choque entre inúmeras culturas, que por vezes não conseguem manter diálogo para que haja uma troca que se de na interação e na aceitação.

Quando se fala em diversidade cultural, compreende-se para além da simples manifestações de grupos culturais distintos da sociedade, comumente designados como grupos étnicos. Mas se amplia essa percepção, estendendo

a noção de etnia para outras formas de agrupamentos ou mesmo de sociabilidades que se constituem pelo interior das estruturas sociais. (SILVA, 2006, p. 146)

Na mesma perspectiva Canclini (1997), discute sobre as questões da

interculturalidadee da multiculturalidade esclarecendo que, de um mundo multicultural no

qual se compreende a aproximação de etnias ou grupos em uma cidade ou nação, decorremos a outro, o intercultural e globalizado.

Sob concepções multiculturais admite-se a diversidade de culturas, sublinhando sua diferença e propondo políticas relativistas de respeito, que frequentemente reforçam a segregação, em contrapartida a interculturalidade remete à confrontação e ao entrelaçamento, àquilo que sucede quando os grupos entram em relações e trocas, ambos os termos implicam dois modos de produção do social: multiculturalidade supõe aceitação do heterogêneo;

interculturalidade implica que os diferentes são o que são, em relações de

negociação, conflito e empréstimos recíprocos. (CANCLINI, 1997, p.17)

Nesse enfoque, da multiculturalidade se entende a aceitação do diferente, entretanto, da interculturalidade se entende que além da aceitação se dá a busca das relações entre as distintas culturas, uma vez que é na troca de experiências e informações que se possibilita o crescimento individual de cada um, o que certamente acarretará no desenvolvimento da sociedade. Partindo dessa concepção é que se torna possível acrescentar que o Grupo Cultural Herdeiros de Zumbi de Ijuí seria talvez o Grupo que mais iria ter ganhos se fosse possível assumir uma concepção intercultural, pois este Grupo faz parte daqueles que foram marginalizados e rotulados por uma história de desigualdades.

Estes, por sua vez aceitam as diferenças, mas é preciso que as outras etnias consigam se libertar de um pensamento hegemônico, através do qual se sobressai aqueles que se enquadram em alguns padrões pré-estabelecidos. De fato, a cor da pele surge aqui como referência para estabelecer a cultura que julga dominar e aquela que vem lutando para conquistar o seu espaço e para mudar um contexto de exclusão. Segundo Munanga:

Não existem leis no mundo que sejam capazes de erradicar as atitudes preconceituosas existentes nas cabeças das pessoas, atitudes essas provenientes dos sistemas culturais de todas as sociedades humanas. No entanto, cremos que a educação é capaz de oferecer tanto aos jovens como aos adultos a possibilidade de questionar e desconstruir os mitos de superioridade e inferioridade entre grupos humanos que foram introjetados neles pela cultura racista na qual foram socializados. (2005, p.17)

Diante disso, é preciso lançar um olhar mais intenso para a ideologia intercultural, pois talvez estejam ai as possibilidades de mudanças. As diferenças já são reconhecidas, o importante agora é aceitar, entender e aprender a conviver, pois é justamente na interação com o outro que se torna possível aprender a ser intercultural.

4. DIFERENÇA, DESIGUALDADE, ESTEREÓTIPO: A CONSTRUÇÃO DAS

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