A história da formação dos municípios do Estado de São Paulo, e posteriormente de Paulínia, remonta aos tempos em que o Brasil ainda era divido em sesmarias, ainda no século XVIII. Toda a capitania chamada de São Paulo foi sendo povoada e fragmentada graças à atividade agrícola da cafeicultura, contribuindo para a fixação da população (CAZOLLATO, 2005). Esse processo de fixação, fez com que houvesse a formação de novos municípios, “[...] constituindo uma rede bastante densa de municípios em São Paulo” (CAZOLLATO, 2005, p. 41).
Nesse contexto, da área conhecida atualmente como o município de Campinas se desmembra a imensa gleba localizada na direção da Fazenda Funil, ganhando o nome de Fazenda São Bento, o que futuramente viria a ser a estação José Paulino e a posteriori o município de Paulínia (BRITO, 1972). Toda essa região desenvolve-se principalmente como centro produtor de cana de açúcar e aguardente. É interessante ressaltar que existia outra fazenda com o nome São Bento, no que hoje é o município de Paulínia, esta pertencente ao senhor José Egídio de Queiroz Aranha, com uma importante produção de café (BRITO, 1975).
A Fazenda São Bento pertencente ao proprietário Francisco de Paula Camargo, foi extremamente importante para o começo da urbanização do município de Paulínia. Foi a partir dela que se originou o núcleo São Bento onde, posteriormente, seria construída a estação de trem José Paulino. Esse povoamento mais concreto se fixou e cresceu ainda mais
quando o proprietário da fazenda deu início “[...] à construção de uma capela, em torno da qual um incipiente vilarejo, independente das fazendas, começou a tomar corpo.” (MÜLLER e MAZIERO, 2006, p. 26).
Figura 3.1. Fachada da Igreja São Bento em 1903 e nos dias atuais
(A) imagem da Igreja São Bento de 1903. (B) imagem da Igreja São Bento nos dias atuais Fonte: Acervo de Alaíde Ferro apud Müller e Muziero, 2006, p. 29.
De acordo com Brito (1975) as terras que compreendiam a Fazenda Funil eram improdutivas em decorrência da dificuldade de transporte aos centros consumidores e, por isso, em 1890 o governo do Estado de São Paulo incentivou a criação da Companhia Carril Agrícola Funilense, “[...] cujo objetivo será ligar por meio de uma linha férrea [...] aquela fazenda a esta cidade” (BRITO, 1975, p. 30). Ainda como relata Brito (1975), as estações compreendiam Campinas (Guanabara), Santa Genebra, Deserto, José Paulino, Engenho, João Aranha, Funil e Barão Geraldo de Rezende (a última). A inauguração da estrada de ferro Funilense (Figura 3.2), que fazia a ligação entre a Vila de José Paulino e o núcleo urbano de Campinas, contribuiu para o aumento no número de moradores, uma vez que muitos deles foram trabalhar nas plantações de café que existiam nessa localidade (MÜLLER e MAZIERO, 2006). Vale sublinhar que as sesmarias repartidas em menores áreas foram sendo transformadas em bairros que mantiveram conservados os mesmos nomes até os dias atuais. (BRITO, 1975).
O governo do Estado loteou e doou glebas de terras de Paulínia para os colonos que quisessem mudar para lá, com o objetivo de cultivar as terras da região. Posteriormente, essas grandes áreas agrícolas tornaram-se loteamentos, diminuindo os sítios e chácaras, dando
espaço para a construção residencial. O nome dos proprietários dessas áreas e de suas famílias foi o que batizou muitos dos bairros e loteamentos que se conhece atualmente, e é nesse momento em que se começa a construir as primeiras ruas (BRITO, 1975). Como por exemplo, João Aranha e Vila José Paulino Nogueira, que até os dias de hoje são nomes de bairros.
Figura 3.2. Estação Ferroviária José Paulino em Paulínia
Fonte: Foto de Antonio Cormanich, 1919. Acervo de Odair Bordignon. Presente no livro de Müller e Maziero (2006, p. 46)
O processo de emancipação de Paulínia, como apresenta Brito (1975), começou quando moradores e autoridades locais se articularam para que o núcleo de São Bento, que somava grandes quantidades de dinheiro em impostos para Campinas, fosse elevado a bairro e posteriormente a município. Em 1944 Paulínia passou a ser Distrito de Campinas e, em 1963, ocorreu o plebiscito onde a população decidiu se queria se emancipar de Campinas e, finalmente em 1964, o governo do Estado de São Paulo promulga a Lei 8.092 de 28 de
fevereiro de 1964, definindo Paulínia comomunicípio.
Uma observação interessante levantada por Cazolatto (2005) é que a denominação de distrito, assim como Paulínia recebeu em 1944, correspondia no período colonial a sede ou vila, sendo a menor unidade política-administrativa. Em contrapartida a denominação de cidade refere-se ao núcleo urbano que abriga a prefeitura e o termo município é “[...] o território, sob jurisprudência e administração de uma cidade, ou, em outras palavras, a extensão territorial do poder político de uma cidade” (CAZOLLATO, 2005, p. 46).
Contudo, antes mesmo de Paulínia se tornar município, o então distrito pertencente a Campinas já ganhava destaque no que diz respeito às atividades industriais. De acordo com Müller e Maziero (2006), na década de 40, do século XX, graças aos incentivos do governo Vargas alocaram-se em Paulínia tecelagens e, principalmente, a implantação da indústria Rhodia, o que impulsionou ainda mais o crescimento no local fazendo com que ele se tornasse um dos distritos de Campinas que mais arrecadava impostos. A Rhodia se instalou em Paulínia em 1942, quando comprou a Fazenda São Francisco da Barra para plantar cana-de- açúcar e produzir álcool para garantir o abastecimento de suas fábricas em Santo André (RHODIA, 2015).
A partir daí, durante a década de 1970, Paulínia obteve importantes estímulos, expandindo a cultura de cana-de-açúcar graças ao programa Proálcool e também investimentos da Petrobrás (consolidando importante polo petroquímico), fortalecendo sua indústria e diferenciando sua economia urbana (CANO e BRANDÃO, 2002). Como cita Fagundes (2012), a implantação da Refinaria de Paulínia (Replan) no município significou um processo decisivo na produção do espaço paulinense, isso porque a configuração econômica territorial passa de rural-agrícola para urbano-industrial. Dessa forma, Paulínia que até o final da década de 1960 se apresentava como um município tipicamente rural hoje apresenta um grau de urbanização em torno de 99,91% (FUNDAÇÃO SEADE, 2014).
Em 1972 a Petrobrás, por razões econômicas, precisava de uma nova Refinaria, e escolheu fixar-se em Paulínia pela facilidade de condução, abundância de água (Figura 3.3), proximidade de grandes centros consumidores, como Campinas e São Paulo, além da questão política onde o governo municipal local cedeu a área para a construção da refinaria, e também ofereceu incentivos fiscais.
A fim de participar do processo de construção da refinaria recém-chegada no município no início da década de 1970, a cidade recebeu um contingente populacional significativo, principalmente de homens. Dessa vez, ao invés de estrangeiros eram os próprios brasileiros, provenientes de diversos estados que chegavam como mão de obra (MÜLLER e MAZIERO, 2006). A Figura 3.4 adiante ilustra a mudança ocorrida ao longo dos anos na área do entorno da Igreja São Bento, na área central do município de Paulínia, onde a ortofoto de 2011 apresenta um adensamento urbano concretizado em comparação com a foto aérea antiga retirada do livro de Müller e Maziero (2006).
Figura 3.4. Entorno antigo e recente da Igreja São Bento em Paulínia (SP)
Fonte: (A) Acervo IAC (1962), (B) Ortofoto IGC (2010), (C) Foto Müller e Maziero (2006, p.14) (D) Foto Rôvere, S. D. (2015).
Neste escopo de emancipação e industrialização, decorrente da instalação de indústrias, incentivo das atividades comerciais, crescimento demográfico, como apresenta Brito (1975), é que em 1969 a Prefeitura Municipal de Paulínia conduzia o estudo final sobre o plano diretor. “Os objetivos do plano diretor visavam estimular o desenvolvimento físico, socioeconômico e administrativo do Município, para proporcionar, melhores condições de vida à sua população” (BRITO, 1975, p. 87).
A
D C
Os dados do IBGE apresentados nas Tabelas 3.1 e 3.2 mostram como com o passar dos anos após a instalação da Refinaria e de outras indústrias do ramo petroquímico na década de 70, cada vez mais a população urbana cresceu em comparação da população rural. Outro fator importante relacionado ao crescimento da população urbana de Paulínia foi a sua emancipação de Campinas, e com isso o aumento do seu perímetro urbano, agregando mais áreas, ao urbano e consequentemente diminuindo o número da população rural.
Como podemos observar na tabela 3.1, ainda na década de 70 a população rural de Paulínia era superior a população urbana, mas a partir da década de 80 até 2010 a população urbana cresceu num ritmo muito maior que a população rural, que em contrapartida observa- se uma expressa diminuição, que hoje em dia é quase inexistente.
Tabela 3.1. Total de população e população rural e urbana de Paulínia Ano Urbana Rural Total
1970 3.690 7.018 10.708 1980 19.283 1.674 20.957 1991 32.907 3.799 36.706 2000 50.762 564 51.326 2010 82.070 76 82.146 20152 94.945 88 95.033
Fonte: Censos Demográficos IBGE (1970, 1980, 1991, 2000 e 2010); Fundação SEADE (2016) Org. Rôvere, S.D (2016)
Além da mudança da configuração da população, como observamos na tabela 3.2, as taxas de crescimento de Paulínia comparada com a RMC e o próprio município de Campinas mostram índices elevados. Desde o primeiro período mostrado na tabela 3.2 que corresponde às décadas de 1970 e 1980 até hoje, Paulínia vem apresentando uma taxa de crescimento geométrico superior a Campinas e a RMC, também justificada pela instalação do polo petroquímico.
Tabela 3.2.Taxa de Crescimento Populacional em Paulínia, Campinas e RMC 80-70 91-80 00-91 00-07 07-10 10-153
Paulínia 6,84 5,32 3,78 5,1 4,27 3,52
Campinas 5,86 2,24 1,49 1,1 1,9 1,5
RMC 6,49 3,51 2,51 1,87 1,75 ***
Fonte: IBGE, através da formula [(pf/pi)^1/t)-1]=taxa x 100. Onde pf= população final, pi= população inicial, t= tempo.
Org. Rôvere, S.D. (2016)
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Estimativa da população residente nos municípios brasileiros com data de referência em 1º julho de 2015
3 Estimativa da população residente nos municípios brasileiros com data de referência em 1º julho de 2015