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Os nordestinos vieram para a Amazônia sem se preocupar com o que significava o trabalho, a vida, os costumes, a distância de sua terra natal, nem ao menos tinham certas as informações do que os aguardavam. Acreditavam vir para enriquecer e logo retornar para os

seus. Este era o desejo. O que não ocorreu na maioria dos casos. Os que chegavam à região vinham com uma preocupação, como assegura Cunha (1999, p. 28) a de voltar no mais breve prazo possível, e assim chegavam com o estado emotivo pronto a receber todas as moléstias, e isso se dava porque sentiam saudades dos seus, percorriam uma longa distância, a morosidade, a alimentação precária até chegar aos seringais contribuía para esta situação. Ao chegar sentiam-se animados por terem conseguido vir trabalhar e ganhar dinheiro, que era um dos principais motivos, porém quando se deparavam com uma imagem, um espaço, uma terra distante logo se sentiam tristes, infelizes, ou seja, emocionalmente abalados. Este espaço a eles parecia imóvel, com uma única cor, um verde sem fim. Sentiram saudades não somente dos familiares, mas até mesmo da terra, de terra firme, já que a Amazônia era uma imensidão de água e do verde da floresta.

Sustenta Ferrarini (1979) que, quando o nordestino agora seringueiro21 queria afogar suas mágoas passava então admirar a natureza, e era também este modo de viver ao contemplar a natureza e tudo o que nela continha, um meio de amenizar a saudade de seus familiares que ficaram no aguardo de seu retorno. Sentiam falta das festas, de suas amizades, da terra nordestina e não somente da terra natal, mas também de terra firme.

Com o exposto, podemos perceber que a vida do nordestino nesta região não era favorecida de forma alguma. O ambiente diferente, o trabalho exaustivo, a solidão e saudade dos seus contribuíram para que eles se sentissem jogados a própria sorte. Foi desafiador a sua vivência numa floresta desconhecida, misteriosa.

Dessa forma, estavam eles a sustentar a indústria da borracha. Estes extratores enriqueceram uma “cadeia22” – as casas exploradoras, aviadoras, os seringalistas no barracão

- de exploradores em troca nada mais que sobrevivência e o desejo de um dia retornar para os seus. Retorno esse que muitos não conseguiram devido ao clima que os castigou, maltratou e até lhes tirou a vida devido às diversas doenças tropicais contraídas, as más alimentações que eram regradas e também ao trabalho exaustivo. A natureza se encarregava de selecionar naturalmente os fortes, ou seja, os que tiveram que ser fortes naquele momento, já que não havia alternativas. Estes sim sobreviveram.

21 Seringueiro ou extrator: sujeito envolvido com as atividades de extração da matéria-prima gomífera, ou leite

da árvore seringueira.

22 Cadeia: processo em que o sistema de aviamento e seus meios de exploração interdependem uma da outra e o

Àqueles homens a solidão pesava, pois, vieram sem seus familiares, nem mesmo as esposas puderam acompanhá-los. A presença feminina não era permitida vir no primeiro momento, naquele contexto o universo era essencialmente masculino e os que vieram tinham o desejo de retorno breve. De acordo com Ferrarini (1979, p. 52) a saudade da família pesava na dimensão emocional. Outro fator era também a saudade dos amigos do sertão, das diversões, das serestas e de seus costumes, do seu viver social no nordeste agora tão distante. E esta ausência tornou seu cotidiano de certa forma, extremamente monótono.

Para os seringais inicialmente esses homens vieram sozinhos, sem a presença feminina. Era um trabalho exaustivo e solitário, mais individual, em que viviam isolados dos outros seringueiros. O horário era diferente do habitual na região nordestina, iniciavam o trabalho ainda pela madrugada com seus instrumentos que era composto por: espingarda,

poronga23 na cabeça, terçado, balde para a coleta do leite e a cabrita – que é uma faca de cortar ou fazer a sangria na árvore.

O trabalho diário, eles exerciam solitários, pois percorriam as estradas de seringa sem ter muito contato com os outros trabalhadores. A solidão por causa da distância de seus familiares era desfavorável naquele novo modo de viver ou sobreviver. Tudo ali era diferente de seu ambiente de origem. Nada lembrava sua terra natal, até porque, a terra parecia lhes fugir dos pés, já que um dia a terra estava seca e noutro encharcada. Tudo era outro, nem mesmo as aves ou plantas e animais lembrava seu tão saudoso Nordeste.24

23 Poronga: instrumento que o extrator utiliza na cabeça para iluminar as estradas de seringa. 24 GUEDES, Mário. Os seringaes. s/ed. Rio de Janeiro, 1920. p. 71.

CAPÍTULO 2

COTIDIANO DE DISCIPLINAMENTO E DE INSUBORDINAÇÃO DE SERINGUEIROS

Com a extração gomífera nas terras, atualmente Estado do Acre, os seringais foram formados por nordestinos que aqui foram dominados pelos seringalistas, caracterizados como coronéis de barranco25. Estes dominavam e exploravam tanto o trabalhador quanto tudo o que os cercava. Os nordestinos-seringueiros viveram nos seringais a mercê de um regulamento severo, rígido, em que eram obrigados a trabalhar para saldar dívidas, com o objetivo único de fazê-lo produzir mais borracha e assim enriquecer o patrão.

Raro era o homem que vinha para este local, de imensa floresta e rios, de longa distância da sua terra natal, com intuito de permanecer fincado aqui. Queriam um dia voltar e ser o que sempre foram: agricultores. Porém, a falta de chuvas em seu local de origem e por conseqüência a fome os traziam para a Amazônia e os faziam submetidos a um regulamento de trabalho severo.

Vale aqui ressaltar o que significava a Amazônia para os aventureiros que para esta região vieram segundo o autor José Maria Ferreira de Castro em seu livro A selva, em que afirma, “Era, então, a Amazônia um ímã na terra brasileira e para ela convergiam copiosas ambições dos quatro pontos cardeais, porque a riqueza se apresentava de fácil posse, desde que a audácia se antepusesse aos escrúpulos.” (CASTRO, 1972. p. 41).

A região tinha uma representação de riqueza aos aventureiros que viriam para este ambiente. Era lugar de salvação, de enriquecimento fácil, de alívio ao sofrimento dos nordestinos que sempre sofreram devido aos problemas de secas em sua região que destruíam suas plantações, seus sonhos, suas vidas. Aqui, acreditavam em dias melhores, em possibilidades de sobrevivência, mas com o tempo este sonho se transformara em desilusão, pois, segundo Ferrarini (1979, p. 47), “eram os interessados em ter clientes, mão-de-obra para seu seringal os que mais contavam maravilhas destas bandas”.

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Coronéis de barranco: tratamento dado ao patrão seringalista que estabelecia seu barracão nas barrancas dos rios amazônicos. Segundo Leandro Tocantins (2000), o patrão dos seringais é réplica dos canaviais nordestinos, de onde a maioria provém. Era como o Governo Federal distribuía esses títulos aqueles que representassem um enobrecimento regional. Na Amazônia, “coronel” fora uma forma de representação dada ao seringueiro que chegasse a seringalista, ou seja, obtinha a nobreza de beira de barranco. (Dados extraídos da dissertação de Mestrado de Francielle Maria Modesto Mendes, 2008).

No Nordeste alguns deles não tinham terras, trabalhavam como “alugados” 26 aos donos das terras como sustenta Samuel Benchimol (1992). Por isso, voltamos a afirmar que se pudessem juntar as atividades estariam felizes nos seringais, porque dessa forma poderiam viver com suas famílias, produziriam seu sustento, alcançariam o desejo de vida melhor, da qual vieram em busca.

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