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5-3. SERVICE DIAGRAMS

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5-3. SERVICE DIAGRAMS

O século XIX foi pródigo em romances históricos, desde a publicação de Waverley. A sua popularidade sofreu oscilações, para eclodir com toda a força após a II Guerra Mundial, até aos nossos dias, embora com uma nova sensibilidade 4 . Porquê tais

oscilações? 44 O declínio da popularidade do romance histórico, ainda no século XIX,

corresponde a um declínio paralelo da popularidade e prestígio de Scott, ou seja, dos Wa- verley Novels: primeiro, porque a crítica vitoriana lhe apontava superficialidade moral; e, segundo, porque os novos historiadores, tendo desenvolvido a ideia da mutabilidade da natureza humana e transformado a historiografia numa disciplina académica profissional, lhe apontavam anacronismos psicológicos. Criou-se, pois, uma exigência de maior realis- mo psicológico. O romance histórico clássico influenciou, porém, decisivamente o último romance realista, conectados por convenções similares.45

38 Cf. Orel, Harold, Op. Cit., pp. 15-25 e Wesseling, E., Op. Cit., pp. 51-52.

39 Cf. Wesseling, E., Op. Cit., p.51

40 Cf. v.g., Lytton, Bulwer, The Last of the Barons, 1843 e Harold, The Last of the Saxon Kings, 1848.

41 Cf. Lukacs, Georges, Op. Cit., pp. 343-401.

42 Cf. Lukacs, Idem, pp. 343-344 e Vanoosthuyse, Michel, Op. Cit., p. 91.

43 Cf. Orel, Harold, "Introduction", Op. Cit., pp. 1-5 e Wesseling, E., Op. Cit., pp. 54-58.

44 Ora aí está um tema que poderia ser aproveitado para uma investigação mais aprofundada.

É natural que o modernismo, na sua atitude característica de arrogância e militan- tismo aguerrido, que atingiu o seu clímax na ética de provocação dos vanguardismos, ti- vesse voltado as costas ao romance histórico, uma vez que a sua posição é relativamente anti-histórica: se entre os principais objectivos dos vanguardistas encimava a ruptura radi- cal com o passado, os interesses dos modernistas em geral dirigiam-se não para o passa-

do colectivo, mas para o questionamento do ser 46. A vertente introspectiva do romance

moderno tornou-se inevitável e conduziu romancistas como Virginia Woolf a criticar em Scott a falta de profundidade psicológica das suas personagens. Esta foi, aliás, uma das

razões para a queda do prestígio daquele autor, segundo Wesseling47. Porém, o período

modernista também deu a lume alguns romances históricos, como The Sense of the Past (1917), de Henry James, Orlando (1928), de Virginia Woolf, /, Claudius (1934), de Ro- bert Graves, ou Absalom! Absalom! (1936), de William Faulkner. A ficção histórica mo- derna caracteriza-se pelo desafio das convenções narrativas da ficção histórica clássica, empregando técnicas metaficcionais. Incorpora reflexões sobre o próprio conhecimento histórico na estrutura do romance, o que mudou a tradicional posição do romancista para com a historiografia de uma complementaridade para uma meta-historicidade. Dá, igual- mente, menor importância à cor local, que chega a parodiar, para colocar no centro da his- tória a consciência individual, o mundo interior das personagens, na linha do carácter in-

trospectivo do modernismo (v.g., Orlando, de Virginia Woolf48). A subjectivização e a

transcendência da História são outros tantos traços do romance histórico moderno: o mo- delo clássico assentava na solidez do conhecimento histórico, fielmente respeitado; aquele assenta na legitimidade da alteração dos factos históricos. Assim acontece em Orlando, que foca o desenvolvimento de um indivíduo à medida que atravessa diferentes épocas da História, viajando desde a Inglaterra de Isabel I até ao século XX e ultrapassando todas as

barreiras normalmente impostas ao género humano (muda inclusivamente de sexo)49.

Lukacs, numa análise marxista, considera que o romance histórico moderno é humanista, isto é, anti-fascista, tendo uma clara vocação de luta política e ideológica. Dis- tingue-se do romance histórico clássico pela sua atitude revolucionária, política e social- mente. Contudo, o romance histórico do humanismo democrático, segundo este crítico,

46 Cf. Kaufman, Helena Irena, Op. Cit., p.36 e Wesseling, E., Op. Cit., p. 1.

47 Cf. Wesseling, E., Op. Cit., pp. 67-68.

48 Cf. Woolf, Virginia, Orlando: A Biography, London, The Hogarth Press, 11th Impression, 1970 (Ia ed.:

1928).

49 Cf. Wesseling, E., Op. Cit., pp. 74-85 e 93; Elias, Amy Jeanne, Op. Cit., pp. 93-95; Marinho, Maria de

Fátima, "O Romance Histórico Pós-Moderno em Portugal", in Op. Cit., pp. 1017-1018; Marinho, Fátima, O

embora seja escrito para o povo, não é tão escrito a partir do povo, da sua alma e expe- riências, como no romance scottiano. Por esta razão, o povo tem quase sempre, neste tipo

de romance, um papel secundário.50 Podemos aqui enquadrar aquilo que Vanoosthuyse

apelida de "roman historique allemand de l'exil", um romance histórico contemporâneo à Alemanha nazi, mas com a qual rompe totalmente e se encara como escrita de luta (v.g., Kõnigin Christine von Schweden, de Alfred Neumann: 1936)51.

Contudo, estes romances modernos não desconstroem a História, não infringem a História canónica, por exemplo, com evidentes anacronismos ou contrafactualidades, co- mo faz o romance histórico pós-moderno. Veja-se o caso de Orlando: todos os factos his- tóricos aí estão cronologicamente correctos. Ou ainda, em Portugal, o caso de A Ilustre Casa de Ramires , de Eça de Queirós, nas palavras de Kaufman' ', "um passo decisivo na direcção da ficção histórica contemporânea". De facto, é um romance com carácter metatextual, pois coloca como protagonista um escritor (Gonçalo Mendes Ramires) ela- borando uma novela histórica à maneira de Scott e Herculano (A Torre de D. Ramires) baseada num seu "ilustre" antepassado. A isto acresce o encaixe inovador da problema- tização irónica da própria interpretação da História. Estes factores são, no entanto, insuficientes para a sua classificação como romance histórico pós-moderno.54

Todos estes factos conduzem-nos a considerarmos mais razoável, na polémica do evolucionismo ou revolucionarismo da mutabilidade diacrónica de um género, a primeira

perspectiva, partilhando assim da opinião de Wesseling55: as mudanças são graduais. Os

romances históricos da segunda fase são uma continuação dos da primeira fase, porque elaborados segundo o modelo scottiano e manzoniano, mas representam concomitante- mente uma ruptura, devido à relação de rivalidade que estabelecem com esse modelo. E os romances históricos do período modernista constituirão uma fase de transição para a nova etapa do romance histórico contemporâneo pós-moderno. Embora perpetuem o mo- do realista de escrita do modelo clássico, apresentam inovações tais que só nos anos ses- senta56 foram identificados como romances históricos.

Cf. Lukacs, Georges, cap. "Le Roman Historique de 1' Humanisme Démocratique", Op. Cit., pp.284-401.

51 Cf. Vanoosthuyse, Michel, cap. "Le Roman Historique Allemand de l'Exil: Stratégie Persuasive et

Critique Normative", Op. Cit., pp. 69-98.

52 Cf. Queiroz, Eça de, A Ilustre Casa de Ramires, Porto, Lello & Irmão - Editores, 1980 (Ia ed.: 1900).

53 Cf. Kaufman, Helena Irena, Op. Cit., p. 31.

54 Cf. Kaufman, Helena Irena, Idem, pp. 31-33 e Queiroz, Eça de, A Ilustre Casa de Ramires.

55 Cf. Wesseling, E., Op. Cit., pp. 20-25.

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