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Em Nova York delirante, na intenção de afirmar a potência e a representatividade existente no arranha-céu (e na arquitetura da congestão) em promover uma profunda remodelação na forma de pensar e realizar a arquitetura, Koolhaas apresenta a analogia da lobotomia arquitetônica. Ela representa a discrepância deliberada entre continente e conteúdo, que separa definitivamente a arquitetura exterior da arquitetura interior; a ruptura com o

postulado humanista da arquitetura ocidental, o qual afirma como desejável o estabelecimento

de uma relação moral entre interior e exterior. Com o surgimento do arranha-céu, isso não é mais possível, tampouco desejável. Matematicamente, o crescimento volumétrico do interior do edifício é impossível de ser acompanhado pela fachada do mesmo. No entanto, Koolhaas obviamente não se refere apenas à questão matemática.

Na analogia da lobotomia está implícito uma espécie de atestado de existência e inquestionável validade do manifesto de Manhattan. Em última instância, a forma não segue mais a função, nem que se queira. E a partir dessa ruptura, tudo muda. Assim como Venturi, Koolhaas defende uma nova forma de pensar e fazer arquitetura, a qual seja completamente livre de seus movimentos predecessores, inclusive para fazer uso deles. Sem dogmas. Sem pontos a serem obrigatoriamente seguidos. A congestão passa a ser a única referência maior para a arquitetura e, devido a seu caráter essencialmente complexo e contraditório, os produtos dessa nova arquitetura podem ser completamente distintos. Ou não.

A partir desse entendimento, apresenta-se o que se entende como um desdobramento da referida analogia: a lobotomia ampliada. Aquela ruptura observada por Koolhaas entre interior e exterior não se limitou a isso: ela foi aumentada e difundida. Na arquitetura da congestão, a lobotomia separa também o edifício, da cidade. Este é o caso do De

Rotterdam, por exemplo, ou mesmo da Casa da Música, no Porto (ver Figuras 55 e 56).

A lobotomia ampliada separa também o programa, da função. Isso acontece por exemplo no aeroporto contemporâneo, no qual a atividade de embarcar acontece quase como que um acidente de percurso; ou ainda na Biblioteca Central de Seattle, na qual se incorporou diversas funções (distintas à de uma biblioteca) ao programa proposto.

Separa ainda a planta, do corte. Nesse sentido, Moneo (2008) faz uma analogia à planta livre de Le Corbusier, para afirmar que Koolhaas faz uso do corte livre com o objetivo de projetar pensando na verticalidade. Isso é bastante perceptível em diversos projetos de Koolhaas, como por exemplo o Kunsthal, em Roterdã, ou a sede da CCTV, na China (ver Figura 57).

Figura 55 - Inserção no meio urbano 1

Fonte: OMA, 200554

Figura 56 - Inserção no meio urbano 2

Fonte: OMA, 200555

Figura 57 - Em corte, setorização dos usos

Fonte: OMA, 201256

54 Disponível em: < http://oma.eu/projects/casa-da-musica> acesso em jan. 2018 55 Disponível em: < http://oma.eu/projects/casa-da-musica> acesso em jan. 2018 56 Disponível em: < http://oma.eu/projects/cctv-headquarters> acesso em jan. 2018

Como exemplo do potencial aparentemente sem limites da lobotomia ampliada na arquitetura da congestão, aponta-se o projeto (não construído) do OMA intitulado

Distributed House, sobre o qual, de acordo com a descrição existente no site do OMA (2000c),

qualquer tipo de relação, com qualquer coisa, se torna delirante. Trata-se da lobotomia completa de um dos programas mais básicos, uma residência unifamiliar, separando cada cômodo (quartos, sala de jantar etc) em um objeto independente, com suas próprias volumetria, forma, função, planta, corte e outros (ver Figuras 58, 59, 60 e 61).

Figura 58 - Lobotomia ampliada 1

Fonte: OMA, 2000c57

Figura 59 - Lobotomia ampliada 3

Fonte: OMA, 2000c58

Figura 60 - Lobotomia ampliada 2

Fonte: OMA, 2000c59

Figura 61 - Lobotomia ampliada 4

Fonte: OMA, 2000c60

No entanto, tal qual a analogia apresentada originalmente por Koolhaas, a lobotomia ampliada não é absoluta. Obviamente, nem que seja em última instância, sempre haverá relações entre os aspectos, conceitos, espaços e outros acima descritos como

57 Disponível em: <http://oma.eu/projects/the-distributed-house> acesso em jan. 2018 58 Disponível em: <http://oma.eu/projects/the-distributed-house> acesso em jan. 2018 59 Disponível em: <http://oma.eu/projects/the-distributed-house> acesso em jan. 2018 60 Disponível em: <http://oma.eu/projects/the-distributed-house> acesso em jan. 2018

lobotomizados. Isso porque o que a ampliação dessa analogia pretende afirmar é o aumento da ruptura que a arquitetura da congestão chegou a efetivar.

Se inicialmente a ruptura era claramente dirigida a uma determinada forma (movimento, época e/ou estilo) de se pensar e fazer arquitetura (direcionada pelo objetivo principal de explorar a congestão), com o desenvolvimento da arquitetura da congestão, a ruptura também continuou se desenvolvendo. Assim como afirmara Venturi, a contradição e a complexidade são inerentes a essa nova arquitetura, e seus resultados (até mesmo sua própria conformação) podem contradizer inclusive a si mesmos. Nesse processo, o potencial aglutinador do urbano e o contraditório existente no cotidiano revelam a dialética da produção do espaço e, consequentemente, de uma arquitetura que se propõe a pensar e planejar esse espaço.

Contemporaneamente, pode-se afirmar a lobotomia também entre arquiteturas, de modo que cada arquiteto, com cada projeto, elabora e implementa uma proposta completamente dissociada da outra, seja de sua própria autoria, seja de outro arquiteto, seja de construções feitas sem arquitetos; dissociada de qualquer estética ou estilo determinante, de qualquer dogma ou ideal. A cidade contemporânea é assim genericamente construída, com a arquitetura da congestão sendo apenas uma entre tantas outras (e mesmo nenhuma) estratégias a participar desse processo.

Contudo, esse é o resultado de uma análise sobre uma arquitetura que toma para si como referência maior a cultura da congestão (ou o urbano), com seu potencial aglutinador e contraditório e em constante transformação. Mas esta análise parece apresentar mais perguntas do que respostas. É mesmo possível adotar a congestão como parâmetro maior para a arquitetura? Até que ponto? Em que medida a própria congestão é autônoma, independente das dinâmicas do sistema capitalista? Qual o papel, ou melhor, qual o impacto da atividade do consumo nessa arquitetura e no cotidiano por ela proporcionado? Na tentativa de refletir melhor sobre tais questionamentos, a discussão sobre a cidade contemporânea é feita no capítulo seguinte abordando a atividade do consumo. Para tanto, recorre-se novamente a Lefebvre, mas também a Harvey, a fim de fornecer o suporte para uma reflexão mais complexa dos questionamentos apontados.

We almost forgot, every building is a shop Every person is a shopper Finally (Metric - Parkdale)

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