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“Faz tempo que o mundo está em guerra. O século XX foi, todo ele, um século de uma guerra que não termina, entrando pelo século XXI; como se fosse um terremoto sem fim, uma vasta operação de destruição de coisas, gentes e ideias, cidades, povos e nações, modos de ser e estilos de vida” (IANNI, 2004: 288). Octavio Ianni atribui à sociedade contemporânea o caráter de uma imensa fábrica de violências. Para ele o poder e a violência caminham juntos, mundialmente, revelando o fato de que “o mundo está amplamente organizado em moldes totalitários. Trata-se de um totalitarismo que se lança, simultaneamente, em diferentes níveis da vida social, de forma difusa e generalizada, imperceptível e truculenta, inefável e perversa” (Ibidem: 297).

Para Ianni, o Estado nacional transforma-se em uma organização do terrorismo global, entendido como um fato político, social e histórico. O terrorismo é uma forma de violência e, ainda que possa assumir uma aparência isolada – como muitos outros fenômenos políticos na globalização – nunca esgota-se em si mesmo. Muito ao contrário, Ianni sustenta que ele tem origem nos jogos de força sociais, enraíza-se neles, de modo que as ações, alegações e justificativas dos seus agentes raramente servem como explicações para o acontecimento. No entanto, Ianni tem o cuidado de sublinhar que a compreensão e o discernimento

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dos atores (isto é, verdugos e vítimas) apresentam-se, com frequência, alheios em relação aos nexos sociais de um evento terrorista.

Nesse sentido é que o ato terrorista pode revelar-se reacionário, fundamentalista, fascista, nazista, anarquista, niilista ou revolucionário. Explica-se pelos jogos de forças sociais nos quais se insere. […] Esta é uma revelação fundamental: para defender, consolidar e expandir o seu poder, elites governantes e classes dominantes, em diferentes países, desenvolvem operações de terrorismo de Estado que, aos poucos, transformam o próprio Estado em uma instituição terrorista. Outra vez, realiza-se a metamorfose meios e fins, de tal forma que a multiplicação de operações terroristas, compreendendo a criação de técnicas, organizações e alegações, termina por contaminar mais ou menos amplamente a tecno- estrutura estatal, bem como a mentalidade de seus técnicos, funcionários, agentes e beneficiários, compreendendo setores das elites governantes e classes dominantes, o que resulta no Estado terrorista, simultaneamente totalitário e nazi-fascista (Ibidem: 287 e 289).

(Temos aqui um ponto que o diferencia categoricamente da percepção beckiana. Processos, relações e estruturas subsumem a perspectiva dos indivíduos – ainda que não as eliminem. Esse enfoque teórico e eletivo é o que parece nortear a percepção ianniana das mudanças diametrais vislumbradas no caráter da instituição do Estado nacional: de provedor da segurança e detentor do uso legítimo das forças de coerção, passa a agente ilegítimo do terror planetário.)

O fenômeno mais exemplar dessa perspectiva certamente foi o atentado de 11 de Setembro de 2001. A esse respeito, alerta Ianni não se deveria permitir que as supostas intenções dos seus autores turvassem a percepção sociológica dos acontecimentos – inclusive porque nem ao menos se sabe quem foram esses indivíduos. Para ele, os atentados às chamadas Torres Gêmeas do World Trade

Center, em Nova Iorque, constituíram um fenômeno político exemplar. Afinal, eles

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então, uma guerra espetacular contra um país paupérrimo58.

Essa visão está exposta de modo particularmente claro numa entrevista concedida por Ianni em 26 de Novembro de 2001. A citação é longa, mas vale a pena.

Pode ser só uma hipótese, pode até ser uma ideia equivocada, mas eu prefiro trabalhar com a ideia, mesmo que equivocada, de que nós entramos num outro ciclo da história, do que continuar acreditando que nós vivemos no ciclo do nacionalismo, do imperialismo e do colonialismo. Eu acho que é pouco. Não tem graça, não tem beleza. Está tudo evidente. Já é sabido. Estou brincando com a ideia, mas na verdade eu vejo assim. Então, eu acho extremamente fascinante nos colocarmos diante disso: afinal, somos humanidade, somos parte da humanidade. Não é a humanidade dos nossos sonhos, ela está sofrendo muito, mas já somos irmãos daqueles que vivem no Afeganistão. Já somos irmãos daqueles que são hindus. Já somos contemporâneos e estamos num intercâmbio muito intenso com eles. Eu acho isso uma glória! Acho fascinante. E isso significa que a nação, o indivíduo, se redefine neste cenário. É claro que este cenário, por enquanto, está dominado por interesses que predominam, tais como os [dos] Estados Unidos, a União Europeia, Japão [que] têm uma importância grande etc. E isso continua a ser problema, porque eles, em lugar de encaminharem soluções, eles buscam preservar as suas posições de mando, de controle. Então, cabe a nós questionarmos. Por isso que eu tenho uma interpretação totalmente heterodoxa do atentado do dia 11 de Setembro. […] É, aparentemente, um ataque terrorista. De fato, é um ato político. A reação, não só dos governantes dos Estados Unidos, mas dos governantes da Europa, e a formação da coalizão, e a declaração de uma guerra enlouquecida mundial contra uma nação paupérrima transformou aquele acontecimento num ato político excepcional.

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É importante recordar que a Guerra do Afeganistão contou com o apoio militar de países como França, Inglaterra e Canadá, além de grupos político-militares como a Aliança do Norte (ou Frente Islâmica Unida para a Salvação do Afeganistão), interessada na queda do regime talibã. Deve-se recordar também que, na ocasião, houve quatro aviões lançados: dois chocaram-se contra as torres (em Nova Iorque), outro, contra o Pentágono, que é a sede do departamento de defesa dos Estados Unidos (no estado de Virgínia) e um quarto avião, menos lembrado, caiu num campo em Schanksville (no Condado de Somerset, na Pensilvânia). Mais que isso, vale lembrar que o suposto mentor de toda a operação que culminou no atentado terrorista, o líder terrorista Osama bin Laden, foi encontrado e assassinado pelo governo americano somente dez anos mais tarde – num momento de crise política e econômica. Não pretendo entrar nos méritos especulativos das “verdades e mentiras” a respeito do caso, mesmo porque Ianni não conheceu parte desses desdobramentos. Quero apenas evidenciar, à guisa do autor, seu caráter simultaneamente político e global.

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Nessa altura, Paulo Markun, um dos debatedores, questiona-lhe se matar cinco mil pessoas não caracterizaria um atentado terrorista. E Ianni responde:

Mas isso acabou. Isso já é um dado. Vamos ser objetivos. Trata-se de um fato que deflagrou uma série de providências. Então, as providências que foram adotadas, transformaram aquele acontecimento num fato político excepcional.

Então, Markun toma novamente a palavra e indaga: “Mas, professor, o senhor não acha, não tem na sua concepção que a ação de quem praticou aquele ato tinha claro o que iria acontecer, o que isso ia provocar?” E Ianni exorta:

Não se iluda com as intenções dos autores, mesmo porque não sabemos quais são os autores. Não se iluda com as intenções, porque as intenções não definem a historicidade do acontecimento. O que define a historicidade do acontecimento é a dinâmica das atividades que se desenvolvem59.

Do ponto de vista iannino, fenômenos como esse revelariam que a sociedade é uma fábrica de violências. É assim que, no mundo contemporâneo, a violência e a barbárie terrorista comporiam um elemento central da sociedade global em formação, que permitiriam captar parte do seu caráter. Há um clima de barbárie mundializada, que percorre das cercas elétricas das casas, onde se vigia, protege-se e aprisiona-se, até as ruínas dos holocaustos. Essas ruínas exemplificam, para Ianni, o momento no qual a barbárie perde a aparência de barbárie: a saber, o instante em que ela rui. A barbárie, ruída, torna-se, nesse sentido, presente e pretérito, memória compartilhada de uma sociedade global em

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Os trechos das quatro últimas citações correspondem à entrevista concedida por Ianni ao programa Roda Viva, da Rede Cultura, a 26/11/2001, e disponibilizado no domínio de rede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Cf. Ianni (2001).

98 formação.

Note-se, pois, que, com a formação do Estado terrorista, disfarçado de democrático, na realidade totalitário e nazi-fascista, institucionaliza-se a barbárie. Algo que se havia desenvolvido de forma difusa e indefinida na sociedade, em seus poros, frestas e recantos, logo se configura como ideologia e prática, técnica e missão do Estado como um todo ou de alguns dos seus aparelhos e agências de controle e repressão, em escala nacional e mundial. É como se a essência do poder estatal, o monopólio da violência, aos poucos permeasse ativa e generalizadamente o conjunto das organizações e instituições estatais, realizando, de forma paroxística, a fusão entre o complexo industrial-militar, a tecno-estrutura estatal e o monopólio da violência. Esse é o Estado-máquina-de-guerra, altamente racional, moderno e eficaz. Trata-se de uma sofisticada construção sistêmica, fundada no pragmatismo, na razão instrumental. Nele, as partes e o todo articulam-se eficaz e funcionalmente, aperfeiçoando-se e desenvolvendo-se de conformidade com a organização e dinâmica do poder, enquanto dominação e apropriação, complexo industrial-militar, tecno-estrutura estatal e monopólio da violência. Aí medram as mais diversas técnicas de violência, desde o terrorismo à tortura, do sequestro ao narcotráfico, do fundamentalismo islâmico ao fundamentalismo calvinista, da barbárie do eixo do mal à barbárie do eixo do bem (IANNI, 2004: 292-291).

Mas a barbárie de que trata Ianni não é feita por “bárbaros”. Não. Ela pode ser vista inclusive, e preferencialmente, como um dos produtos da ação de grupos que desfrutam das benesses da civilização moderna. Por isso Ianni também observa que a barbárie faz parte da modernidade, sendo uma de suas faces. A inteligência da situação dá-se através desta dialética: se o conhecimento e a técnica alcançam altíssimo grau de desenvolvimento e, com isso, engendram-se riquezas materiais e imateriais, tem-se, por outro lado, níveis de brutalidade e insanidade inacreditáveis que intensificam seus efeitos através das potências e recursos do progresso. A argamassa da compreensão é, neste ponto, sistêmica (articulação funcional e eficaz) e dialética, relacionando-se pragmatismo (no sentido mundano do termo) e razão instrumental – algo aparentemente paradoxal, muito embora coerente com o caráter multifário da história política

99 contemporânea.

2. Inimigos do Estado, Inimigos do Mundo: riscos perceptíveis e

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