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CHAPITRE 6 : INTERPRÉTATION DES RÉSULTATS

6.4 Q UELQUES PISTES DE RECOMMANDATIONS

6.4.3 Des recommandations en lien avec la pratique du travail social

6.4.3.2. La sensibilisation de la population, des familles et des professionnels

O termo “letramento emergiu na década de 1980 nos meios acadêmicos para se reportar a alguns aspectos sócio-históricos dos usos da escrita distinto das conotações vigentes associadas à palavra alfabetização” (KLEIMAN, 2005, p. 21). Porém a imersão no mundo da escrita dos folhetos, onde se realizavam os ‘eventos de letramento’ com a leitura coletiva dos livros, acontecia, passando ao largo das preocupações acadêmicas.

Por circular num ambiente marcadamente oral, o folheto se constituía num objeto usado em sessão de leitura coletiva, não possuía como objetivo único a leitura individual e silenciosa. Esta leitura coletiva tanto acontecia na feira, por ocasião da venda, ou em casa.

Seu João Noé, um feirante que mora na cidade de Crato, no estado do Ceará, trouxe- me uma experiência de leitura na feira.

- Ah! Tinha um senhor que nós viajávamos para pegar feira fora e fazia aquela rooda de gente no meio da feira. Muuitas pessoas pra ouvir. Ele começava a cantar aqueles versos, heróis, de pessoas valentes, quando chegava no meio... parava pra vender os versos, né?

- Vou fazer meu comerciozinho...26

24He will say that he was interested in the old songs, had a passion for them, listened to singers, and then, work, work, work, and little by little he learned to sing. (…) It is a process of imitation and of assimilation through listening and much practice on one’s own.

25He listens countless times... All this and much more is impressed upon him as he sits and is enthralled by his elders’ singing of tales. He absorbs a sense of the structure of the themes from his earliest days.

25 Seu João Noé, feirante, possui um ponto fixo na feira, vende cocadas. Gravação feita em Crato – CE dia 29/03/2010.

Seu Fanco, um dos leitores de folhetos com quem conversei, em Juazeiro do Norte, fez as seguintes considerações sobre a leitura de folhetos em casa. Os familiares sempre compravam folhetos para que ele os lesse e ali se formava um auditório.

- Êita eu trouxe cinco verso, seis verso pra você ler. E nessa época, eu era garoto novo. Eu aprendi a ler um pouquinho. Com 9 anos, eu já, já lia verso, livrinho, essas coisa... toda vida eu fui um pouco inteligente. Então, meus tio, tinha dois irmãos do meu pai, aliás, um cunhado do meu pai e um irmão e gostava de comprar esses folhetozinhos, esses verso, e trazia lá pra casa, pra casa de meu pai pra mim ler. Aí juntava assim dez, doze, até quinze pessoas, às vezes, tudo sentado lá na sala, na casa grande, o pessoal sentado... Aí eu pegava os versozinho, né? os livrozinho, aí, eles trazia cinco, seis, oito versozinhos desses pra mim ler.

Aí eu pegava... aquilo com uma luz de lampião ...27

Estas duas situações testemunham a existência de uma prática de leitura muito comum entre os leitores/ouvintes de folhetos.

Quando o termo letramento começa a circular, chega com a incumbência de refletir sobre as transformações nas ‘práticas letradas tanto dentro como fora da escola’. Interessa-nos esse ‘fora da escola’. Desconstruindo a ambiguidade, sabe-se que o folheto sempre esteve fora da escola tanto por acontecer em outros contextos sociais quanto por não integrar a lista oficial dos textos recomendados para leitura.

Os estudos sobre as funções e práticas da língua escrita, bem como seu impacto na vida social partiram de cientistas sociais: sociólogos, antropólogos, historiadores, linguistas. Quando essas inquietações, fundamentais para a educação, chegam à escola, formalmente, a maior agência de letramento, o conceito vai passar por todo um processo de reinterpretação. Nesse processo, foi entendido como método, alfabetização e habilidade. Bastante redutoras, essas conclusões não atingiram a profundidade do conceito, embora contivesse todas elas.

Paralelamente aos programas oficiais vigentes, homens que não sabiam ler nem escrever fizeram um trabalho notável, vendendo folhetos nas feiras. Sem reconhecimento oficial, eles percorriam estados inteiros cantando e vendendo versos. No meio das feiras, derramavam os livros em plásticos, em lonas, ou abria-se uma malinha onde eram transportados os versos. Ali, saboreava-se poesia, o encanto merecia compartilhamento;

27 Gravação realizada em 27/09/2010 na residência de Seu Fanco Sapateiro, Novo Juazeiro - Juazeiro do Norte- CE

comprava-se, levava-se para casa onde várias pessoas maravilhavam-se com a narrativa a ponto de memorizá-la.

Para se pensar sobre o impacto do folheto na vida das pessoas, “O Romance do Pavão misterioso, após décadas de reimpressão, as edições ultrapassam quatro milhões de exemplares” (QUEIROZ, 2002, p. 09). Atualmente, uma editora como a “Companhia das Letras, que abrange todo o mercado brasileiro, tem tiragens regulares de 3.000 exemplares, podendo ser menor conforme o público a que se destina” (HATA, 1999, p. 34). Estes dados atestam um expressivo número de leitores de folhetos, excetuando os leitores/ouvintes. Milhares não possuíam folhetos, aprendiam através das leituras compartilhadas, como nas falas acima: uma rooda de gente, dez ou doze pessoas, ouvindo um folheteiro ou uma pessoa de casa.

Sem forçar aproximações, pode-se dizer que as feiras constituíram “eventos de letramento”. Um “círculo inamovível” plantava-se para ouvir aquelas histórias; fazia parte do programa da feira uma parada obrigatória no espaço onde eram comercializados os livros.

Muitos eram analfabetos e estavam ligados ou seduzidos, então compravam interessados no desfecho. Podia-se dizer que estavam enfeitiçados pelo enredo e artes do vendedor. [...] Muitos analfabetos compravam para alguém da família ou da vizinhança, que sabia ler, o fizesse geralmente numa sessão ao entardecer ou num dia de folga de trabalho. E muitos dessa assistência foram seduzidos pelo prestígio da leitura, aprendendo a ler sozinhos com o chamado folheto de feira... (MAXADO, 2005, p. 233). As leituras que re realizavam em casa coletivamente ou nas farinhadas, nas debulhas de milho, de feijão, nas moagens também podem ser consideradas “eventos de letramento”.

Mesmo reconhecendo que o objetivo era a venda, pode-se dizer que os folheteiros eram agentes de leitura. E eles fizeram um valoroso trabalho de letramento, levando poesia para uma população que, posteriormente, formou inúmeros leitores, vários escritores e povoou o imaginário de muitas pessoas que ainda mantêm memorizado o verso que valeu a pena guardar. Estas práticas de leitura transformam de maneira significativa a interação oral, e não envolve de forma obrigatória as atividades específicas de ler e escrever, pois só um membro do grupo ler para uma audiência. Os leitores/ouvintes se tornam letrados por adquirirem estratégias orais letradas como, por exemplo, o canto, o ritmo, a entonação, a declamação.

Enquanto a escola se empenha numa prática de letramento, que é a alfabetização, pode-se dizer que a leitura de folhetos é entendida como prática social, uma vez que as

“agências de letramento” são constituídas por feiras, reuniões familiares, lugares de trabalho.

Com estes “eventos de letramento”, o repertório de títulos ampliou-se de uma forma, fascinante que, em algumas situações, ficamos desapontados. Um romeiro me perguntou se eu sabia por que o sobrinho dele chamava-se Rian? Por que o nome da filha era Gerusa? Quando respondi que não sabia, eles me perguntaram: - E a senhora não leu o Enjeitado de Orion, A Fada da Borborema?

Em várias ocasiões, tenho presenciado situações que atestam a permanência dos folhetos na memória de pessoas que os leram intensamente, ouviram com prazer, cantaram inúmeras vezes, tornando-se definitivos.

Para Bayard (2007, p. 176), “existem livros interiores, que integram nossa biblioteca coletiva”. Os folhetos se inscrevem com bastante propriedade na tipologia dos livros postulada por Pierre Bayard,

[....] como integrante da biblioteca coletiva que habita em todos nós, onde figuram determinados livros precisos, esquecidos, feitos de representações gerais da cultura. Basta fazer a experiência simples que consiste em confrontar as lembranças de um livro amado da infância com o livro real, e assim captar o quanto nossa memória de livros, sobretudo os que tiveram importância a ponto de se tornarem parte de nós mesmos é continuamente reorganizada (BAYARD, 2007, p. 67).

Tenho buscado incessantemente, percorrendo feiras e romarias, esta biblioteca cujos livros são os próprios homens e mulheres. Estes homens e mulheres mantêm um constante diálogo com os folhetos que estão encravados na memória. Adquiriam-nos nas feiras, nas tipografias como um bem de primeira necessidade.

Uma destas tipografias existiu em Juazeiro do Norte, a Tipografia São Francisco, responsável pelo processo de composição, impressão e circulação de folhetos. Empenhei-me em procurar em acervos públicos e particulares os folhetos editados pela gráfica de José Bernardo.

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