• Aucun résultat trouvé

Les composantes essentielles de l’appui mental

C. Présentation des six modèles à vide

D. 3. c. Les autres sensations corporelles

A sociedade líquida transforma tudo em produto. De pessoas a objetos, de sentimentos a experiências, todos esses estão passíveis de serem consumidos. Essa era supervaloriza o consumo, pois compreende que é a partir do poder de compra que o valor dos indivíduos é dado. Os sujeitos colocados na condição de consumidores, segundo Bauman (2008), também se tornam mercadoria de consumo. O mercado se aproveita de desejos, medos e necessidades para criar soluções práticas, rápidas e vendáveis para atrair o público, afinal o lucro é a prioridade.

De acordo com o pesquisador Kabuenge et al. (2015), ao analisar as narrativas policiais ou de violência produzidas pelos veículos de comunicação impressos e televisivos na Amazônia Paraense, há uma construção nessas narrativas, de uma economia e arquitetura do medo.

[...] a partir das matérias produzidas nas narrativas policiais ou de violência, a presença de uma “economia do medo”, a qual os impressos jornalísticos paraenses realizam por meio da violência estetizada nos cadernos Polícia, com mensagens que, em certa medida, moldam o comportamento do leitor, por exemplo, em relação a frequentar certos locais da capital paraense ou ao consumo de certos produtos mercantis. A economia do medo, então, estimula o consumo de materiais ou serviços que possam proteger o cidadão contra a violência, como carros blindados, cercas elétricas, alarmes, armas, grades, entre outros. Dessa economia, nascem a indústria da violência e a arquitetura do medo. (KABUENGE et al., 2015)

Como arquitetura do medo, o autor vai se reportar à nova fisionomia da cidade, em que os indivíduos constroem suas casas, prédios ou outras habitações, com muros altos, grades, alarmes, verdadeiras fortalezas, ou o surgimento de condomínios para se proteger contra a violência.

Segundo Bauman (2010), os medos não têm raízes e isso acontece por causa da sociedade líquida que explora essa característica de maneira política e comercial. Há quem lucre com o mercado do medo. Constantemente buscamos adquirir bens para garantir nossa segurança, mas essa prática só alivia a tensão e o medo momentaneamente:

Para governos e o mercado, é interessante manter acesos esses medos e, se possível, até estimular o aumento da insegurança. Como a fonte das ansiedades parece distante e indefinida, é como se dependêssemos dos especialistas, das pessoas que entendem do assunto, para mostrar onde estão as causas do sofrimento e como lutar contra ele. Não temos como testar a verdade que nos contam. Só nos resta então acreditar no que dizem. (BAUMAN, 2010, p. 75).

Há um segmento da economia mundial que se alimenta da insegurança dos indivíduos e se aproveita para vender soluções que vão exterminar com a violência. Esta economia faz parte do que Birman (2009) chamará de cultura do medo:

Construímos hoje uma efetiva cultura do medo, infelizmente. Estamos apavorados, como se não tivéssemos meios de nos defender da violência, que nos ameaça a cada momento, podendo retirar as nossas vidas e a de pessoas que nos são próximas. Que seja o vizinho o alvo eventual dessa violência fatídica e não nós é uma mera questão de acaso, pois nada garante a nossa segurança, a que deveríamos ter direito por atributo constitucional. (BIRMAN, 2009, p. 252).

Donskis (2014) também discute a cultura do medo. Ele afirma que há na contemporaneidade o medo de ser vulnerável e mostrar quem se é de verdade. Trata-se do receio, por assim dizer, da desimportância, da invisibilidade e de estar distante do mundo da mídia, ou seja, teme-se o esquecimento. Para o autor, a atualidade é caracterizada por este sentimento e dessa forma desenvolvemos a “cultura do medo” que está cada dia mais poderosa e global. Segundo ele, o medo “usa várias máscaras e pode falar a linguagem da experiência íntima e existencial” (DONSKIS, 2014, p. 117), tornando-se então um sentimento corriqueiro:

O medo da modernidade é notícia requentada. Cada novo fenômeno pode causar um surto de pânico moral e uma reação exagerada. Podemos ver aqui uma espécie de medo controlado ou domesticado. A questão é que o medo se tornou desde então parte da cultura popular, nutrindo nossa imaginação perturbada e apocalíptica: terremotos, tsunamis, outros desastres naturais e

crimes de guerra deixaram de se situar num plano remoto da realidade. Agora estão conosco o tempo todo, alimentando nossa mídia sensacionalista e privando-nos do doce sonho de que haja em algum lugar (ou pelo menos deveria haver) uma ilha distante onde pudéssemos nos sentir absolutamente seguros e felizes. (BAUMAN; DONSKIS, 2014, p. 116-117).

Ora, se tudo pode ser consumido a qualquer momento, estamos consumindo não apenas o que é material, mas também tudo aquilo que não é palpável, a exemplo das ideias, os sonhos, o tempo – cada vez mais escasso -, as notícias, ou seja, podemos e estamos consumindo tudo aquilo que não necessariamente está amostra nas vitrines. Contudo, antes que imaginemos que a lista de ‘produtos’ disponível na sociedade de consumo se restringe a elementos positivos, lembremos que o homem, ser de natureza perversa segundo Freud (1930), também é sedento pela violência e por isso a consome.

O medo de se tornar a próxima vítima em um ataque repentino que colocará a segurança pessoal em risco faz com que os indivíduos da era contemporânea sejam consumidores fiéis da violência cotidiana transmitida pela mídia, de modo que a justificativa para esse consumo sempre será a autoproteção. Corroborando com essa construção, destacamos o consumo e a popularidade dos programas de rádio e televisão pautados na violência e os cadernos policiais, por exemplo.

A violência enquanto produto obedece às lógicas do mercado como qualquer outra mercadoria produzida em larga escala e comercializada ao público. Assim como o objeto que buscamos em uma prateleira de supermercado, ela precisa estar de acordo com o gosto das pessoas e ser atrativa aos olhos de quem a vê.

Portanto, as narrativas de violência trabalhadas nos programas de caráter popular ou nos cadernos policiais, são elaboradas com objetivo de “atrair e seduzir” o público. Entre seus objetivos, a intenção, primeiramente, é de chocar e em seguida criar um cenário de terror, no qual se diz que não há solução para a atual situação de caos da cidade. Sem qualquer tipo de pudor ou censura, a violência é retratada de maneira crua e direta, de modo que o público tem a impressão de que a narrativa é na verdade a realidade3. Dessa forma, os veículos de comunicação ao usarem a violência como espetáculo, sem explorar o aspecto reflexivo, criam um ambiente de insegurança pautado no medo do outro.

3 É importante destacar que não estamos ignorando os altos índices de violência na sociedade brasileira,

inclusive com a cidade de Belém figurando entre as cidades mais violentas do país. Nosso questionamento tem como base o tratamento dispensado pelos veículos à violência, ou seja, geralmente é associado à pobreza e à miséria, sem contextualizar o papel do Estado no seu enfrentamento.