• Aucun résultat trouvé

sen seq

Dans le document automation computers (Page 60-64)

Para Weber, a solidariedade sentida, de natureza afectiva ou tradicional, subsiste como modo de acção, de relação e de socialização, mesmo nas sociedades em que a modernização desarticulou a lógica das actividades de trabalho, a lógica das representações simbólicas e a lógica das estruturas de organização e de poder. Pensar que a constituição de comunidade cedeu lugar à formação da sociedade, baseada no ajustamento de interesses dos sujeitos e dos grupos por motivos racionais ou pela união de interesses idênticos, é reduzir a complexidade social à ordem social, política e económica, definida pelo mundo da produção, caracterizado pelas relações de classe.

Na verdade, os mecanismos que regulam e dinamizam a relação que constitui a comunidade e que formam a sociedade, privilegiam diferencialmente a actividade social, orientada por valores ou a actividade racional dirigida a atingir fins específicos, o que será conseguido pelo cumprimento de regras partilhadas e pela coordenação

racional de interesses e motivações.

Baseando-se nesta distinção de Weber sobre relações sociais de constituição comunitária e de formação societária, Ferrarotti (1985) refere que, embora o agrupamento de tipo comunitário tenha a tendência de desaparecer nas sociedades urbanas e industriais, a sociedade deve ser vista como "trama viva", que é tecida por agrupamentos sociais, constituídos segundo graus de proximidade espacial e por exigências culturais e sociais.

Assim, segundo o autor, embora a propriedade privada dos meios necessários à vida ou a exclusão desta propriedade, continue a ser o critério dominante na hierarquização e diferenciação dos hábitos e estilos de vida, que produz a estratificação social de base capitalista burguesa, a categorização, segundo a classe social, é desafiada à medida em que membros da sociedade convergem para conjuntos sociais constituídos com base não só nos rendimentos, mas também na profissão, nas qualificações académicas formais, no bairro ou local e tipo de habitação e ainda por afinidades ideológico-políticas.

O que podemos pensar — contrariando a ideologia de que a comunidade local é naturalmente o lugar da inclusão, onde os laços de solidariedade, crenças partilhadas e a comunhão de valores são transmitidos e revitalizam o sentido de pertença e comunhão entre parentes, vizinhos, amigos e pares com quem se partilham memórias de acontecimentos e narrativas, etc., — é que este é também o lugar protegido das mais velhas assimetrias sociais, reificadas por significados que podem interceptar e desqualificar o poder simbólico da igualdade, seja esta instituída pelo estatuto de cidadão, inerente à função de produtor, ou procurada pelo lugar de consumidor de uma indústria cultural de massa e sem raízes locais.

Temos, assim, que considerar o conflito e a contradição, como partes da experiência daqueles que se descobrem parte da sociedade em que estão integrados por um vínculo vertical ao Estado, que pode ser ocultado ou desqualificado pela não afinidade de interesses económicos, gostos, necessidades expressivas, estilos de consumo, crenças ou ideias político-ideológicas.

da cidadania na relação com a identidade de pertença a comunidades não democratizadas.

Já Weber, que considerava a constituição da comunidade como a "contraposição mais radical da luta" (conflito entre grupos de interesse), entendia que "no interior dos mais íntimos processos da comunidade podem-se encontrar violentações de toda a espécie e a selecção dos tipos sociais a que correspondem diferentes probabilidades de vida e de sobrevivência" (Weber s/d).

Também Sousa Santos (1999; 2001), que considera que devemos, neste momento, privilegiar as relações estruturadas pelo princípio da comunidade, porque as suas potencialidades emancipatórias não sofreram hiperespecialização técnico-científica, chama a atenção para o facto de ser nos espaços estruturados pelo princípio da comunidade que se produz uma das formas de poder mais complexas e ambíguas — o poder da "diferenciação desigual". Trata-se de uma forma de poder em que alguns grupos exercem o privilégio de definir o outro, incluindo aquele a que pertence e excluindo o que é estranho. Através do exercício desta forma de poder, cria-se a alteridade, agregam-se identidades e define-se a diferença com critérios mais ou menos deterministas, o que incapacita aqueles que são definidos como outros a definirem-se e representarem-se a si próprios.

Sendo embora a Comunidade o lugar menos submetido ao "utopismo científico- tecnológico", produzido pela hegemonia da racionalidade instrumental e, consequentemente, pela burocratização do mundo da vida, sendo a solidariedade a forma de saber aí dominante, é também o lugar onde a realidade é mais abertamente escrita e lida a partir das "tópicas sociais" que reproduzem e legitimam as relações sociais dominantes.

É no contexto local que o espaço doméstico é entendido pela lógica do poder patriarcal, que o espaço da produção é lido segundo a lógica da exploração capitalista, que o espaço do mercado é vivido como apelo ao consumismo fetichista e em que as relações de pertença e não pertença comunitária são definidas numa perspectiva chauvinista, o que implica que qualquer luta local pela democracia não possa

expressar-se em alta intensidade, por falta de legitimação social directa.

Importa, assim, descobrir qual a base material, simbólica e micro-política que produz e reproduz estas lógicas que parecem impermeabilizar a subjectividade de alguns grupos sociais ao impacto da modernização da relação com os seus agentes, dos media e da própria cultura de massas que, em muitos contextos, são o meio quase exclusivo de difusão e recepção das ideias e políticas sociais potencialmente emancipatórias das mulheres, das crianças, das minorias e dos grupos explorados e oprimidos pela relação trabalho-salário-consumo ou pela exclusão.

Interessa saber se haverá condições sociais e pessoais que possam limitar ou facilitar o acesso à outra forma de cidadania- mundo, que é o cosmopolitismo, como outro lugar de possibilidade de emergência e de desenvolvimento do sentimento de pertença, familiaridade e de co-habitação, num mundo social comum, no qual as circunstâncias de subordinação ou exclusão, estruturadas económica, política e culturalmente, ainda continuam a ser questionadas por muitos.

Dans le document automation computers (Page 60-64)

Documents relatifs