Chapitre III : le cœur défaillant, « moteur en panne d’essence » : cas de l’insuffisance
VII) Etude de la fonction mitochondriale
1) Principe
Com o fim da Guerra Fria, algumas mudanças ocorreram no cenário internacional. O antagonismo entre os dois pólos de poder se encerrou, a possibilidade de eclosão de uma guerra nuclear diminuiu significativamente e a Rússia passou a não ser mais protagonista na agenda de política externa dos Estados Unidos. Entretanto, um país que detém aproximadamente 45% dos arsenais nucleares do mundo, com grandes reservas de petróleo e gás, e uma forte atuação favorável ao regime de não-proliferação nuclear não pode ocupar um lugar secundário na agenda dos Estados Unidos. (ROBERT LEGVOLD; 2010)
Nos governos iniciais do pós Guerra Fria essa posição oscilou bastante, na avaliação de Robert Legvold (2010). George W. Bush (2001-2009) tomou posse sem uma política definida para a Rússia. Já o Governo Clinton (1993-2001) foi muito presunçoso ao acreditar que poderia conduzir a Rússia a uma democracia e economia de mercado. A Rússia, portanto, foi vista como um simples pano de fundo nos cálculos dos EUA para várias questões, como a expansão da OTAN e sistema de defesa com mísseis balísticos, até o ataque terrorista de 11 de setembro. E mesmo durante as conversações entre os dois governos para elaboração de uma parceria estratégica, entre os anos de 2001 e 2003, o governo americano, liderado por George H. W. Bush (2001-2009), nunca havia deixado claro porque uma parceria com a
41 Disponível em: http://www.russianembassy.org/page/russian-american-business-cooperation . Data de acesso:
Rússia de Vladimir Putin (2000-2008/ 2012-2016) seria importante e qual o objetivo que se pretendia atingir.
Em 1997, a Rússia assinou, em Paris, o Ato de Fundação OTAN-Rússia (NATO- Russia Founding Act) que previa nortear as relações entre a Rússia e o Ocidente, no pós Guerra Fria, por um caminho mais amigável. O Ato estabelecia um compromisso político em prol da paz duradoura na região Euro-Atlântica sob os princípios de democracia e segurança cooperativa. O Acordo ainda previa que a OTAN e a Rússia não se viam como adversários; comprometiam-se a reforçar a confiança mútua e a cooperação; e estabelecia mecanismos de consulta, cooperação, e tomada de decisão conjunta que iriam constituir o núcleo das relações mútuas entre a OTAN e a Rússia42.
No governo Obama (2009-2017), diferente de seus predecessores, sempre foi enfatizada a importância da Rússia para os interesses americanos, pois diversos fatores tornam o país russo central para a definição da agenda externa dos EUA, como: a permanência da Rússia como a única potência nuclear comparável aos Estados Unidos; a Rússia ser o maior produtor mundial de hidrocarbonetos e os Estados Unidos o maior consumidor; a posição geográfica russa próxima da Europa, da Ásia e do Oriente Médio, regiões de interesse para os Estados Unidos; e a qualidade de membro permanente que a Rússia possui no Conselho de Segurança das Nações Unidas, no qual Moscou possui grande influência em questões diplomáticas cruciais para os Estados Unidos, como o Irã, a Coréia do Norte. Obama teve em mente, desde o início de seu mandato, que Moscou poderia ajudar a superar vários dos desafios que os EUA enfrentam, referidos aqui, através de uma parceria estratégica. (ROBERT LEGVOLD; 2010)
Segundo Dan de Luce (2016), a Rússia é indispensável na prevenção de terrorismo nuclear, devido a seu enorme arsenal nuclear43. A cooperação russa-estadunidense nas últimas duas décadas foram importantíssimas para controlar os estoques de armas nos países da ex- União Soviética e prevenir o roubo de material atômico que poderia ser usado para a produção de bombas. A preocupação central são as armas de destruição em massa e o tráfego de material radiológico.
De acordo com Robert Legvold (2010), há três interesses na política externa dos EUA em relação à Rússia que são frequentemente negligenciados devido a sua natureza geoestrategicamente complexa. São eles: 1) o espaço pós-soviético, para a Rússia sua
42 Disponível em: http://www.nato.int/cps/en/natohq/official_texts_25468.htm . Data de acesso: 14/10/2016. 43 Maiores potências nucleares , segundo dados do SIPRI de janeiro de 2016: Rússia, EUA, França, China,
vizinhança é uma extensão natural de seu espaço econômico e de sua influência política, enquanto para os EUA essa região representa o núcleo das áreas estratégias de sua política externa: Europa, Ásia e o sul islâmico. Conseguir uma cooperação russo-estadunidense nessa região seria uma conquista única nas relações entre Estados Unidos e Rússia. 2) Criação de um ambiente de segurança estável e efetivo na Europa e na Ásia (neste último, necessitaria também de uma parceria com a China). A Europa continuará vulnerável as ameaças da periferia oriental, a menos que Washington e Moscou encontrem um meio de cooperar e superar o impasse de uma arquitetura de segurança europeia. 3) Administrar a ascensão de novas potências, principalmente a China. A estratégia seria a Rússia e os Estados Unidos promoverem uma integração com a China, com o intuito de evitar que Moscou se alie à Pyongyang contra Washington.
O interesse conflitante russo-estadunidense em torno do espaço pós soviético é ainda mais agravado com as pretensões de Vladimir Putin de estabelecer uma nova União Eurasiática. Para perseguir esse objetivo, Putin realiza persistentes esforços para se aproximar das ex repúblicas soviéticas, com o intuito de impedir o alinhamento destas com o Ocidente ou com a China. O presidente russo utiliza diversos meios nas investidas com as repúblicas soviéticas, de acordo com Dueck (2015), como: incentivos financeiros, comerciais e de segurança; suborno; pressão militar; sanções econômicas; propaganda; diplomacia cultural e até manipulação nos preços do gás e do petróleo. Porém a maioria destes Estados preferem não tomar partido e manter suas relações abertas com ambos os lados. Embora a Ucrânia, Bielorrússia, Geórgia, Armênia, Moldóvia, Cazaquistão, Tajiquistão e Quirguistão sejam mais vulneráveis às pressões russas.
Em um discurso feito em Moscou em seu primeiro ano de mandato, Obama apresentou um conjunto de interesses nacionais americanos que, em sua visão, coincidem com os interesses nacionais russos. São eles: a não proliferação de armas nucleares; o isolamento e a erradicação de extremistas violentos; a promoção da prosperidade global; o estímulo à proteção dos direitos humanos nos governos democráticos; e um sistema internacional que promova cooperação ao mesmo tempo que garanta a soberania das nações. (ROBERT LEGVOLD; 2010)
É válido observar que esses cinco interesses comuns apontados por Obama são muito superficiais e sozinhos não contribuem tanto para formação de uma real cooperação entre Washington e Moscou.
A Rússia enfrenta uma recessão econômica desde 2014, de acordo com o Banco Mundial44, quando o preço do petróleo começou a cair, foram implantadas as sanções econômicas ocidentais, e o rublo (moeda russa) se desvaloriza. Segundo a revista eletrônica The Economist45, o petróleo e o gás correspondem a 70% das exportações russas anuais e a 52% do orçamento federal. Devido a recessão, a inflação atingiu dois dígitos, a taxa de pobreza aumentou em 2.2%46 de 2014 para 2015, o desemprego subiu 0.4%47 no mesmo período, e a economia encolheu 3.7%48 em 2015.
Contudo, a Focus Economics declarou que os setores da agricultura e da indúsria já mostram alguns avanços, porém o setor de construção permanece mergulhado na recessão. Figura 8 – Crescimento econômico da Rússia (2000-2014)
Fonte: World Bank
Robert Legvold (2010) afirma que alguns países estagnaram por um tempo, porém a Rússia por mais da metade de um milênio mesmo com momentos de colapso sempre é seguida de renascimento e crescimento. Portanto, parece imprudente e simplista focar apenas em um conjunto de fatores.
44 Disponível em: http://www.worldbank.org/en/news/press-release/2015/09/30/russia-economic-report-34. Data
de acesso:13/10/2016.
45 Disponível em: http://www.economist.com/blogs/freeexchange/2015/04/russian-financial-
rally?zid=295&ah=0bca374e65f2354d553956ea65f756e0 . Data de acesso: 13/10/2016.
46 Disponível em:
http://data.worldbank.org/indicator/SI.POV.NAHC?end=2015&locations=RU&start=2002&view=chart . Data de acesso: 13/10/2016.
47 Disponível em: http://www.focus-economics.com/country-indicator/russia/unemployment . Data de acesso:
13/10/2016.
De acordo com Robert Legvold (2010), a Rússia é uma das potências energéticas mais poderosas do mundo, entretanto devido a sua economia dependente de commodities, é completamente vulnerável às oscilações da demanda e do preço a curto prazo. A Rússia tem mais influência no espaço pós-soviético do que qualquer outro país no mundo, entretanto tem menos influência do que qualquer potência em regiões que vão além das ex-repúblicas soviéticas. É fundamental entender os dois lados do poder russo e como eles juntos conduzem e restringem o comportamento externo da Rússia.
Steven Pifer (2012) apresenta algumas observações sobre a Rússia de Putin. A primeira é que Putin foi o primeiro ministro do seu antecessor Dmitri Medvedev, porém não há dúvidas que Putin é quem possuía o verdadeiro poder, logo não há razão para acreditar que a volta de Putin à presidência represente grandes mudanças na política externa russa. Segundo, embora fosse esperada uma certa continuidade, o tom das relações bilaterais entre os dois países mudou. Putin foi um agente da KGB (em russo – Komitet Gosudarstvennoi Bezopasnosti, que significa Comitê de Segurança do Estado), e devido à sua formação ele mantém um ceticismo cauteloso em relação aos objetivos e políticas americanas. As declarações de Putin sugerem que ele acredita que as revoltas que atingem os Estados da Geórgia, Ucrânia, Tunísia e Egito não são manifestações de insatisfação popular, mas sim revoltas financiadas, inspiradas e dirigidas pelos Estados Unidos. Terceiro, ao voltar à presidência Putin enfrentou duros problemas econômicos e políticos. A economia e a receita russa permaneciam excessivamente dependentes das exportações de petróleo e gás natural. A corrupção continuava desenfreada, o que afetava tanto as instituições políticas do país como a falta de confiança na economia russa. Quarto, Putin é realista e pragmático em meio a difíceis escolhas.
Em suma, o retorno de Putin à presidência não alterou totalmente o curso do relacionamento com os Estados Unidos, porém tornou as negociações mais sensíveis e exigiu um esforço americano maior para acomodar os interesses russos (STEVEN PIFER, 2012).
Para Robert Legvold (2010), é difícil estabelecer uma política externa americana para a Rússia, pois é complicado definir o desafio que ela apresenta aos Estados Unidos. Moscou não é aliado de Washington, mas também não é claramente um adversário. É preciso definir o que a Rússia representa para os Estados Unidos para poder definir qual estratégia utilizar para este país.
Portanto, Robert Legvold (2010) apresenta quatro tipos de estratégias que os Estados Unidos poderiam adotar em relação à Rússia. A primeira é a neo-contenção, na qual ocorre o estabelecimento de limites, o EUA ocupa uma posição de poder em relação ao país russo, e
forma coalizões com o objetivo de impedir uma expansão russa. A segunda possui uma interpretação menos ameaçadora de Moscou, e prega a aproximação e engajamento com a Rússia, na tentativa de identificar áreas de interesses comuns aos dois países, ao mesmo tempo que promove um diálogo honesto em temas que as duas potências divergem. Os esforços do governo Obama em melhorar o relacionamento russo-estadunidense, depois de décadas de rancor, encaixa-se nessa segunda estratégia.
A terceira abordagem situa-se entre as duas anteriores, é uma combinação de engajamento seletivo com contenção seletiva. O engajamento seria em áreas que os interesses de ambos os Estados coincidem, como proliferação nuclear e combate ao terrorismo. Enquanto os Estados Unidos adotaria a contenção em temas que as duas potências divergem, como as políticas para o espaço pós soviético e o suporte que a Rússia dá a alguns países que os Estados Unidos consideram Estados párias. (ROBERT LEGVOLD; 2010)
Por fim, a quarta estratégia possui uma visão mais focada nos problemas que a Rússia está inserida, como a crise demográfica, a vulnerabilidade econômica devido à volatilidade do preço do gás e do petróleo, a corrupção, as crescentes tensões étnicas no Norte do Cáucaso, e uma infraestrutura arruinada. Robert Legvold (2010) afirma que talvez o foco da preocupação deva ser através da perspectiva de uma Rússia fraca ao invés de uma Rússia agressiva. Pois problemas russos podem transbordar para os demais Estados, como instabilidade econômica, criminalidade, tráfego de armas e material bélico, e outros tipos de desordem que os Estados Unidos devem evitar isolando a Rússia.
A estratégia defendida por Robert Legvold (2010) é a segunda – aproximação e engajamento com a Rússia – que o autor define ser segura e que fornece uma base mais construtiva. A terceira opção é definida pelo autor como precária e sem visão, e a quarta abordagem é vista como prematura (uma vez que não há claros sinais de que há um profundo declínio russo) e a indeterminação de suas consequências.
Para Robert Legvold (2010), qualquer estratégia adotada na definição do desafio russo tem que levar em consideração uma terceira dimensão: quais fatores que definem o comportamento russo serão salientados e atribuídos seu peso proporcional. Três fatores são citados por Robert Legvold, são eles: 1) o impacto das principais características da política doméstica no comportamento externo de um Estado. Características como governos autoritários, Estado “privatizado” por uma elite dominante, fracas instituições. 2) O impacto na política externa da Rússia dos duros desafios que o país enfrenta internamente, como a crise demográfica, a corrupção, a infraestrutura arruinada, e os obstáculos para uma reforma financeira e no setor bancário. 3) A natureza deformada do poder russo. A Rússia tem quase
45% dos arsenais nucleares do mundo, porém possui uma força militar convencional obsoleta e desgastada.