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3. SELECTION OF COMPONENTS

5.1.4. Seismic probabilistic safety assessment

Na pesquisa, ao questionar os docentes das escolas públicas e particulares do município de Natal sobre a utilização dos documentos oficiais em suas práticas educativas, obtivemos diferentes respostas que nos revelam o quanto as realidades que se apresentam no cotidiano escolar e ao ensino de Sociologia podem estar dissociadas do que tem sido proposto nos projetos de ensino e nas orientações curriculares. Na verdade, é possível perceber a existência de uma significativa distância entre o que é proposto nas escolas e o que tem acontecido na prática.

Para construir o debate sobre como os documentos oficiais do campo político têm repercutido nas escolas, organizamos o Quadro 9 que busca representar as questões feitas a cada docente entrevistado55, as respostas e os elementos que consideramos significativos.

Quadro 9 – Os professores e os documentos oficiais

Questões Falas dos entrevistados Elementos significativos Você consegue trabalhar os documentos oficiais no cotidiano das escolas?

Não, estamos muito aquém do que nos é proposto de forma oficialmente, e daí vem uma série de problemas, o primeiro: já exposto anteriormente, é a questão do tempo, uma aula de Sociologia na semana; Segundo: o número excessivo de alunos e o tempo gasto com a demanda de elaboração e correção de trabalhos, provas; Terceiro: trabalhamos com modalidades de ensino diferentes; Quarto: o público idealizado da sala de

Desafios quanto ao tempo das aulas, a quantidade de alunos, diferentes modalidades de ensino e base conceitual dos alunos.

55 Para preservar o anonimato dos entrevistados, substituímos seus nomes por nomes fictícios. Para

isso registramos as falas dos docentes em toda a pesquisa com os nomes que adotados partir desse quadro de análise. Reforçamos que apesar de a pesquisa ter sido realizada em doze escolas no município de Natal/RN, os quadros de análise não registram as falas de todos os entrevistados porque alguns deles não fizeram comentários sobre todas as perguntas.

aula, que aquele que deveria ter uma base dos conceitos realmente básicos para o 7°, 8° ou 9°ano, chegam sem esses conceitos, com isso, estamos muito aquém de seguir as diretrizes que nos são propostas (Professor João)

De que maneira os OCN- Orientações Curriculares Nacionais e os PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais, e outros documentos oficiais, influenciam o ensino da Sociologia?

Infelizmente, esses documentos não chegam para a maioria dos professores que tem uma carga de trabalho muito grande, porque quando eles chegam em casa vão corrigir provas e elaborar provas, não é como certo governador falou, que o professor tem folga demais, porque o professor está sempre trabalhando mesmo estando em casa. Esses documentos não chegam, vai da iniciativa de cada um buscar, no geral pouco influenciam esses documentos a prática dos professores.

Alguns colegas que trabalham também em escolas particulares acabam tendo que ter esse conhecimento porque lá ele é exigido, outros que buscam para melhorar os seus horizontes. (Professor Terezinha)

A não influencia dos documentos nas práticas educativas dos professores em função das condições de trabalho.

Nas escolas privadas, são incentivados a trabalhar com as orientações em função da política de resultados. De que maneira os OCN- Orientações Curriculares Nacionais e os PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais, e outros documentos oficiais, influenciam o ensino da Sociologia?

São muito importantes as anotações e os PCNs, mas não só eles, mas não só eles existem também as orientações do Enem, são habilidades e competências que você deve desenvolver no aluno de ensino médio. Eu acredito muito que o professor deve fazer seu plano de ensino, sua proposta anual em cima daquilo que é sugerido pelos documentos de MEC, porque eles sugerem coisas muito legais em termos de trabalhar a consciência crítica do aluno, que temas podem ser trabalhados e de que forma podem ser aplicados, mas nada imposto, que ele seja algo que o professor construa junto com a sua prática pedagógica, porque cada turma, cada escola é uma realidade, algo que funcione em uma escola pode ser que não funcione na outra, então, é preciso ter criatividade pra poder readaptar todos esses processos metodológicos na prática do ensino (Professor Marcos).

A matriz de referência do ENEM é considerada um documento de orientação do ensino da Sociologia. Reconhecimento da importância dos documentos de referência para a construção do planejamento das práticas educativas. Importância da autonomia do professor na elaboração dos planejamento e reconhecimento da particularidade de cada turma e escola. Ainda me referindo as OCNs e PCNs, você acha que na nossa prática cotidiana como professores de Sociologia nós deixamos esses documentos de lado?

Acredito que deixamos sim, embora eu utilizo esses elementos que falei anteriormente do Tomazi, mas ademais disso particularmente não me prendo muito ao PCN, até porque cada escola vai demandar uma realidade e nem tudo é aplicável em todos os espaços, no espaço que estou atualmente o mais interessante de se aplicar é a tematização (Professor Pedro).

Uso do livro didático como principal referência de ensino. Aulas orientadas por meio do debate de temas sociais. De que maneira os OCN- Orientações Curriculares Nacionais e os PCN – Parâmetros Curriculares

Pensando no professor enquanto individuo, esses documentos podem influenciar se o professor tiver acesso a eles. Dos que conheço os professores não tem acesso, nesse caso acho que porque não querem ter acesso a esses documentos.

Os professores não trabalham com os documentos porque não tem acesso. (REVER)

Nacionais, e outros documentos oficiais, influenciam o ensino da Sociologia?

Qual a proposta que o governo lança para que a Sociologia seja ensinada desse jeito? Então, os professores vão levando muito mais no peito, há braçadas pessoais, do que na própria estrutura que o governo minimamente oferece para o ensino da Sociologia.

Eu procuro usar, partindo da experiência especificamente da experiência que tive com as turmas do pré que irão fazer o Enem, quando lanço no quadro que vamos tratar de movimentos sociais e antes de falar de teoria dos movimentos sociais, eu dizer como o Enem ou documentos gostariam que os alunos entendessem movimentos sociais, os alunos desconhecem isso, não sabem da existência da matriz curricular e a influência do Enem. A escola deveria trabalhar em cima da matriz e não do que os professores dizem, por isso, que imagino que o professor não tem acesso (Professor José).

O trabalho docente acontece de maneira mais espontânea do que orientado pelos documentos oficiais. O documento que tem referenciado a prática de alguns professores é a matriz curricular no ENEM. Alguns professores ao ensinar os conhecimentos sociológicos, os relacionam com o que é proposto na matriz curricular do ENEM. Uma pergunta

dentro desse momento, você como professor tem tido essa experiência real e não somente dos estágios, acredita que as OCNs e PCNs são documentos que conseguem chegar ao cotidiano do ensino?

É importante essa pergunta porque eu costumo comparar os documentos, os OCNs e PCNs como um livro didático, se a gente seguir eles na linearidade, vai ter um processo que irão deixar lacunas, os documentos inicialmente são utilizados e depois em alguns momentos, mas eles sempre deixam lacunas. O que faz o direcionamento me referindo dentro do setor privado são as demandas do mercado, nós recebemos um mapeamento dos assuntos que possuem mais incidências na prova de humanas e dentro desse âmbito a gente vai fazendo os devidos apontamentos. Os OCNs e PCNs eles não dão conta dessa demanda e fica, coisas que não se aplicam de forma concreta na realidade do cotidiano do professor. Eu percebo que muitos colegas assim como eu passaram a utilizar os PCNs e OCNs apenas no começo da prática docente. A posteriori não tiveram o mesmo engajamento, perceberam que a situação problema, a realidade, as condições concretas de trabalho não permitiam essa aplicação direta (Professor Júlio).

Os documentos oficias não contemplam todo o processo de ensino e de aprendizagem, por isso, tem sua proposta secundarizada.

O ensino de Sociologia passa a ser orientado pela matriz de referência do ENEM. A escolha dos conteúdos a serem ensinados é orientada por um diagnóstico ou mapeamento de quais assuntos mais são cobrados nas questões do ENEM. Os documentos oficiais são considerados referencias para as práticas educativas somente no início da trajetória profissional. Depois, a realidade da escola e as demandas passam a influenciar o ensino da Sociologia. Fonte: Autoria própria

Conforme verificamos nas falas dos entrevistados, realidades distintas interferem nas escolas, redefinindo a maneira como a Sociologia é ensinada a partir de diversas demandas. Nas entrevistas, ao perguntar se os professores trabalham os documentos oficiais nas escolas, obtivemos a informação do professor João de que

isso não é possível em função dos desafios postos ao docente de Sociologia quanto ao “tempo reduzido” de aula (cinquenta minutos), da quantidade de turmas que precisa ensinar para completar a carga horária semanal de vinte aulas, da quantidade de alunos por sala, da necessidade de atender a diferentes modalidades de ensino e do “baixo nível dos conhecimentos dos alunos”, no que se refere à “base conceitual”, o que entendemos ser de capital cultural.

O mesmo pode ser percebido na fala da professora Terezinha, quando afirma que “esses documentos não chegam para a maioria dos professores”. Além disso, destaca que as condições de trabalho surgem como fatores que impedem o planejamento das aulas com base nos documentos. Para a entrevistada, os documentos pouco influenciam a prática dos professores, por estes não terem condições de conciliar estudos com o excesso de trabalho nas escolas públicas.

Em contraposição, nas escolas particulares, os professores parecem ser obrigados a trabalhar tomando como referência os mesmos documentos. Isso nos faz compreender que as relações de trabalho operam como determinantes nas práticas pedagógicas, pois mesmo sem condições para conciliar o estudo teórico com o trabalho cotidiano das aulas, o docente precisa enfrentar esses desafios para permanecer no posto de trabalho.

Ainda em relação à necessidade de tomar como referência os documentos oficiais no planejamento das aulas nas escolas, o professor Marcos reconhece a importância dos documentos, mas reforça que o docente precisa ter autonomia para planejar tomando como referência não apenas o que está proposto pelo campo político (no caso as OCNs e os PCNs) mas principalmente considerando as particularidades de cada realidade, turma e escola.

Nesse sentido, o professor Pedro reforça sua condição de autonomia quando relata que sua prática pedagógica não é orientada pelos documentos, mas sim pelo livro didático e por estratégias de ensino como a tematização dos conhecimentos sociológicos.

O mesmo ocorre com a fala do professor José. Quando afirma que os professores não trabalham tomando os documentos como referência pelo fato de não terem acesso a eles. Segundo o docente, o não acesso pode ser intencional, haja vista que muitos professores não buscam as referências para planejar suas práticas, o que pode repercutir na construção de práticas educativas de caráter mais

espontâneo, em função das demandas locais, dos desafios, da realidade dos alunos, da visão de mundo dos professores etc.

Já o professor Júlio justifica que as orientações dos documentos não contemplam as demandas de todo o processo de ensino e de aprendizagem, por isso, esses referenciais devem ser colocados em segundo plano. Para o docente, os documentos oficiais foram tomados como referencial para o trabalho de ensino somente no início da sua trajetória profissional. Depois, a realidade da escola e as demandas passaram a influenciar o ensino da Sociologia mais do que estava proposto na legislação.

Uma informação que consideramos ser importante nas entrevistas e que nos ajudou a identificar o surgimento de outro documento que, em determinadas situações, parece assumir o protagonismo na orientação do ensino da Sociologia nas escolas foi a influência da matriz de referência do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Segundo as falas dos professores Marcos, José e Júlio, a matriz de referência do ENEM é considerada um importante documento de orientação do ensino da Sociologia, fazendo com que os conteúdos a ser ensinados na disciplina sejam definidos e orientados pela matriz e por um diagnóstico ou um mapeamento realizado sobre quais assuntos são considerados os mais avaliados nas questões do ENEM.

Essas questões nos ajudam a compreender que a contribuição dos documentos oficiais (OCNs e PCNs), como elementos de orientação do conhecimento científico para as escolas no campo educacional (conforme discutimos anteriormente), é reduzida significativamente quando analisamos as condições reais em que os docentes se encontram ao materializarem suas práticas educativas, tendo suas ações motivadas por seus processos formativos ou pelas diferentes dinâmicas ou demandas das escolas. Isso nos revela que o subcampo das escolas, ao manifestar suas próprias demandas e dinâmicas de funcionamento, coloca em segundo plano as orientações do campo político, contrariando o que propõe o Estado na condição de instituição executora da política nacional de educação.