O Inventário de Relações Objetais e Teste da Realidade de Bell (Bell Object Relations and Reality Testing Inventory; BORRTI; Bell, 1995) é um instrumento baseado em pressupostos psicanalíticos, representando um largo conjunto de paradigmas acerca das Relações Objetais e das crenças interpessoais. Teve origem no modelo das Relações de Objeto desenvolvido por Bellak, Hurvich e Gediman (1973 cit. in Bell, Billington, & Becker, 1986). Estes autores descreveram a multidimensionalidade das Relações de Objeto através de um continuum, desde a ausência patológica de relacionamentos interpessoais, à existência de relações boas, gratificantes e livres de distorções.
O objetivo deste inventário é avaliar os constructos das Relações Objetais e do Teste da Realidade. Os itens relativos às Relações Objetais podem ser administrados em separado, constituindo o BORRTI – Forma O (Bell, Billington & Becker, 1986). Nesta investigação foi utilizada apenas esta forma parcial do instrumento4.
O BORRTI-O é então um questionário autoaplicável, composto por 45 itens de verdadeiro/falso, que permite avaliar a Qualidade das Relações de Objeto – determinada através de quatro subescalas, derivadas de uma análise fatorial, que avaliam deficits nas Relações de Objeto: Alienação, Vinculação Insegura, Egocentrismo e Incompetência social.
A Alienação refere-se a uma falta de confiança básica nos relacionamentos, à incapacidade para experienciar relações próximas e ao sentimento de falta de esperança de atingir intimidade com os outros. Para estes indivíduos, normalmente, os relacionamentos são instáveis e refletem diversas dificuldades com a intimidade. As relações que existem são, frequentemente, superficiais. Os indivíduos com pontuações mais elevadas na subescala de alienação podem isolar-se como uma tentativa de autoproteção da raiva e da hostilidade que projetam nos outros.
A Vinculação Insegura refere-se a relações interpessoais dolorosas, sensibilidade à rejeição e atribuição de demasiada importância à aceitação por parte dos outros. A separação, a perda e o abandono, real ou imaginado, são intoleráveis para estes indivíduos. As relações são perspetivadas como importantes, mas são,
4 A licença de utilização do material relativo ao BORRTI Forma O, com o copyright © 1995 da Western Psycological Services, limitou-se apenas a esta investigação. Nenhuma reprodução adicional, em parte ou total, por qualquer meio e para qualquer propósito, pode ser realizada sem o consentimento prévio e a autorização escrita da WPS, 12031 Wilshire Boulevard, Los Angeles, California 90025, U.S.A.
normalmente, pautadas por sentimentos como a culpa, a inveja e a ansiedade, que muitas vezes conduzem a padrões desadaptativos e laços sadomasoquistas.
O Egocentrismo consiste em desconfiar dos outros, encará-los apenas em relação ao próprio self e na manipulação dos outros. Estes indivíduos não manifestam empatia verdadeira, pois não têm uma consciência ou preocupação real dos sentimentos dos outros.
A Incompetência Social, como o próprio nome sugere, refere-se à timidez, incerteza acerca das relações interpessoais (sobretudo com o sexo oposto) e à incapacidade de formar relações. Estes indivíduos evitam, frequentemente, a ansiedade que acreditam ser inerente às relações, escapando a qualquer interação social (Bell, Billington, & Becker, 1986).
Todas as subescalas foram calculadas manualmente utilizando a folha de cotação manual das respostas específica para esse efeito: primeiro foram calculados os raw- scores, que por sua vez permitiram obter os T-scores. Em termos gerais, quanto maior for a elevação numa subescala, maior a probabilidade de se justificar uma interpretação no sentido de maior gravidade de patologia.
Estas quatro subescalas podem ser sintetizadas e criar uma pontuação total da Qualidade das Relações Objetais (uma pontuação total mais elevada significa uma Qualidade das Relações Objetais mais pobre).
O instrumento possui ainda índices que permitem avaliar a validade dos resultados obtidos: 1) o Índice de Respostas Inconsistentes deteta padrões de respostas inconsistentes, é composto por oito pares de itens – quando existem respostas contraditórias em quatro ou mais destes pares, os resultados obtidos nas outras subescalas devem ser encarados com precaução; 2) dois Índices de Validade que dizem respeito à consistência das respostas, são mais fiáveis do que o Índice de Respostas Inconsistentes e refletem respostas aleatórias ou sistematicamente distorcidas. O Índice de Validade FREQ permite testar a validade de resultados elevados nas subescalas, uma vez que um respondente com esse tipo de resultados, habitualmente, escolhe os itens que compõem este índice. Se o respondente obtiver um T-score igual ou superior a 70 em qualquer uma das escalas e apresentar um valor de FREQ igual ou inferior a 4, então a fidelidade das suas respostas poderá estar em causa e a interpretação dos resultados deverá ser feita com precaução. O Índice de Validade INFREQ permite identificar resultados falsos ou duvidosamente negativos. Este índice é composto por itens que habitualmente não são escolhidos pelos respondentes que não têm pelo menos um T-
score igual ou superior numa das escalas. Se o respondente não obtiver nenhum T-score igual ou superior a 70 e apresentar valores de INFREQ iguais ou superiores a 3, então a fidelidade das suas respostas poderá estar em causa e a interpretação dos resultados deverá ser feita com precaução.
A versão original do BORRTI-O demonstra fiabilidade teste-reteste (r entre 0.58 e 0.90 para as subescalas das Relações de Objeto às quatro semanas, e entre 0.65 e 0.81 às 13 semanas), assim como ausência de enviesamentos devido à idade, sexo ou desejabilidade social (Bell, 1995). Os alfas de Chronbach’s variam entre 0.79 e 0.90 para as subescalas das Relações de Objeto. O BORRTI discrimina entre vários grupos critério, incluindo a patologia Borderline e outras perturbações de Eixo II, perturbações afetivas e outras patologias de Eixo I, assim como entre amostras de estudantes e da comunidade geral (Bell, Billington, & Becker, 1986).
A versão portuguesa do instrumento utilizada nesta investigação, para a qual se obteve a autorização da Western Psychological Services (empresa que detém os direitos legais sobre o instrumento) corresponde a uma tradução da Dra. Nina Prazeres. No entanto, foi impossível obter dados sobre a qualidade psicométrica do inventário quando aplicado a populações portuguesas.