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As trabalhadoras entrevistadas relatam um conhecimento e uma participação muito pontual do sindicato em seu cotidiano de trabalho. Nenhuma delas participou ou participa das assembleias para votação dos acordos coletivos ou discussão dos termos do acordo.

Geralmente as assembleias que têm lá é, tipo assim, com relação a aumento de salário. Com relação a isso, você vê alguma movimentação deles, mas, assim, para você ver ação que eles fizeram alguma coisa, que fez valer, que trouxe melhorias eu realmente desconheço. Eles geralmente tentam mobilizar a grande maioria para fazer um tipo de votação a favor do aumento de salário, alguma coisa assim às vezes eles fazem. Mas como a empresa tem o poder, vamos dizer assim, ela faz a lavagem em algumas pessoas para ser a favor da empresa e a grande maioria aceita. [...] outra coisa, às vezes, até para a votação do aumento do salário eles só colocam para votar quem realmente está a favor da empresa. [...] as assembleias são para todos os trabalhadores, no entanto, nem todos participam. Eu acredito que só participa desse tipo de votação quando a empresa quer ganhar alguma coisa em troca aí ela coloca aquelas pessoas que ela realmente quer. [...] essas assembleias ocorrem no horário de trabalho e é muito difícil ter pausa e você tem que ir no seu horário de descanso. Eu não vou deixar o meu descanso que é dez minutos para votar, sinceramente eu não vou porque é muito pouco tempo. (TRABALHADORA 1, sic).

Não entendia a importância em participar porque compreendia que o sindicato contribui mais com a empresa do que com o trabalhador. (TRABALHADORA 2).

O que chama atenção nos relatos é que as trabalhadoras, em certa medida, acreditam que o sindicato defende os interesses da empresa e não dos trabalhadores. Sob o prisma das falas, entende-se que, na realidade concreta, as trabalhadoras não veem seus interesses representados. As entrevistadas afirmam que somente as pautas tradicionais não resolvem as

péssimas condições de trabalho e as cobranças excessivas. “O problema não é o quanto você ganha, o problema é a pressão que você vive lá dentro. Vai muito além do que o salário. [...] mais importante do que o dinheiro que eu ganho é minha saúde mental” (TRABALHADORA 2). A questão crucial aqui é que o exercício desse controle, que se apresenta enquanto pressão no cotidiano prático das trabalhadoras, é inerente ao sistema do capital e nenhuma luta sindical conseguirá contê-la. Sua supressão só será possível com a construção de uma nova ordem societária radicalmente socialista. A ausência dessa compreensão conduz as trabalhadoras ao entendimento de que o sindicato pouco ou quase nada faz para alterar as suas condições de trabalho e, assim, que o sindicato não consegue entender e pleitear os seus anseios.

O distanciamento do sindicato e da base emerge também nos relatos das trabalhadoras que dizem desconhecer os acordos coletivos e não saber como são negociados. Segundo a dirigente sindical, eles realizam uma pesquisa (ANEXO A) para compreender as necessidades e pautas desses trabalhadores, mas todas as entrevistadas que afirmam conhecer os acordos coletivos dizem que os termos já chegam prontos para votação e que desconhecem as discussões que acontecem em relação a eles. O que leva à indagação ou desconfiança da base da categoria que sindicato e empresa cooperam entre si. Sobre essa aparente desorganização da classe trabalhadora, Dias (1996, p. 39) vai dizer que:

As classes trabalhadoras são organizadas por uma lógica e por aparelhos (partidos, escolas, etc.) que se podem expressar seus interesses imediatos não podem, contudo, fazê-lo com seus projetos. E não podem porque esses aparelhos e essa lógica foram construídas para realizar outra racionalidade. Assim, as classes trabalhadoras aparecem objetivamente desorganizadas em relação a si mesmas, porque organizadas em relação à racionalidade capitalista. O caráter democrático ou não de uma dada sociedade é clarificado pela eticidade de um Estado de um determinado nexo psico-físico que expressa, também, a consciência ou não do conjunto das classes. Organizar é um verbo transitivo. Organizar é organizar algo. Coloca-se, assim, como atual a questão da necessidade de se definir “a vontade coletiva e a vontade política em geral, no sentido moderno, à vontade como consciência atuante da necessidade histórica, como protagonista de um drama histórico real e efetivo.” (1559, MPE7) Organizar implica definir com quem e para que. Ou seja, remete objetivamente à questão dos intelectuais. Organizar é um verbo que admite a reflexibilidade: organizar-se, auto-organizar-se. Vale dizer: o trabalho de organização de, para e com, começa pelo trabalho consigo mesmo.

Essa dificuldade da classe de organizar a si mesmo, de definir a vontade coletiva e sua vontade política expressa um dado importante: essa classe existe objetivamente, mas essa existência não se traduz em existência política. É emblemático quando a dirigente sindical diz que “o TMA, quando ele vem, vem como exigência da operadora [empresa contratante]”, pois, aqui fica explícito que o sindicato, enquanto aparelho de organização da classe, não opera a

crítica ao trabalho na sociedade do capital (CAVAIGNAC, 2010), portanto, mesmo compreendendo qual deveria ser a direção estratégica das lutas sociais, atém-se à “critica do capitalismo do ponto de vista do trabalho” – não por uma escolha subjetiva, mas pelas determinações concretas da fragmentação e da conversão dos trabalhadores em “cúmplices dóceis”. Neste sentido, não trabalha com a possibilidade de transformação da classe subalterna em classe dirigente. A ausência desse posicionamento inviabiliza a construção de um projeto de hegemonia da classe trabalhadora enquanto projeto de autonomia dos sujeitos.

4.2.2. As mobilizações coletivas (greves, paralisações) dos trabalhadores de