Security Level Time Function
8.3 Security approaches and elements
Faz parte da sabedoria convencional a tecnologia militar ser considerada a vanguarda do desenvolvimento tecnológico em geral. O spin-off, o processo de aplicação civil das tecnologias militares, é um fenômeno histórico específico, observado em alguns casos nos últimos duzentos anos, mas mais fortemente no pós-II Guerra Mundial e nas primeiras décadas da Guerra Fria. Ele passou a constituir o discurso dominante e um paradigma durante a Guerra Fria, como forma de justificar os gastos militares dela decorrentes: o spin-off poderia ser facilmente estimulado por políticas públicas e constituiria uma forma de amortizar os pesados investimentos em defesa (DAGNINO, 2008). Essa imagem parte do fato de que o conceito de spin-off é em grande medida apriorístico, uma vez que supõe que as indústrias militares são intrinsecamente mais avançadas tecnologicamente do que a civis.
Segundo Duarte (2012), os últimos duzentos anos viram a maior parte das inovações tecnológicas ocorrer visando sua viabilidade comercial antes de seu valor bélico ser reconhecido. Isso designa o spin- in ou spin-on, o aproveitamento na área militar de tecnologias civis. O século XIX evidenciou o sucesso da engenharia e da integração entre ciência e tecnologia e algumas das invenções mais importantes, como a máquina a vapor, a anestesia, o telégrafo e o veículo motorizado somente tiveram emprego militar sistemático com a consolidação do uso civil. Até o século XIX, os esforços bélicos seguiram atrás, e não adiante, do progresso tecnológico.
No século XX, seis setores se beneficiaram fortemente de investimentos em PD&I militar, com ocorrência de spin-off, o nuclear, o aeronáutico, a indústria de computadores, a de semicondutores, a internet e a indústria espacial (RUTTAN, 2006). Essas experiências contribuíram para o estabelecimento do paradigma do spin-off, especialmente a partir do complexo militar industrial norte-americano construído ao longo da Guerra Fria (DAGNINO, 2008).
A tendência de spin-off, entretanto, reverteu-se a partir da década de 1970 e a demanda civil passou a ser dominante (GUICHARD, 2005; KELLY; NISHI, 2003). Guichard (2005) exemplifica o fenômeno com a microeletrônica. Nos anos 1960, a fatia militar desse mercado era de aproximadamente 100% da demanda total; em 2002, ela não
ultrapassava 1%. Erwin (2012) reportou que, em disputas por propriedade intelectual com o Departamento de Defesa dos EUA, empresas que detém participação no mercado civil estariam dispostas a rejeitar contratos a depender dos retornos da aplicação civil da tecnologia. Mesmo em áreas sensíveis como a de redes de comunicação via satélites, as FFAA dos EUA convertem-se para soluções disponíveis junto a empresas privadas (DUARTE, 2012). A relação entre tecnologia militar e civil atual parece ser conforme aquele padrão anterior à Segunda Guerra Mundial, de spin-in.
Shenhar et al. (1998) analisaram alguns casos relativos à conversão da indústria militar em civil, após as alterações das políticas dos governos pós-Guerra Fria. Ao descreverem as diferenças institucionais entre os modelos de negócio das empresas voltadas ao mercado civil e ao militar que podem interferir nos esforços de conversão de indústrias civis em militares (ou vice-versa), concluíram que a adaptação de plantas produtivas ao uso civil nem sempre é uma experiência bem sucedida. O desenvolvimento de tecnologias de uso dual pode ser uma alternativa ao setor, especialmente em uma época em que tendência de prevalência de spin-in.
Quadro 2 – Diferenças fundamentais entre organizações de defesa e empresariais civis
Área Defesa Empresas civis
Produtos Sistemas complexos, volume
baixo, exigências rigorosas; sistemas exigem muitas vezes trabalhos artesanais.
Produtos simples, alto volume, baixo preço, produtos confiáveis, requisitos de desempenho moderado, produção automatizada. Escala de tempo Período de desenvolvimento
muito longo (até 15 anos); ciclo de vida do produto longo (15 a 20 anos)
Tempo de desenvolvimento curto (3 meses a 2 ou 3 anos). Ciclo de vida curto (meses a alguns anos). Desenvolvimento de produto Investimento no desenvolvimento de produtos financiado principalmente pelo cliente Desenvolvimento de produto é financiado pela própria empresa
Marketing Com base no relacionamento de longo prazo com um cliente específico; altos diretores fazem o marketing para poucos compradores, sem capacidade de distribuição
Nenhum cliente específico. Função separada de marketing, pesquisa de mercado,
propaganda, distribuição, etc.; alto custo de comercialização (até quatro vezes custo de desenvolvimento) Padrões e
restrições
Padrões impostos pelos clientes, altas exigências, reportagem ao cliente envolve custos elevados, contratos definem limites sobre os lucros (25%)
Geralmente não há padrões impostos. Reportar-se ao cliente não exigido; alguns novos padrões (ISO 9000), regulamentos sobre produtos médicos e farmacêuticos.
Concorrência Um pequeno número de
concorrentes (principalmente domésticos)
Muitos concorrentes, locais e globais; forte concorrência em preço e qualidade
Tomada de decisão
Retardar a tomada de decisão; tempo para avaliar as decisões.
Decisões rápidas e oportunas são críticas
Organização Grandes departamentos
funcionais; muitos programas gerenciados em uma organização de matriz
Pequenas equipes interdisciplinares; forte envolvimento interfuncional
Estratégia Além do estado-da-arte;
deixe o cliente ter o melhor e pagar por isso
Várias estratégias: criar valor para os clientes através de tecnologia, custo, qualidade, design, imagem, estética, etc. Cultura e valores Conhecimentos científicos e
de engenharia de estado-da- arte são extremamente importantes; pouca ou nenhuma cultura de negócios
Mentalidade empresarial, rápido desenvolvimento, práticas de engenharia, economizar custos
Fonte: Shenhar et al. (1998).
O uso dual não é um atributo da tecnologia, mas um modelo de organização das estruturas civis e militares de inovação. Segundo Guichard (2005, p. 197, tradução nossa), uso dual é “um modelo de gestão de pesquisa, inovação e produção de sistemas de defesa que busca gerar economias de escala, economias de escopo (ou de gama) e transbordamentos (spillover) com o setor civil.” Há vários exemplos de tecnologias de uso dual, especialmente nos ramos das tecnologias de informação e comunicação – TICs e aeroespacial. Conforme Dagnino (2008, p. 128), “integração, transposição e convergência são as estruturas interdependentes que hoje parecem presidir a promoção do desenvolvimento de tecnologias de uso dual”.
2.4.4 O offset como estratégia de desenvolvimento econômico