Quadro 7.9 – Registro do comportamento (Participante 3). Deficiência: Cegueira adquirida
Idade: 37 anos
Gênero: Masculino Data: 27/08/2018
Apoio: Bengala Mapa: Tátil
Execução das Rotas – Detalhamento nos locais marcados
Local Participante 1
L1
Perguntou se havia alguém sempre na guarita para fornecer informações. Ver- balizou não necessitar de mapa tátil nesse momento. Demonstrou desconforto ao perceber a rampa do estacionamento, mas não parou e continuou andando. L2 Andou demonstrando hesitação e questionou se o caminho era de carros e
pessoas.
L3 Verbalizou não encontrar nenhuma diferenciação de piso e nenhuma linha guia. Parou para perguntar o caminho à pesquisadora.
L4
Parou e verbalizou conseguir chegar após ter “sentido” a movimentação próxi- ma de pessoas e que não conseguiria chegar e nem reconhecer que havia chegado ao ponto L4 se estivesse sozinho.
L5 Parou e verbalizou não conseguir seguir o trajeto devido à ausência de referên- cias como piso tátil ou guias. Pediu para ler o mapa tátil novamente.
L6
Parou e verbalizou que não chegaria nesse ponto sozinho. Achava que o cami- nho correto era outro. Pediu para ler o mapa tátil. Disse que não entendeu onde era a entrada do bloco K/I.
L7
Parou e verbalizou estar confuso e não compreender o espaço mesmo com o mapa tátil. Demonstrou estar perdido. Perguntou se estava no caminho certo. Prosseguiu com ajuda dos pesquisadores.
L8 Parou. Reconheceu onde estava e verbalizou não ter encontrado dificuldade e que sabia estar entre blocos.
L9
Caminhou sem demonstrar desconforto e utilizou o meio-fio que divide a vege- tação do caminho como guia de balizamento, mas disse que se houvesse piso tátil ou outro tipo de guia mais específico seria melhor.
L10
Parou e reconheceu a entrada do bloco. Afirmou ter reconhecido a entrada pela alteração do som no local, mas que necessitaria de algo que oferecesse um sentido de direção como placas.
L11 Continuou utilizando o meio-fio como linha guia. Verbalizou que ficou mais fácil para caminhar devido ao meio-fio que o orientou.
L12
Ficou confuso e relatou ter encontrado uma obstrução. Verbalizou modificação no meio-fio que estava servindo de linha guia e que nesse ponto precisaria pe- dir informação.
L13 Verbalizou se sentir desconfortável e desorientado. Pediu para seguir com a ajuda da pesquisadora.
L14 Disse ter percebido que do seu lado o espaço era aberto, sem paredes.
L15
Mencionou os objetos que ficam próximos a esse ponto como sendo obstáculos muito incômodos e que dificultam o contato da bengala com a parede. O inco- modo é ainda maior porque o outro lado do corredor é aberto, com isso, o parti- cipante verbalizou não ter encontrado nenhuma guia que ele pudesse utilizar como referência durante esse trajeto.
Quadro 7.10 – Registro do comportamento (participante 3).
Fonte: Adaptado de Mon’tAlvão e Rangel (2015)
Após uma leitura demorada do mapa tátil, o participante fez diversas pergun- tas sobre o mapa e sobre a legenda ao grupo de pesquisa. Após essa etapa, foram apresentadas para ele as rotas sugeridas, e em seguida foi pedido que ele verbali-
Categorização do comportamento do usuário
Categoria Orientação Espacial Local
1 Andar A Orientação L9; L11; L14 B Indecisão L2 C Desorientação L13; L15 2 Olhar A Orientação L8; L9; L10; L11; L14 B Indecisão L1; L2; L4; L7; L12 C Desorientação L3; L5; L6; L13; L15 3 Parar A Orientação L8; L10 B Indecisão L4; L7; L12 C Desorientação L3; L5; L6 4 Expressões faciais e verbais A Orientação L8; L9; L10; L11; L14 B Indecisão L1; L2; L4; L7; L12 C Desorientação L3; L5; L6; L13; L15
zasse quais estratégias tomaria para realizar as rotas em questão. Nesse momento o participante demonstrou compreender bem o mapa e as rotas quando indicou no mapa tátil quais trajetos faria. Nessa etapa, como estratégias inicias, ele preferiu se- guir nas rotas indicadas pelo grupo e memorizou, através da leitura do mapa, pontos que utilizaria como referência para quando fosse executar a rota.
Os primeiros pontos que o participante buscou memorizar foram: rua, guarita, banheiros, escada, elevador e rampas. Em seguida, buscou identificar no mapa as edificações (blocos) na tentativa (segundo ele) de criar um zoneamento para facilitar a sua compreensão espacial do lugar e, consequentemente, para auxiliá-lo na for- mação de um mapa mental geral da instituição.
O participante solicitou o mapa tátil durante todo o experimento. Para a exe- cução das rotas, ele utilizou o mapa para relembrá-lo do que havia decido fazer. Buscou realizar os percursos conforme o que havia planejado, e ao longo dos per- cursos tentou encontrar os pontos de referência que havia memorizado. As rotas onde essas referências se encontravam tornaram-se mais fáceis para o participante realizar seu processo de wayfinding. No entanto, as rotas onde esses pontos não estavam presentes ou naquelas onde o participante não as encontrou, foram rotas que apresentaram dúvidas e insegurança e, consequentemente, o fizeram pedir para parar e solicitar o mapa novamente.
Através do gráfico (figura 7.12) nota-se que o participante 3 apresentou 33,3% de Orientação e os 66,7%, restantes foram de Indecisão e Desorientação. Ou seja, em mais da metade do trajeto o participante precisou se deslocar com a ajuda dos pesquisadores envolvidos na pesquisa. Os locais que mais contribuíram para que ocorresse um processo de wayfinding de forma mais autônoma pelo participante fo- ram os pontos L8, L9, L10, L11 e L14. Os locais considerados pelo participante 3 como locais de difícil acesso foram os pontos: L3, L5, L6, L13 e L15.
Em relação aos pontos de chegada, o participante reconheceu ter chegado ao ponto L46 (entrada do bloco A), mas apenas porque percebeu a movimentação do grupo indo ao local. Afirmou que se estivesse sozinho não reconheceria. Outro local que o participante reconheceu como destino final foi o ponto L10 (entrada do bloco
6 É válido salientar que o participante chegou duas vezes nesse local e em nenhuma das
B), e diferente do ponto L4, ele afirmou que sozinho chegaria nessa entrada devido a uma grande alteração no som ambiente que percebeu ao se aproximar do local.
No local L6 (entrada/ frente do elevador), o participante verbalizou que não chegaria sozinho, porque não encontrou a entrada (rampa) para o bloco K/I. Ele passou pela frente da rampa de acesso três vezes até encontrá-la com a ajuda do mapa tátil. Chegando em frente ao elevador, afirmou que encontraria o elevador se ele estivesse mais sinalizado, da forma que estava, não encontraria sozinho. Com isso, pode-se dizer que o participante não encontrou e não reconheceu ter chegado ao ponto L6, assim como, não o encontraria se estivesse sozinho.
O último local de chegada, L13 também não foi reconhecido pelo participante, embora, tenha verbalizado que teria notado uma diferença de uso do espaço em função da diferença de som no local, mas não reconheceria esse som como sendo de uma praça ou área de convivência. Segundo ele, sentiu-se desconfortável no lu- gar devido à falta de sinalização, desnivelamento do piso, falta de referências e guias. Verbalizou que sozinho não encontraria o local.
Quadro 7.11 – Reconhecimento do final do trajeto (participante 3).
Fonte: Elaborado pela autora.
É válido salientar que o participante 3 possui cegueira parcial ( consegue dis- tinguir vultos e projeções luminosas) desde os 28 anos e que utiliza a sua visão resi- dual para se locomover. Por esses dois motivos (idade em que passou a ser diag- nosticado como cego, e pelos resíduos de visão que utiliza) as categorias “Olhar” e “Expressões faciais e verbais” foram analisadas como as demais. É sabido no cam-
Reconhecimento do final do trajeto
Destinos Finais Reconheceu ter chegado ao desti-
no?
Reconheceria sozinho ter chegado ao destino?
2 vezes o L4 Sim Não
L6 Não Não
L10 Sim Sim
2 vezes o L13 Primeira vez: Não Não
po da psicologia e linguística, por exemplo, que em casos de pessoas com deficiên- cia congênita, as expressões faciais sofrem alterações do padrão daquelas de pes- soas consideradas normovisuais, o que comprometeria a análise da categoria “Ex- pressões faciais e verbais” nessa pesquisa. Portanto, por se tratar de um participan- te que foi vidente há menos de 11 anos, levaram-se em consideração as suas ex- pressões faciais.
Figura 7.12 – Categorização do comportamento do usuário (Participante 3).
Fonte: Elaborado pela autora.