e dos lampejos moventes do desejo71 e destaca um momento em que Pasollini compara a Arte e
a Poesia aos lampejos dos vagalumes – erráticos, minúsculos, porém potentes: o improvável e minúsculo esplendor dos vagalumes.72
Já em 1975, Pasollini viria novamente a evocar a metáfora dos vaga-lumes como potências/resistências frente ao status quo, que estariam, entretanto, prestes a desaparecer; teriam sido aniquilados pela luz feroz do fascismo triunfante73.
A época em que Pasollini escreve sua primeira carta era caracterizada, então, pela ameaça política do nazi-fascismo, que teria reduzido seu contexto à mais completa escuridão; em oposição à “escuridão” como metáfora do trágico cenário político em que a Europa adentrava, Didi-Huberman atribui o desaparecimento dos vaga-lumes (ou o turvamento das suas pequenas luzes) à claridade dos projetores espetaculares : Não, os vaga-lumes desapareceram na ofuscante claridade dos “ferozes” projetores: projetores dos mirantes, dos shows políticos, dos estádios de futebol, dos palcos de televisão74.
Pasollini, nos seus escritos da década de 70, lamenta pela desaparição dos vaga- lumes, atentando para um “vazio do poder” que se configurava em meio à realidade política e cultural da Itália pós-Mussolini, marcada – assim como o resto do mundo – por uma ditadura industrial e consumista, pela proliferação da cultura de massa. Os projetores tomaram todo o espaço social, ninguém mais escapa a seus “ferozes olhos mecânicos”75.
...Desapareceram mesmo os vaga-lumes? Desapareceram todos? Emitem ainda – mas de onde? – seus maravilhosos sinais intermitentes? Procuram- se ainda em algum lugar, falam-se, amam-se apesar de tudo (...) apesar da escuridão da noite, apesar dos projetores ferozes?76
Uma padronização e massificação da cultura e dos comportamentos – que acompanhavam/complementavam o “vazio do poder” citado por Pasollini – eram, certamente, um dos motivos da lamentação e do tom apocalíptico do cineasta em seus escritos; os “projetores ferozes” da sociedade do espetáculo teriam ofuscado os pequenos lampejos intermitentes, as manifestações artísticas verdadeiramente poéticas, criativas e astuciosas. “Cultura é a regra; e arte exceção”, versou Jean Luc-Godard. Nesse sentido, se vivemos tempos de globalização, de consumo desenfreado, homogeneização das subjetividades, espetacularização das cidades e o consequente esvaziamento dos seus espaços públicos, não seriam os lampejos criativos – as pequenas, porém vigorosas luzes dos vaga-lumes – extremamente necessárias? Assim como aponta Didi-Huberman, também acreditamos que os vaga-lumes não desapareceram por 71 DIDI- HUBERMAN, 2011, p.30
72 Idem.
73 PASOLLINI apud DIDI- HUBERMAN, 2011, p.26 74 Idem.
75 DIDI-HUBERMAN, 2011, p. 38. 76 Ibidem. p.45
completo. As resistências micropolíticas se proliferam por toda parte, de maneira sutil, em constante processo de desterritorialização e reterritorialização77. Os coletivos artísticos atuam nessa direção: seguem realizandorevoadas incertas, esses pequenos seres – uma reunião de espectros em miniatura78 - unidos pela amizade e por desejos em comum. Sim: amizade e amor
permeiam os voos dos pirilampos, pois suas revoadas ocorrem na busca pela cópula (os machos buscam as fêmeas a partir dos seus lampejos; os diferentes ritmos de emissão da luz por seus corpos são formas de comunicação e de aproximação sexual): esses pequenos insetos emitem seus fachos de luz em voos amorosos79, como coloca Pasollini.O afeto e a empatia, em uma
instância relacional, portanto, são elementos indissociáveis das práticas colaborativas.
Os ferozes holofotes, na atualidade, permanecem instaurando estados de cegueira generalizados. Seria ingenuidade pensar que os coletivos e suas práticas, em certos momentos, não seriam ofuscados – ou quem sabe atraídos – pelas luzes espetaculares dos holofotes que iluminam diferentes territorialidades nas cidades e na sociedade como um todo. A micropolítica dos vagalumes se instaura nessa contradição: de um lado, as luzes ofuscantes dos holofotes espetaculares; do outro, a escuridão imensa que estorva a visão das pequenas e efêmeras revoadas luminescentes.
Giorgio Agamben afirma que todos os tempos seriam obscuros para quem deles experimenta contemporaneidade80, sendo que uma completa imersão nessa obscuridade (uma total aderência a ela) seria prejudicial para a percepção do presente, da realidade que nos circunda; uma completa e perfeita aderência ao próprio tempo viria a instaurar uma certa alienação e posição acrítica. O filósofo aponta que o poeta (aqui pedimos licença para estender o termo “poeta” para “artista”) deve estar atento ao seu tempo, sendo uma contínua atenção – e um pequeno distanciamento – necessários para a visualização desse escuro. O contemporâneo, para Agamben, seria justamente aquele que não se deixa cegar pelas luzes do seu tempo, mas percebe atentamente as suas trevas, e, quem sabe, algumas pequenas luzes (a apreensão da resoluta luz81, como escreve
o filósofo)... a percepção – ou a emissão - dessas pequenas luzes, talvez, apresente ao artista contemporâneo um compromisso ético-político.
Em meio a uma obscuridade consensual, os vaga-lumes emitem luzes que se opõem a esse escuro quase que absoluto, engendrando pequenas resistências que desassossegam, e podem, por vezes, mostrarem-se incompreensíveis ou até mesmo passarem despercebidas. Num determinado espaço-tempo marcado por normas e convenções sociais, as diminutas luzes dos vaga-lumes sinalizam elementos aparentemente obliterados que passam a ser vistos, e, quem sabe, questionados. Essas pequeninas intermitências, as diferentes ações colaborativas 77 No capítulo a seguir, voltaremos aos termos desterritorialização e reterritorialização tomando como referência os escritos do geógrafo Rogério Haesbert sobre o conceito de territorialidade.
78 Ibidem. p.14
79 DIDI-HUBERMAN, op. cit. 80 AGAMBEN, 2009, p.63 81 Ibidem. p.72
realizadas no meio urbano, atuando nas sombras, nas brechas ou na luz do dia82, com suas
reflexões, convocam todos os indivíduos a tornarem-se agentes na cidade, propositores de novas narrativas e territorialidades. Poderíamos aqui nos referir à possível atuação política de cada indivíduo explicitada nas máximas “a revolução somos nós” e “cada homem é um artista”, em que Joseph Beuys convida a todos a instaurar uma nova maneira de olhar a realidade que nos circunda. Transformar a política em arte. Daí a arte alargada como intervenção social83. Arte entendida
enquanto atitude ético-política, movimento contínuo, prática inextricavelmente ligada à vida. Em 1972 (três anos antes da profetização de Pasollini acerca da desaparição dos vaga-lumes) Beuys declarava: o presente é caracterizado por toda parte por uma forte tendência à despolitização, à privatização, ao conformismo. É nossa tarefa fazer, por todos os meios possíveis, com que as pessoas voltem (...) a retomar o seu inato sentido de coletivismo84. Será que, em alguma medida,
a revoada dos vaga-lumes seria uma retomada da coletividade nas cidades?
Muito embora os coletivos surjam com seus fazeres resistentes a questões que dizem respeito à cidade e suas problemáticas político-sociais, eles também podem instaurar micro resistências no sistema artístico de uma maneira geral. Uma ação vaga-lume pode se inserir no sistema artístico e nele propor uma série de críticas necessárias, que talvez permanecessem apagadas se lançadas à margem desse mesmo sistema.
As forças micropolíticas e macropolíticas – que poderíamos chamar, também de moleculares e molares85 – atuam simultaneamente:
...as duas formas não se distinguem simplesmente pelas dimensões, como uma forma pequena e uma grande; e se é verdade que o molecular opera no detalhe e passa por pequenos grupos, nem por isso ele é menos coextensivo a todo campo social, tanto quanto a organização molar86
Se, por um lado, o Estado, a sociedade, a cidade e suas instituições operam a partir de macroestruturas, regidas por determinados dispositivos, tais estruturas são constantemente atravessadas por forças micropolíticas, linhas de fuga e fluxos moleculares, como apontam Deleuze e Guattari; forças que escapam às organizações molares e seus agenciamentos complexos. Essas pequenas resistências ligadas às subjetividades, desejos e afetos, ao nosso ver, abrangem as práticas coletivas, as quais podemos chamar de ações vaga-lumes, a partir das premissas de Didi-Huberman colocadas anteriormente. São ações erráticas, minúsculas - ativas e potentes – se comparadas às estruturas molares dos grandes centros urbanos, por exemplo. 82 ROSAS, Ricardo. Notas sobre o coletivismo artístico no Brasil. Disponível em: http://p.php.uol.com.br/ tropico/html/textos/2578,1.shl
83 RODRIGUES, Jacinto. Joseph Beuys: Um Filósofo na Arte e na Cidade. http://www.ipv.pt/millenium/ Millenium25/25_24.htm