Um deslocamento substancial no enfoque dos estudos jornal’sticos ganha for•a nos anos 1950 com a Teoria do Gatekeeper, proposta por White75. Influenciada pela psicologia social, a proposta ent‹o Ž centrar esfor•os na an‡lise de como se d‹o os processos de sele•‹o dos aspectos da realidade que ganhar‹o status de not’cia. Por que a queda de um avi‹o Ž not’cia, e a queda de um homem na rua, n‹o? Ou, de modo mais nebuloso: por que um
acidente fatal Ž not’cia se envolver uma personalidade, mas, se envolver apenas an™nimos, n‹o o ser‡?
A Teoria do Gatekeeper compara, metaforicamente, jornalistas a zeladores ou porteiros de edif’cios: cabe a eles selecionar quem entra no templo dourado da m’dia (as p‡ginas de jornal, os minutos de r‡dio ou TV). Na Teoria do Gatekeeper o jornalismo passa de espelho da realidade para ÒespelhoÓ das vis›es de mundo do jornalista.
Ap—s observar e entrevistar um editor de telŽgrafo respons‡vel pela sele•‹o dos temas que ganhariam a primeira p‡gina do jornal, White76 concluiu que a Òcomunica•‹o de Ônot’ciasÕ Ž extremamente subjetiva e dependente de ju’zos de valor, baseados na experi•ncia, atitudes e expectativas do gatekeeperÓ.
A vari‡vel da subjetividade humana estava, enfim, sendo considerada nos estudos sobre o jornalismo.
Embora fundamental no campo jornal’stico, oferecendo uma nova perspectiva aos estudos da Žpoca, o trabalho de White n‹o tardou a ser contestado. Uma das mais relevantes cr’ticas a ele parte de Hirsch77, que, ao rever os dados da pesquisa de White, concluiu que estatisticamente as Ònormas profissionais superavam as distor•›es subjetivasÓ. Em outras palavras, o autor localiza dentro das escolhas do editor-modelo de White um padr‹o, que vem a ser semelhante ˆs escolhas feitas pelas ag•ncias de not’cias: sua escolha pessoal Ž portanto condicionada por um formato imposto de forma transorganizacional78. Anos antes, em obra de 1964, Walter Gieber j‡ havia apontado, em um estudo com 16 editores de jornais americanos, poucas diferen•as entre as sele•›es feitas entre os diferentes —rg‹os. Crescia ent‹o a hip—tese de uma cultura organizacional e deontol—gica paralela ˆ subjetividade stricto sensu do editor Ð observa•‹o que abriria caminho, anos depois, ˆ elabora•‹o de teorias mais complexas, trazendo ˆ tona a no•‹o de uma produ•‹o social dos sentidos (observando, portanto, simultaneamente os papeis do leitor, do jornalista, da organiza•‹o e da sociedade como produtores e atribuidores de sentidos).
Assim, da mesma maneira do que a Teoria do Espelho, a do Gatekeeper n‹o Ž imune a cr’ticas. E a mais recorrente delas Ž justamente esta, que contesta a pr‡tica de considerar o jornalista isoladamente como principal filtro da not’cia, negligenciando o papel das organiza•›es e das ordens deontol—gicas da categoria nesse processo Ð e, na atualidade,
sobretudo por ignorar a constru•‹o social dos sentidos. Ou seja, a not’cia Ž somente analisada a partir de quem a produz, ignorando c—digos de classe ou organiza•‹o, conteœdos sociais e arquet’picos, dentro da teoria do Gatekeeper Ð hoje, portanto, igualmente insatisfat—ria para compreender o cen‡rio atual de produ•‹o e consumo de not’cias.
Nos œltimos anos tem se disseminado, entre as empresas de comunica•‹o, a no•‹o de ÒcuradoriaÓ em substitui•‹o ao paradigma do jornalista zelador, porteiro, gatekeeper. O curador, na opini‹o do editor-executivo da Folha de S.Paulo, SŽrgio D‡vila (vide a integra de seu depoimento a esta pesquisa na se•‹o Anexos), Ž aquele que ajuda o leitor a se guiar num cen‡rio de overdose de informa•‹o, a selecionar as que s‹o mais relevantes em determinado momento, apresentando-as de forma contextualizada e clara Ð sem a pretens‹o autorit‡ria, contudo, de um porteiro que regula o acesso ˆ torre dourada da informa•‹o. Lembra D‡vila que Òo jornal impresso foi por muitas dŽcadas o jornal do registro, tudo o que acontecia de relevante tinha de entrar naquele jornal. Os americanos falam the newspaper of record, que o New York Times se orgulhava por anos de ser. Tudo o que acontecia de relevante no mundo naquele per’odo de 24 horas voc• encontraria no New York Times no dia seguinte. Hoje em dia eu acho que o jornal Ž muito mais uma curadoria dessa cacofonia que bombardeou o leitor nas œltimas 24 horas. Ele Ž menos Ôolha, leitor, isso Ž tudo o que aconteceu nas œltimas 24 horasÕ. E mais Ôisso Ž tudo o que n—s, jornalistas da Folha de S.Paulo, no meu caso, achamos importante voc• saber que aconteceu nas œltimas 24 horasÕ. ƒ desta maneira que n—s interpretamos o que aconteceu e que n—s analisamos o que aconteceu.Ó
A insufici•ncia da Teoria do Gatekeeper havia sido observada por te—ricos do jornalismo muito antes dos anos 2000 e da populariza•‹o da internet e da ÒcacofoniaÓ informativa dela derivada.
A Teoria da Organiza•‹o, cujos primeiros estudos s‹o de Warren Breed em 195579 e apareceram no artigo Social Control in the Newsroom, na revista Social Forces, critica a •nfase excessiva na figura do editor da Teoria do Gatekeeper e enfatiza o papel das pol’ticas e filosofias editoriais da empresa jornal’stica na maneira como trabalham os jornalistas e como s‹o constru’das as not’cias. Ou, segundo Breed, Òtodos, com a exce•‹o dos novos, sabem qual Ž a pol’tica editorial. Quando interrogados, respondem que a aprendem por osmose. Em termos sociol—gicos, isto significa que se socializam e Ôaprendem as regrasÕ como um ne—fito numa subcultura. Basicamente, a aprendizagem da pol’tica editorial Ž um processo atravŽs do qual o novato descobre e interioriza os direitos e as obriga•›es do seu estatuto, bem como as
suas normas e valores. Aprende a antever aquilo que se espera dele, a fim de obter recompensas e evitar penalidadesÓ.
Assim, parece suprir uma lacuna na Teoria do Gatekeeper e, em vez de estudar a pessoa a partir da qual se desencadeia o processo de produ•‹o de not’cias, volta aten•›es ˆ empresa jornal’stica. Minimizando o aspecto individual na an‡lise, refina o conceito de mercado e de not’cia como produto. A cultura profissional ou individual do jornalista Ž sobreposta pela cultura da empresa numa abordagem funcionalista em que o aspecto econ™mico Ž primordial: not’cia Ž o que vende, segundo os estudos e estat’sticas de mercado da companhia jornal’stica, e o rep—rter absorve essa cultura subrepticiamente e a coloca em pr‡tica no seu cotidiano, pouco agindo contra essa ideologia.