O CETAD foi criado como um Serviço de Extensão Permanente com o objetivo de prestar atendimento especializado, atenuar os problemas relacionados ao abuso de drogas a nível individual e social, levando à comunidade informações que possibilitassem a prevenção. Para realizar estes objetivos, desde o início estruturou eixos de trabalho que incluíam a clínica ambulatorial, sempre alimentada e oxigenada a partir da construção de projetos que permitiam o deslocamento aos espaços da cidade e às cenas de uso. Entendemos que nestes momentos de trabalhos “na rua” a universidade construiu uma importante ponte e a manutenção de um diálogo com a população mais vulnerável. Ou, nas próprias palavras de Nery: “o encontro entre
excluídos-invisíveis e incluídos-visíveis e que esse encontro pudesse ser considerado através de olhares cruzados”.
Esse cruzamento de olhares permitiu que profissionais com visibilidade social utilizassem uma parte desta luminosidade para desloca-la a outros humanos, resultando em experiências compartilhadas, troca de saberes. O trabalho com a redução de danos ilustra muito bem o que representa uma Ecologia de Saberes praticada pela universidade, no momento em que os conhecimentos dos usuários, suas experiências de vida e as estratégias de cuidado, entram em diálogo com os conhecimentos científicos, resultando num saber que traz a contribuição de ambos, usuários e profissionais, cada qual do seu modo. Esse saber produzido pelo diálogo foi fundamental para a eficácia das ações, que conseguiam acessar as reais necessidades desta população.
Naquele momento ainda era muito difícil dar um protagonismo aos usuários, seja pela criminalização do uso, risco de que seu engajamento fosse confundido com apologia ao consumo, ou forte estigma e preconceito social contra esse grupo de pessoas. O fato é que não havia iniciativas por parte de movimentos sociais que encabeçassem essa luta. Desta forma, o professor Nery desempenhou um importante protagonismo, sendo que para um trabalho futuro ele acredita ser necessário “[...] fazer com os usuários, e não mais fazer para”:
115 “Se hoje, 2019, os usuários ainda estão lutando para abrir algum espaço na elaboração das políticas públicas relacionadas com os usuários de drogas, através das associações de pessoas em situação de rua, você imagine, voltando para trás, quanto mais você andar para trás mais verá como estas pessoas eram estigmatizadas, excluídas”.
“Então quando a gente pensa em 80, 85, não havia a menor possibilidade de colocar essas pessoas para participarem, isso não passou pela minha cabeça. Aí foi uma coisa bem paternalista. Mas era um paternalismo diferenciado, porque, em que pese a gente ofertar, era uma oferta que propunha que o outro se reconhecesse nessa oferta, então o outro não estava fora. É mais recente a ideia de ‘Nada para nós sem nós’, da população em situação de rua, que eu adotei rapidamente porque não me foi difícil, porque eu sempre estive nesse lugar do reconhecimento”.
Já um pouco mais distante das atividades do CETAD, no ano de 2013 Nery se aposenta e a coordenação do Centro foi assumida pelo psiquiatra George Gusmão, também vinculado à Faculdade de Medicina. A mudança na coordenação revela que este é de fato um momento oportuno para se refletir não somente a respeito do passado, mas também sobre seu futuro, já que além da mudança da coordenação o Centro também deixou de estar vinculado ao departamento de Patologia e Medicina Legal – antes Anatomia Patológica e Medicina Legal - e se torna um Serviço Especializado da Faculdade de Medicina:
“O departamento apoiou irrestritamente todo o meu trabalho de atenção e assistência aos usuários de drogas, incluindo as transgressões como troca de seringas, a criação do consultório de rua. Agora, é preciso reconhecer também que o departamento nunca se associou, na prática, a este trabalho. Sustentou o trabalho, autorizou o trabalho, mas esse era um trabalho do professor Nery. Quer uma prova disso? Quando eu me aposento o Departamento propõe a separação da atual gestão do CETAD, que se torna então um Serviço Especializado vinculado a direção da faculdade e não mais ao Departamento. Reconheçamos que, o Departamento apoiava a proposta do seu professor, o que não é sem importância”.
As universidades públicas brasileiras são reconhecidas pela relevância da prestação de serviços médico-assistenciais prestados à população de baixa renda nos “hospitais universitários”, e em ambulatórios especializados, configurando-se simultaneamente como campo de prática para os estudantes dos cursos da área de saúde (ARAÚJO e LETA, 2014).
Apesar da importância deste tipo de assistência à população, acreditamos que o grande diferencial do CETAD foi ter sido não apenas um reprodutor de práticas assistenciais e de pesquisa, mas um espaço de criação e inovação que aconteciam através da relação mantida e
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do diálogo com a comunidade, trabalhos estes que podem ser considerados como uma espécie de “oxigenação” que renovava e dava vida ao trabalho. O CETAD realizou então seu papel extensionista de uma forma ampla e abrangente, através de cursos e capacitações, cooperações técnicas com o governo, assessorias, pesquisas e prestação de serviços e diálogo com a comunidade.
Um outro ponto de análise, e que a fala de Nery nos indica claramente, é que para a universidade, este sempre foi um projeto vinculado a um professor. Apesar do enorme reconhecimento nacional e internacional, o Centro não conseguiu inserir este tema numa agenda da Universidade Federal da Bahia:
“Então digamos assim, que o trabalho do CETAD repercutia sob a universidade, que o reconhecia, mas a universidade nunca disse assim: ‘vamos fazer na universidade um trabalho, por exemplo, de informação para o corpo docente, corpo discente. Isso a gente nunca conseguiu fazer, nunca conseguimos colocar isso na agenda da universidade”.
Sendo provavelmente um dos serviços de extensão universitária da UFBA com maior duração, com grande alcance de pessoas atendidas e beneficiadas por este trabalho, com reconhecimento nacional e internacional, acreditamos que a Universidade Federal da Bahia subaproveitou os recursos deste serviço, até mesmo para a realização de um trabalho interno, junto a funcionários ou estudantes, por exemplo. Diversas parcerias poderiam surgir entre o CETAD e unidades da UFBA; Pensando no futuro, consideramos este um tema fundamental para ser abordado no âmbito da universidade.