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Para melhor compreensão do gênero de DC recorremos mais uma vez ao histórico levantado por Rojo (2008). A autora coloca que a ciência foi um dos bens culturais que entraram na disputa social a partir do final da idade média com a ideia de di-vulgar, de proporcionar o conhecimento ao trabalhador, ao povo, os bens culturais valorizados foram organizados pelos intelectuais da Revolução Francesa, os iluministas do século XVIII. O gênero de DC e os didáticos surgem dessa vontade política. Acrescenta a autora que esses bens foram disputados pelos homens livres: padres, burguesia, iluministas e, inclusive, os trabalhadores. Ao final da idade média, no Ocidente, todas as classes tiveram acesso à escolarização, à escola obrigatória e universal, currículos e seleção dos conhecimentos científicos.

O ensino da filosofia, história, gramática, retórica, lógica/diálética, geometria, música e astronomia era subsidiado pelos textos didáticos. Contudo, a ação de maior impacto foi a organização da Enciclopédia, por Diderot e d’Alembert; essa ação levou mais de vinte anos e resultou em vinte volumes, com verbetes e conceitos científicos, porém não organizados por temas científicos, mas pela aleatória ordem alfabética. No início, a obra foi proibida e perseguida pela igreja e pelos soberanos, acusada de estabelecer o espírito de independência e de revolta, como destruir a autoridade real. “Assim, a Enciclopédia inaugura uma nova maneira de fazer circular as idéias científicas e coloca à disposição do povo um enorme conjunto de textos organizados para divulgação. Com isso, consolidam-se dois gêneros de discurso muito presentes na escola e no ensino: a própria enciclopédia/dicionário como hoje o conhecemos e o verbete” (ROJO, 2008 p. 589).

Leibruder (2000), por sua vez, declara que o discurso de divulgação científica busca propiciar ao leitor leigo o contato com o universo da ciência por meio de uma

linguagem que lhe seja próxima; porém aspectos característicos do discurso científico, tais como a objetividade e a impessoalidade da linguagem, se encontram presentes; “[...] incorpora no seu fio discursivo tanto elementos provenientes daquele que lhe serve de fonte - o discurso científico - quanto daquele que pretende atingir - o discurso jornalístico” (LEIBRUDER, 2000, p. 230). No discurso de DC, tanto o discurso fonte que sustenta o da ciência como a mídia ou os meios de comunicação social que veiculam sua divulgação estão sujeitos às condições históricas e culturais e até aos interesses dos divulgadores ou dos órgãos que o propagam.

Assim sendo, entendemos que definir o conceito de divulgação científica torna-se um trabalho bastante complexo pela diversidade de textos que o abrange, pelas atividades em que está inserido, pela transformação do discurso que sai da esfera científica e vai a outra esfera midiática ou didática, por exemplo. Em diferentes suportes são publicados o discurso de DC, como: verbete de enciclopédia, artigo, folheto educativo, programação informativa televisiva, palestra para popularizar a ciência, revistas, livro didático, suplemento infantil, documentário, programa especial de rádio e televisão, etc. O discurso de DC adquire finalidade e peculiaridade próprias dependendo da esfera/campos de comunicação discursiva em que se encontra inserido, podendo ser o científico, o educacional e o jornalístico; do mesmo modo acontece em função do destinatário: “Como é impossível que os autores (em geral cientistas) saibam de antemão quem lerá o artigo escrito por ele, seu leitor é idealizado, baseado em pesquisas sobre quem compra/assina/lê as revistas. Podemos chamar esse leitor desconhecido, mas suposto, leitor-modelo” (ROJO 2008, p. 593).

Além do mais, Rojo (2005), apoiando-se em Bakhtin, expõe que

“as esferas comunicativas são as relações entre os parceiros da enunciação e não se dão no vácuo social. São estruturadas e determinadas pelas formas de organização e de distribuição dos lugares sociais nas diferentes instituições e situações sociais de produção dos discursos (p. 197)”.

Assim sendo, o homem participa de atividades sociais envolvidas na linguagem oral, escrita ou até de outro tipo. Elas se organizam por contextos/esferas sociais de atividade ou de comunicação. Os que participam dessas práticas assumem papéis e lugares bem diferentes, com valores e opiniões diversas. Por exemplo, o professor assume diferentes papéis em sua vida social como pai, marido, professor, às vezes aluno, às vezes vendedor etc.

Zamboni (2001) declara que o discurso da divulgação científica constitui um gênero de discurso específico, autônomo, em relação ao discurso científico; exige do divulgador um trabalho efetivo de formulação porque constitui um discurso novo, diferente, com transformação da linguagem especializada para a linguagem não especializada, um gênero discursivo particular, distinto do gênero do discurso científico. Assim, DC é “resultado de um efetivo trabalho de formulação discursiva, na qual se revela uma ação comunicativa que parte de um “outro” discurso e se dirige para outro “destinatário” (ZAMBONI, 2001, p. XIX). A referida autora discorda da interpretação de Authier (1982) que caracteriza o discurso de DC como uma atividade de reformulação que o transforma em fonte, em discurso segundo, o da divulgação científica por ser destinado a um interlocutor diferente do público para o qual se destina o discurso científico.

Zamboni (2001) justifica suas reflexões sobre o discurso de DC dizendo que é um gênero próprio de discurso e que não pertence ao mesmo campo do gênero do discurso científico. Esclarece que o gênero de DC mantém relação com o discurso da ciência, mas o divulgador participa de condições de produção totalmente distintas. Isto é: os aspectos de construção do discurso realizados pelos cientistas são outros, porque os destinatários e o contexto sócio-histórico mudaram.

No gênero de DC tem-se um novo enunciador, um novo destinatário, uma nova construção composicional, uma nova situação social; há preocupação real com a construção da interlocução. Portanto, a atividade de produção da divulgação assume a natureza de um efetivo trabalho de formulação de um novo discurso que se articula, sob várias formas, com o discurso da ciência, mas não como um mero produto de reformulação de linguagem. Com esse entendimento, destacamos a definição de Zamboni (2001), embora saibamos que outros estudos ocorrem e dialogam construindo mais conhecimentos. A busca por uma definição específica talvez não fosse tão salutar como a de desejar conhecer e procurar dialogar com o conhecimento, o pensamento do outro.

Leibruder (2000) destaca que, no discurso científico, o objeto ocupa a posição de sujeito discursivo, oculta, apaga a existência do homem com o discurso da neutralidade, veracidade. Não revela que existe um sujeito que escolhe um tema e os materiais; é fruto de uma realidade cultural, histórica e social. Por trás do discurso, existe um autor que pensa e apresenta evidências de fatos para convencer, justificar, mostrar as vantagens. O autor apresenta-se não envolvido. Camufla-se assim a presença do sujeito discursivo. A neutralidade, legitimidade, impessoalidade são usadas como características para dar

credibilidade, persuadir, convencer o leitor da realidade exposta, do discurso proferido. É um embate de discurso com presença idealizada de um auditório social. O discurso de DC, por fazer parte do gênero secundário, é sempre organizado com base em ideologias, crenças de um grupo social, cultural e se apresenta principalmente por intermédio da escrita, com todo poder que esta representa e exerce.

Nesse sentido, recorremos a Bakthtin (1995) que assim se expressa:

O livro, isto é, o ato da fala impresso, constitui igualmente um elemento da comunicação verbal. [...] o ato de fala sob a forma de livro é sempre orientado em função das intervenções anteriores na mesma esfera de atividade, tanto as do próprio autor como as de outros autores [...] o discurso é de certa maneira parte integrante de uma discussão ideológica em grande escala: ele responde a alguma coisa, refuta, confirma, antecipa as respostas e objeções potenciais, procura apoio, etc (p. 123). Ainda segundo Bakhtin (2003), o campo cultural embarga as obras artísticas e a científica; o autor da obra revela seu estilo, sua visão de mundo, em todos os elementos de sua obra. Assim, entendemos que não há como manter a neutralidade do sujeito; sempre subexistem sua posição, suas crenças, suas ideologias, suas finalidades, seus objetivos a serem alcançadas. Bakthin (2003) diz que a marca da individualidade, presente na obra, cria princípios interiores específicos que a separam de outras obras a ela vinculadas no processo de comunicação discursiva de um dado campo cultural.

Tal como mencionado, para Bakhtin (2003), os gêneros do discurso apresentam três dimensões interligadas e indissociáveis no todo do discurso, aqui particularmente voltados para o gênero de DC, os quais serão descritos a seguir: