Refraction surveying 4
2.5 Second example of a seismic refraction application: Hydrogeology
As metrópoles brasileiras estão concentrando hoje a problemática social, cujo lado mais evidente e dramático é a exacerbação da violência. Neste cenário, os homicídios, em especial o juvenil, têm merecido crescente interesse tanto pela mídia, quanto pelo poder público e academia.
Esse fenômeno guarda relações fortes com os processos de segregação sócio- espacial, cujas fronteiras simbólicas e ambientais, distinguem classes e grupos sociais, em particular, àqueles moradores de áreas centrais ou tradicionais, bem atendidos em termos de serviços públicos e sociais, que convivem em relativa integração, os estabelecidos; e de outro, àqueles moradores, comumente estrangeiros, imigrantes, os representantes das classes perigosas, que convivem e sobrevivem em espaços periféricos, vivendo simultâneos processos de exclusão social, os outsiders.
Este quadro de total fragmentação advém da adoção de um modelo de desenvolvimento, cujo princípio norteador está na dissociação entre economia, sociedade e território. Tal modelo de desenvolvimento, cunhado na esteira da transição do modo de produção agrário-exportador para o urbano-industrial, pós-1930 privilegiou a acumulação do capital, negligenciando e submetendo o social.
Em resumo, o cenário de desigualdade social e violência, e de constituição de regiões criminalizadas, presenciado em muitas metrópoles brasileiras – e nos municípios objeto deste estudo - ocupam hoje posição central nos dilemas políticos sociais e econômicos de nossa sociedade, expressam os efeitos mais dramáticos da nossa condição histórica de periferia da expansão capitalista, da imposição de um padrão de urbanização, fruto das conseqüências de uma acelerada industrialização, modernização e desenvolvimento.
É válido destacar que esse modelo de urbanização está em comum acordo com as necessidades de reprodução da força de trabalho, ou do trabalho excedente. Em outras palavras o modelo de urbanização reflete o
descompasso entre custo da reprodução da força de trabalho e os salários reais. Para resgatar Oliveira (2008), podemos apontar que a contradição brasileira esta na manutenção de relações de produção arcaicas, que se mantém num cenário de transformação para urbano. De forma, que não é inocente a condição de assalariamento e porque não dizer, empobrecimento da maioria da população, isso reflete sobremaneira a manutenção de um controle social, preservação de estruturas de poder.
Assim sendo, deixados a própria sorte, dentro dos proventos que possuía a população, em particular de operários, constituídos em sua maioria de migrantes das áreas rurais, utilizavam da própria força de trabalho para ocupar em sua maioria por meio de invasão as áreas periféricas das cidades de Guarapari e Anchieta, cenário não diferente do verificado por Siqueira (2006) em relação à Grande Vitória.
Percebeu-se ao longo das visitas de campo e dos relatos dos moradores dos bairros, o completo abandono destas comunidades. Nisso, percebe-se que a ausência do Estado, demarcada pela completa carência em termos de infraestrutura e da oferta de serviços públicos de qualidade e quantidade necessários, como saúde, educação, transporte, saneamento, segurança pública, esporte, lazer e cultura, favorece um condicionamento dessas populações a mecanismos de reprodução da desigualdade e pobreza, reiterando a condição de exclusão e impulsionando segregação sócio-espacial. O que se verifica é que essa concentração de populações pobres em regiões comumente estigmatizadas promove ao longo do tempo, um tipo de sociabilidade marcada pela fragilidade e instabilidade – reflexo das condições de isolamento e instabilidade econômica. E como conseqüência observa-se nestes bairros: a) a existência de práticas clientelísticas, de cooptação e compra de voto; b) o predomínio de uma concepção de que a violência, em particular o homicídio são resultado de destinos individuais; c) baixo nível de associativismo e cooperação, fruto do medo, e da perda de referenciais em função do baixo compartilhamento de experiências.
A fragilidade e isolamento destas comunidades propiciam a presença do tráfico de drogas, e isso, por si só é fator estimulante para a construção de percepções coletivas estigmatizadoras, que terminar por fortalecer a orientação de segregação social. Fortalecendo em última instância as práticas discriminatórias em relação aos bairros, Adalberto Simão Nader, Kubistchek em Guarapari e Recanto do Sol e Mãe-bá em Anchieta. Sendo que neste último, o passado das Casas de prostituição penetrou de tal forma no tecido social que o estigma permanece.
Por fim, tal cenário de exclusão, fragilidade e isolamento promove uma fragmentação da própria identidade destas populações. A principal vítima neste fenômeno são as crianças e jovens que tendo tido formadas suas subjetividades sob a influência dessa atmosfera – aliado a ausência de políticas públicas de juventude - absorvem posições sociais pautadas e estigmatizadas como sendo verdadeiros destinos. E, desta forma sofre ao longo do tempo um processo de objetivação, que os anula em sua subjetividade e identidade. Os jovens pobres, moradores destas comunidades sofrem de uma estigmatização e, consequentemente de uma dupla exclusão: a primeira por parte dos moradores mais antigos da comunidade a qual pertencem, e que deveriam acolhê-los, apontando assim para uma segregação geracional; por outro lado, são considerados enquanto classe perigosa, que devem ser evitados e contidos.
Em últimas palavras, o estudo revela que estamos diante de um desafio histórico – de construção de mecanismos de re-significação dos espaços e de re-significação da cidade. O cenário de pobreza, exclusão e criminalização destes espaços deve ser compreendido enquanto dentro de um contexto histórico que marcou o final do século XX, que além dos impactos na esfera econômica e no mundo do trabalho, enfraqueceu, por assim dizer, as relações dos indivíduos com a sociedade e entre os indivíduos, portanto, a necessidade de transformação por meio do restabelecimento destas relações que somente pode ocorrer por meio da afetividade e por meio da instituição de uma política pública de caráter integrador.
Da instituição de um novo modelo de gestão, que não mais privilegie o desenvolvimento econômico, mas uma nova proposta de cidade e de sociedade, onde cooperação e compaixão restabeleçam o que há de mais humano nas cidades.
Ver a realidade em fragmentos, e conviver numa cidade em fragmentos nos faz míopes e impotentes frente a problemática da criminalidade e da vitimização. Tal como um artesão frente aos pedaços disformes, que isolados não passam de objetos descartáveis, mas que juntos nos fornecem um mosaico de cores e de vida. Assim estão nossas cidades, fragmentadas em regiões e bairros. E assim, nossa sociedade, que não pensa e sente como coletividade, mas como indivíduos em convivência forçada. Devemos mudar a forma de ver, as nossas percepções. E, sobretudo, devemos deixar de ver a cidade através de números, mas sim, percebê-la naquilo que de mais humano possui, suas pessoas, suas histórias e assim, reescrever nosso destino.
REFERÊNCIAS
Documentação Primária
ESPÍRITO SANTO (estado). Instituto de Apoio a Pesquisa e ao Desenvolvimento Jones dos Santos Neves (IJSN). Perfil Básico de Anchieta. Vitória: IJSN, 2008.
_______. Instituto de Apoio a Pesquisa e ao Desenvolvimento Jones dos Santos Neves (IJSN). Região Metropolitana da Grande Vitória. Vitória, 2006. INSTITUTO JONES DOS SANTOS NEVES. Anuário Estatístico 1980/85, Vitória, 1987.
_______. Anuário Estatístico 1975/76. Vitória, 1979. _______. Anuário Estatístico 1965, Vitória, 1966.
_______. Migrações Internas do Espírito Santo, Vitória, 1979. _______. Microrregião Metropolitana Expandida Sul, Vitória, 2000.
PREFEITURA MUNICIPAL DE ANCHIETA. Plano Diretor Municipal de Anchieta. Anchieta, 2006. ISSN 01046098.
RODRIGUES, M.B.F. e CRUZ, D.S. [et. alli]. Plano de Segurança Local. Diagnóstico Histórico-sociológico. Relatório Técnico. Vitória: Secretaria de Defesa Social da Prefeitura Municipal de Serra\ES, 2007.
RODRIGUES, Marcia B.F. [et. alli]. Diagnóstico Serra Cidade da Paz. Vitória: FCAA/NEI/SDS Serra, 2007.
Bibliografia específica
ALMEIDA, Rita de Cássia Barcellos. Formação Metropolitana: A Grande Vitória (1995-2005). 2009. Dissertação (mestrado em história das relações políticas), Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2009.
ALVARENGA, Andréa Curtiss. Reflexões sobre as consequências da implantação de grandes empreendimentos no município de Anchieta-ES. 2010. Dissertação (mestrado em arquitetura e urbanismo), Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2010.
BARBOSA, Isabella Batalha Muniz. O lugar no contexto das redes globais: o pólo industrial e de serviços de Anchieta, ES - uma paisagem em transformação. 2010. Tese (Doutorado em Paisagem e Ambiente) - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010. BATALHA, Ricardo Soneghet. INCENTIVOS FISCAIS E FINANCEIROS- FISCAIS: UMA ANÁLISE JURÍDICA SOB A ÓTICA DO DESENVOLVIMENTO REGIONAL: O Caso FUNDAP (Brasil 1988 – 2005).2005. Dissertação (mestrado em direito)- Faculdade de direito de Campo, Campos dos Goytacazes, 2005.
BITTENCOURT, Gabriel. A Formação Econômica do Espírito Santo. (Roteiro da Industrialização). Rio de Janeiro: Liv. Ed. Cátedra, 1987.
BUFFON, José Antônio [et. alli]. Uso e Ocupação do Solo Urbano. Vitória: CDV/Projeto Vitória do Futuro, mimeo, 1996, p. 8-9.
_______. O café e a urbanização no Espírito Santo: aspectos econômicos e demográficos de uma agricultura familiar. 1992. Dissertação (Mestrado em economia)-Universidade de Campinas, Campinas, 1992.
FAUSTO, Boris. A revolução de 1930. In: MOTTA, Carlos Guilherme (org.) Brasil em perspectiva. 19ª. Ed. Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 1990, p. 227-253.
GOMES, Ângela de Castro. Cap. 5: O redescobrimento do Brasil.. Rio de Janeiro: IUPERJ-Vértice, 1988. In: A invenção do trabalhismo, p. 205-228. GRAESER, B. B. Guarapari, de suas mais remotas lembranças aos dias de hoje. 2005. Entrevista concedida a Tyago Ribeiro Hoffmann, Guarapari, 20 de maio de 2005. In: HOFFMAN, Tyago Ribeiro. Guarapari Cidade Saúde: Um estudo da relação existente entre capital social e desenvolvimento local.
2005. Dissertação (mestrado em economia), Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2005.
HABERT, Nadine. A Década de 70. Apogeu e crise da ditadura militar brasileira. São Paulo: Ed. Ática, 1992.
HOFFMAN, Tyago Ribeiro. Guarapari Cidade Saúde: Um estudo da relação existente entre capital social e desenvolvimento local. 2005. Dissertação (mestrado em economia), Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2005.
IANNI, Octavio. A ideia de Brasil moderno. São Paulo: Brasiliense, 1992. MATTOS, Rossana Ferreira da Silva. Segregação sócio-espacial e violência urbana na região metropolitana da Grande Vitória. In: Ver. Dimensões, v.25, 2010, p. 249-265.
NADER, Maria Beatriz. Mudanças Econômicas e relações conjugais: os novos paradigmas na relação mulher casamento. Vitória (ES) 1970-2000. 2003. Tese (doutorado em História) Faculdade de Filosofia, letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003.
OLIVEIRA, Francisco de. Crítica a razão dualista: o ornitorrinco. São Paulo: Boitempo Editorial, 2008.
MAGALHÃES, Macedo; MACEDO, Fernando Cesar. Formação econômica do Espírito Santo: do isolamento econômico à inserção aos mercados nacional e internacional. Revista de História Regional, Vol. 16, n. 1, 2011. Disponível
em: http://www.revistas2.uepg.br/index.php/rhr/article/view/2421. Acesso em:
o2 jun.2012.
ROCHA, Haroldo Correa. A crise do Café gera a expansão da indústria. In: Revista do Instituto Jones dos Santos Neves, Ano IV, nº 01, Jan/Mar., 1986.
ROCHA, Haroldo Correa e MORANDI, Ângela Maria. Cafeicultura e Grande Indústria: a transição no Espírito Santo 1955/1985. Vitória: FCAA, 1991.
SILVA, Marta Zorzal e. A Vale do Rio Doce na estratégia do desenvolvimento brasileiro. Vitória: EDUFES, 2004.
SINGER, Paul Israel. Desenvolvimento econômico e evolução urbana: análise da evolução econômica de São Paulo, Blumenau, Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife. São Paulo: Ed. Nacional, 1977.
_______. A crise do milagre. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976, 168 p.
SIQUEIRA, M. da P. S. Crescimento urbano: modernização e fragmentação social. In Maria da Penha Smarzaro Siqueira (org.). Sociedade e Pobreza. Vitória: UFES/PPGHIS, 2006.
_______. Industrialização e empobrecimento urbano. O caso da Grande Vitória (1950-1980). Vitória: Grafitusa editora, 2010.
SOUZA FILHO, Hildo Medeiros de. A Modernização Violenta: Principais Transformações na Agricultura Capixaba. Campinas, Unicamp, 1990. (pp. 130- 181).
Bibliografia de apoio
AUGÉ, MARC. POR UMA ANTROPOLOGIA DA MOBILIDADE. Maceió: Edufal: UNESP, 2010
BARROS, José D’Assunção. O Projeto de Pesquisa em História. Da escolha do tema ao quadro teórico. Rio de Janeiro: Vozes, 2007.
BAUMAN, Zigmunt. Confiança e medo na cidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2009.
BAUER, Martin W; GASKELL, Geroge. Pesquisa Qualitativa com texto, imagem e som. Um manual prático. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 2002
CERQUEIRA FILHO, Gisálio. A ideologia do favor & A ignorância simbólica da lei. Rio de Janeiro: CEUEP, 1993.
COIMBRA, Ceccilia M. B.; NASCIMENTO, Maria Lívia do. Jovens pobres: o mito da periculosidade. In: FRAGA, Paulo César Pontes; IULIANELLI, Jorge Atílio Silva (Org.). Jovens em Tempo Real. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2003, p.19-37.
ELIAS, Norbert, 1897-1990. Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
RODRIGUES, Márcia Barros F. (Org.). Exercícios de Indiciarismo. Vitória: UFES/PPGHIS, 2006.
FRAGA, Paulo Cesar Pontes. Da favela ao sertão: juventude, narcotráfico e institucionalidade. In: FRAGA, Paulo César Pontes; IULIANELLI, Jorge Atílio Silva (Org.). Jovens em Tempo Real. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2003. HAGUETTE, Teresa Maria Frota. Metodologias qualitativas na sociologia. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2003.
LAGROU, Pieter. Sobre a atualidade da História do tempo presente. In: PÔRTO, Gilson Junior (Org.). História do Tempo Presente. São Paulo: Edusc, 2007, p. 31 a 45.
LE GOFF, Jacques. História e Memória. São Paulo: Ed. Unicamp, 1990.
PEREGRINO, Mônica. E o bonde abalou! Contenção, juventude e embate nas escolas do Rio. In: FRAGA, Paulo C. Pontes; IULIANELLI, Jorge Atílio S. (Org.). Jovens em Tempo Real. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2003, p. 221- 236.
REVEL, Jacques. Jogos de Escalas: a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1998.
RODRIGUES, Marcia B.F. e REIS, Leonardo Marchezi dos.” Industrialização, urbanização e os impactos: a violência urbana no município da Serra no Espírito Santo Brasil” (2005-2008). In Revista Preleção, nº9 abril de 2011, Vitória: PMES/DEIP, 2011.
SOARES, Gláucio Ary Dillon. Não Matarás: desenvolvimento, desigualdade e homicídios. Rio de Janeiro: FGV, 2008.
SOUZA, Clementino de (org.). Autobiografias, histórias de vida e formação. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2006.
ZALUAR, Alba. A máquina e a revolta. As organizações populares e o significado da pobreza. São Paulo: Brasiliense, 1985.
_______. Da Revolta ao Crime S.A. São Paulo: Ed. Moderna, 1996.
WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da violência dos municípios brasileiros. Brasília: Ministério da Justiça, Ministério da Saúde, Instituto Sangari. RITLA, 2008
Sites
ARQUIVO PÚBLICO DO ESPÍRITO SANTO. In: http://www.ape.es.gov.br/
Acesso: set/2011 a mar/2012.
BIBLIOTECA DA PRESIDÊNCIA. In: http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/
Acesso: mai/2012.
INSTITUTO JONES DOS SANTOS NEVES. In: http://www.ijsn.es.gov.br/
Acesso: set/2011 a mar/2012.
SAMARCO MINERAÇÃO S.A. In: www.samarco.com.br . Acesso: out/2011. GAZETA ONLINE. In: http://gazetaonline.globo.com . Acesso: abr/2011
COMPANHIA VALE DO RIO DOCE. In: http://www.vale.com . Acesso: out/ 2011.
PREFEITURA MUNICIPAL DE ANCHIETA. In: http://www.anchieta.es.gov.br/
Acesso: set/2011 a mar/2012.
PREFEITURA MUNICIPAL DE GUARAPARI. In: http://www.guarapari.es.gov. br/ . Acesso: set/2011 a mar/2012.
ANEXOS
ROTEIRO