Chapitre 03 : Approche Technique
3- Le second œuvre :
À retomada do poder das finanças, Chesnais (2005) atrela ainda duas consequências: o forte poder de centralização do capital em âmbito nacional e transnacional comandada pelos investidores financeiros em processos de aquisição e fusão; e o modo como o capital financeiro conseguiu alocar a “externalidade da produção” no próprio seio do setor produtivo. As desregulamentações e o capital já acumulado pelos investidores financeiros permitiram que estes se tornassem proprietários ou acionistas de grandes grupos industriais.
Após os anos 1980, os proprietários-acionistas envidaram esforços para garantir a subordinação da produção industrial à lógica da valorização financeira. Assim, os administradores dos fundos de pensão e de aplicações, concentradores de capital por excelência, pressionam suas empresas no sentindo de garantir taxas de rendimentos bastante elevadas. Os novos administradores são submetidos assim, conforme salienta Chesnais, “à retórica, se não à realidade dessa exigência”. De acordo com o autor, uma década foi
suficiente para que os novos administradores entendessem e incorporassem os interesses da
corporate governance, alterando a figura típica do “administrador-industrial” para a figura do “administrador-financeiro”, que passa a gerenciar em acordo com virtualidade da valorização financeira. “Ele [o administrador-financeiro] contornou rapidamente o controle do qual era, a princípio, objeto. Mas suas prioridades são muito diferentes das do administrador-industrial que ele substituiu. Os grupos são dirigidos por pessoas para as quais a tendência da Bolsa é mais importante que qualquer outra coisa” (CHESNAIS, 2005, p. 54). O capital financeiro assume, em grande medida, a coordenação do sistema produtivo, engendrando neste a sua lógica e, consequentemente, atrelando-o ao desenvolvimento e à gestão das crises financeiras.
As consequências da subserviência às pressões do mercado financeiro e às normas de rentabilidade vão recair sobre os trabalhadores. O modelo de produção flexível e o desenvolvimento de novas formas gerenciais, baseados no uso das tecnologias da informação e da comunicação, sobretudo da telemática e da microeletrônica, possibilitaram que o setor produtivo se adequasse a dinâmica instável das finanças. A busca insaciável por valorização, com redução dos gastos e ampliação dos lucros, representaram uma reestruturação do mercado de trabalho com a redução do emprego regular e o incremento das contratações sazonais ou subcontratações, com rápida destruição e reconstrução das habilidades, crescimento reduzido e, por vezes, até nulo do salário real, e aumento do desemprego estrutural e do trabalho informal. Harvey (2007) destaca que a onda de subcontratação abriu possibilidades para a formação de pequenos negócios e para a ampliação do nível de trabalho informal, que passaram a ter importância central no sistema produtivo. Além disso, o autor chama atenção para o fato de que a flexibilidade empregatícia nem sempre causa uma insatisfação imediata do trabalhador, uma vez que pode ser mutuamente benéfica. Contudo, como um todo, o resultado é de perdas dos direitos trabalhistas, como seguro, pensões, progressão salarial, estabilidade no emprego e perda do poder sindical.
A acumulação flexível representou, portanto, não o fim do assalariamento e da compra da força de trabalho, mas uma ampliação das formas de contratação, com possibilidades mais precárias e informais. O trabalho informal, fenômeno antigo nos países de Terceiro Mundo, foi ampliado significativamente nos países desenvolvidos. Mas quem continuou assumindo esses postos foram, em geral, os imigrantes daqueles países, levando a uma convergência desigual entre os sistemas de trabalho do “terceiro” e “primeiro” mundo. No tocante à ampliação do desemprego, Santos lembra que o capitalismo segue a tendência de crescente substituição do trabalho vivo por trabalho morto, dentro da perspectiva de “cientifização da produção” inerente às suas formas de acumulação. Contudo, não se pode afirmar que o
capital passa a prescindir do trabalho vivo, ainda que a lógica imanente seja de negá-lo até o máximo limite.
Segundo Harvey (2007), o que ocorre é um redesenho do mercado de trabalho. Há, portanto, um núcleo duro de trabalhadores que gozam de emprego com tempo integral, maior estabilidade empregatícia, planos de carreira e seguridade social. Esse grupo, cada vez mais reduzido, deve ter flexibilidade geográfica podendo ser transferidos a qualquer momento. O autor destaca que, mesmo em períodos de crise, esse grupo pode ser subcontratado. Fora do núcleo central estão dois grupos de trabalhadores: o primeiro, composto por trabalhadores em tempo integral, mas que desempenham funções burocráticas e manuais, fáceis de encontrar no mercado de trabalho e, portanto, mais fáceis de demitir em caso de “necessidade de redução de custos”. O outro grupo é conformado por pessoas contratadas por meio de contratos flexíveis e adaptáveis, como trabalhadores temporários, casuais, terceirizados, subcontratados e estagiários. Esta categoria, por dispor de mínima seguridade e ser menos custosa para o empregador, tem crescido significativamente nos últimos anos. Essa fragmentação e precarização do trabalho, com a redução do chamado stand employment
relationship típico do Estado de Bem-estar, tem levado a uma perda do poder e da consciência de classe, enfatizando o individualismo.
Um outro aspecto do processo de reestruturação do capitalismo que atingiu a organização do trabalho é a expansão do setor de serviços e o crescimento da participação deste no PIB. Este aspecto está ligado tanto à desregulamentação dos serviços bancários e, posteriormente, à desregulamentação e às privatizações dos grandes serviços públicos, a partir dos anos 1980, quanto ao fenômeno das terceirizações que transferiu para este setor grande parte dos trabalhos antes realizados no interior das indústrias. Há uma dificuldade em definir quais as atividades que compõe setor de serviços, de modo que ele vem sendo definido por exclusão aos demais. Ou seja, trata-se das atividades que não correspondem aos setores primário e secundário, como serviços bancários e financeiros, comércio de mercadorias, turismo, serviços públicos e aqueles prestados por indivíduos de forma autônoma. Alguns estudos consideram os serviços uma área que perpassam os demais setores econômicos.
[…] há diversos casos de profissionais que atualmente executam as mesmas tarefas que executavam há alguns anos, mas não as executam mais no espaço do planta produtiva de uma empresa do setor manufatureiro industrial, mas em escritórios ou em casa, com trabalho contratado pela mesma empresa que antes o empregava. Há também casos em que o profissional mantém-se no mesmo espaço físico do tempo em que estava ocupado como assalariado de uma empresa do setor industrial, mas seu contrato de trabalho é diferente do caso anterior, ou seja, o trabalhador foi
‘terceirizado’ e sua ocupação, estatisticamente, entra na classificação do setor
terciário, embora, na verdade ele atue de forma clara e explícita para uma empresa do setor industrial (BOLAÑO & MATTOS, 2004, p. 2).
Os autores destacam ainda que outras profissões ou ocupações que também são classificadas como serviços foram criadas a partir do desenvolvimento de novas atividades industriais ou do avanço tecnológico em atividades industriais já existentes, como a atividade de webmaster ou de criação e programação de softwares. Como salienta Santos (2004), a industrialização dos serviços está atrelada a introdução e a ampliação do uso das TIC, vinculadas também ao desenvolvimento de novas formas organizacionais e de comercialização dos serviços, que modificaram as relações entre produtor e consumidor.
Os novos modelos organizacionais e as novas formas produtivas estão ainda articuladas ao processo de reconfiguração da grande empresa, que no intuito de reduzir gastos, segmentar a produção e capilarizar os sistemas de distribuição, passaram a se organizar de forma reticular configurando o que alguns autores vão chamar de empresa-rede (Chesnais, 1996) ou firma-rede (CARLEIAL, 2000; SANTOS, 2004).
2.5 Firmas Multinacionais, IED e nova divisão internacional do trabalho