Em paralelo com a visão de James, os trabalhos científicos de Barker, Gibson e Bronfenbrenner se embasaram na perspectiva darwiniana dos ecossistemas. As construções teóricas desses autores se estabeleceram em um período no qual a realidade científica da psicologia era expressivamente experimental e de caráter individualista. Com esta realidade científica posta, os métodos e conceitos trabalhados por eles para lidar com comportamento humano de maneira ecológica foi duramente criticado (Heft, 2013). Em seu trabalho
Ecological Psychology, Barker (1968) defendeu que a psicologia ecológica lida com unidades
físicas, sociais, biológicas e comportamentais, sendo essas indissociáveis e autogeradas, com
locus de espaço-tempo, em um limite ininterrupto de padrão interno e padrão externo, e com
características de ocorrência independente do feedback do investigador.
Para Barker (1968), o meio ambiente ecológico não pode ser descoberto usando-se o comportamento da pessoa como único ponto de referência. Isso não é devido aocomportamento em si, mas porque o ambiente ecológico compreende uma classe diferente de fenômenos. Para explicar essa questão, ele exemplifica estabelecendo uma relação de problemas de alunos com um efeito luminoso em uma sala. Barker apresentou a importância de se conhecer aspectos sobre luminosidade, matriz ótica, comportamento humano. Entretanto
o ponto de vista defendido por ele era que nem o comportamento, nem a teoria óptica, nem a luminosidade dão conta do fenômeno em partes isoladas. Para ele a abordagem compreensiva do fenômeno é uma abordagem ecológica (sistêmica): “by these criteria, an electron, a person, and a waterfall are ecological units” (Barker, 1968, p. 11). Rivlin (2003) complementa essa questão afirmando que o ambiente é experienciado como um todo, o que “não significa que suas dimensões não possam ser lembradas separadamente, e sim que a natureza fenomenológica da experiência proporciona um sentido de campo unitário” (p. 217).
Outro paralelo de abordagem ecológica na compreensão do ambiente é o modelo bioecológico de Bronfenbrenner (1979/1996). Ele utilizou como base da ecologia do desenvolvimento humano, a compreensão de uma relação dinâmica entre a pessoa, o processo, o contexto e o tempo. Para Bronfenbrenner, a classificação de ambiente ecológico seria dividida com um enfoque psicossocial, em quatro sistemas: no microssistema, no qual as relações interpessoais são dadas face-a-face, a pessoa participa e possui papéis sociais (casa, trabalho, etc.); o meso e o exossistema que consistem em processos que ocorrem entre dois ou mais contextos, no meso (a pessoa está inserida) e no exo (ao menos em um deles, a pessoa em desenvolvimento sofre influências, mas não participa); e o macrossistema que comporta características de sistemas mais amplos como cultura, educação, política, por exemplo. Para ele, os efeitos do ambiente ecológico se manifestam através das interações das pessoas nos vários microssistemas os quais a pessoa experiencia (Elali, 2012; Pinheiro, 2007; Santos, 2012).
A contribuição de Bronfenbrenner para a psicologia ecológica não se restringe à cooperação no entendimento das inter-relações entre os processos das pessoas em desenvolvimento (caracterizada pelo sistema integrado dos processos cognitivos, sociais, afetivos, emocionais, motivacionais), mas também na expansão do escopo de ambiente proposto por Lewin (Campos-de Carvalho, Cavalcante, & Nóbrega, 2011). Ao conceber o
ambiente ecológico como algo além da situação imediata que influencia a pessoa em desenvolvimento, ele posicionou a pessoa e o ambiente com propriedades interdependentes e mutáveis.
Na abordagem ecológica de Gibson também encontramos uma maneira de se conceber o ambiente de maneira ecológica. Sua teoria representou implicações significativas para a psicologia, sinalizando para uma visão diferenciada sobre a relação pessoa-ambiente. Nas páginas iniciais de The ecological approach of visual perception, Gibson (1979) oferece uma análise sobre conceito do "ambiente", apresentando-o de maneira relacional e posicionando-o reciprocamente a "um animal (ou pelo menos um organismo) a ser cercado" (p. 8). Desta forma, o conceito de "animal" implica um ambiente, porque sem um ambiente circundante o animal simplesmente não poderia existir. Essa visão da mutualidade animal-meio ambiente é claramente expressa na ideia do econicho. Em síntese, essas construções científicas (Barker, Bronfenbrenner e Gibson) demonstram compreensões do comportamento humano a partir de um olhar ecológico, conduzindo a um entendimento da relação pessoa-ambiente e dos fenômenos psicológicos envolvidos de maneira relacional.
Os pressupostos da abordagem ecológica são sintetizados por Heft (2013), demonstrando algumas características da aproximação ecológica utilizadas nos estudos da psicologia ambiental. São eles: (1) a reciprocidade animal (homem)-ambiente; (2) os padrões de mudanças e ações; (3) a variação; (4) o ambiente significado através da perspectiva do
behavior setting; (5) as estruturas socioculturais; e (6) o ambiente significado através da
perspectiva das affordances. A reciprocidade pessoa-ambiente é fundamental na concepção de econicho na abordagem ecológica. Ela trata de influências e modificações mútuas (pessoa- ambiente), como forma de se atingir necessidades e objetivos (funcionalidade percebida) (Bronfenbrenner, 1993; Gibson, 1968; Heft, 2007b; Ittelson, et al, 1974; Stokols, 1978, 1995). O econicho e a ação são complementares (reciprocidade), pois as propriedades do econicho
estabelecem e são estabelecidas por meio de ações e restrições dos significados percebidos. Heft (2013) exemplifica a questão observando que um econicho é específico para cada espécie e que em áreas delimitadas (ecossistema) temos diversos econichos. Identificando um econicho se especifica a espécie.
Na abordagem ecológica uma análise da pessoa em relação ao seu ambiente segue uma lógica de “separação inclusiva”, um paralelo à natureza de sistemas abertos. Em um sistema aberto a interação com o ambiente externo possui relação de reciprocidade e são chamados normalmente de sistemas orgânicos (Bertalanffy, 1973; Campos-de-Carvalho, Cavalcante, & Nóbrega, 2011; Valsiner, & Benigni, 1986).
O segundo pressuposto utilizado na abordagem ecológica são os padrões de mudanças e ações. Gibson (1986/2015) defende que nos processos de percepção-ação participam mudanças ontogenéticas caracterizadas pela interação entre a filogenia (características da espécie), ontogenia (histórico de desenvolvimento e da aprendizagem) e o contexto sociocultural. Em sua teoria, a mudança requer ajustamento no econicho envolvendo ações estruturadas a partir de um significado funcional percebido e de uma adaptabilidade ecossistêmica emoldurada pelo tempo.
Embora a questão temporal seja tratada mais especificamente na próxima seção, antecipo que a moldura temporal envolve também aspectos da filogenia, da ontogenia e do contexto. As mudanças e as ações organizam-se por meio de múltiplas escalas temporais dentro da experiência ambiental (Gibson, 1968; Heft, 2013; Sommer, 1979). O locus espaço- tempo apontado também por Barker (1968) integra a unidade do ambiente ecológico. Segundo Pinheiro e Gurgel (2011) e Pinheiro (2012), o tempo não é reconhecido concretamente e a representação temporal interna ajuda as pessoas a organizarem mentalmente suas experiências em conformidade com perspectivas temporais de passado, presente e futuro. Esse fluxo
contínuo de experiências temporais, proporcionam ordem, coerência e influenciam o comportamento (no caso, a ação).
A terceira característica da abordagem ecológica, a variação é um dos aspectos mais óbvios do comportamento humano. Todos os dias da vida de uma pessoa são marcados por grandes flutuações em quase todos os atributos discrimináveis de seu comportamento: na inteligência que exibe, na velocidade com que se move, a emoção que expressa, etc. Os registros contínuos do comportamento das crianças analisados por Barker e seus colaboradores mostraram que o aspecto em constante mudança do fluxo de comportamento das crianças envolvia problemas de bem-estar, quietude e atividade, sucesso e fracasso, dominação e submissão, respostas corretas e respostas erradas, interesse e tédio, entre outras (Barker, 1968).
Essa dimensão da variação humana foi citada por Barker como algo notável até por leigos, contudo ele apontou que a psicologia científica se preocupava mais com outra dimensão da variabilidade de comportamento, a saber, com diferenças entre indivíduos. Ao tratar decomportamento e ambiente ecológico, Barker (1968) defendeu que o “comportamento momentâneo de uma pessoa é completamente determinado pelo seu espaço vital, mas se quisermos entender mais do que a seção transversal imediata do comportamento, o conhecimento do ambiente ecológico é essencial” (p. 9).
O ambiente significado por meio da teoria do behavior setting é outra característica da abordagem ecológica. Como já posicionado, as configurações de comportamento não nulificam diferenças individuais, apenas posicionam variações individuais dentro do ambiente ecológico. Barker (1968) exemplifica essa questão citando o cenário de um casamento na igreja, no qual são programadas diferenças individuais: os convidados, a noiva, a dama de honra, o noivo, o padrinho, o pai, o ministro, etc. Cada indivíduo é orientado a se comportar de maneira diferente. E o programa exige grande variação no comportamento deles: a noiva
deve esperar, ela deve andar devagar, ela deve repetir depois do ministro, ela deve cumprimentar os convidados, etc. Apesar das diferenças individuais e papéis serem diversificados, o programa do ambiente ecológico direciona as ações de maneira exclusiva, diferentemente de configurações de comportamento de show de rock, por exemplo.
Estruturas socioculturais também são parte integrante das características da abordagem ecológica e definidoras do econicho humano. Como já dito, a distinção entre o social e cultural não é coerente no ambiente ecológico, uma vez que as estruturas socioculturais permitem um tipo de pertencimento resultante de um conjunto de cognições compartilhadas por componentes dessa unidade social (Zimring, & Peatross, 2007).
As características do ambiente ecológico, segundo Heft (2013), Tomassello (1999) e Gibson (1979) são percebidas por meio das affordances e são produtos de atividades socioculturais estruturadas a partir de padrões de interação social, os quais permitem ajustes de adaptação ou de integração. O conceito das affordances será mais discutido na seção que trata de percepção. Todavia antecipo que elas são relacionais e se referem simultaneamente ao organismo e às propriedades ambientais (Gibson, 1986/2015; Günther, 2011; Heft, 2013).
Compreender fenômenos psicológicos por meio da abordagem ecológica envolve desafios metodológicos, teóricos e analíticos. Winkel, Saegert, e Evans (2009) sugerem como ferramenta de viabilização de estudos ecológicos, o reexame crítico da dicotomia objetiva- subjetiva caracterizada nos padrões qualitativos e quantitativos das pesquisas da psicologia ambiental; o reconhecimento que o processo psicológico está imerso no contexto físico, econômico e social; um nível de análise que olhe para a relação recíproca que existe entre agentes individuais e os contextos socioambientais nos quais os indivíduos estão envolvidos;a necessidade do acolhimento do individual em unidades ecológicas mais amplas como cultura, grupos sociais ou terrenos geográficos; e compreender as pessoas baseando-se não somente em variáveis individuais (gênero, personalidade, estado de vida, sistemas de crenças
ambientais, etc.), mas compreender a natureza da resposta humana baseada em ambiente ecológico e por fim, um dos aspectos mais desafiadores apresentados por eles: o desdobramento e articulação dinâmica da pessoa e o ambiente através do tempo.