4. Different representations of SCOR 1. SCOR original model
4.3. SCOR/OWL
Em termos genéricos, a análise dos dados recolhidos permitiu-nos verificar que os nove entrevistados (n=9) referiram que a mediação de conflitos contribui para a construção do perfil do aluno. Trata-se de uma ilação genérica, uma vez que as repostas dadas pelos professores se focaram mais nas potencialidades da mediação e menos nas referências do perfil do aluno.
Iniciamos a análise de dados dando destaque à resposta do professor PA4, que referiu que a mediação contribui para o perfil do aluno pelos melhores motivos, devendo por isso ser obrigatória.
“É essencial (…) considero essencial a mediação nas escolas e deveria ser obrigatório, porque efetivamente contribui para o perfil pelos melhores motivos…” (PA4, 211-213). “… no que concerne ao conflito … altera o perfil do aluno, para melhor” (PA4, 215-216).
A análise dos dados permitiu-nos agrupar as respostas, sobre o contributo da mediação para a construção do perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória, da seguinte forma:
I. A mediação de conflitos potencia competências essenciais para a formação da pessoa cidadã e o exercício da cidadania:
“A mediação de conflitos é tão abrangente …, ajuda tanto o aluno a refletir, a pensar nas suas atitudes, nas consequências, no outro … que é fundamental para o exercício da cidadania. … quer-se, … que o aluno saía da escola também um bom cidadão. Nesta perspetiva, parece-me muito importante a mediação” (PA3, 201-205).
“o perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória centra-se muito na cidadania estando nós ao nível da cidadania, a mediação vai ser um grande contributo para o aluno para o formar enquanto cidadão …” (PA8, 202-204).
“e se a mediação lhe permitir isto, ele vai ser, … um melhor cidadão” (PA8, 223-224). “… vai ser de grande importância…” (PA8, 230); “… atividades no sentido de irmos ao encontro da melhor formação dos nossos alunos enquanto cidadãos” (PA8, 307-308).
“… hoje quere-se, … que o aluno saía da escola … um bom cidadão … parece-me muito importante a mediação” (PA3, 203-205).
A mediação de conflitos impele à participação cívica de todos, desenvolve a responsabilidade e reforça o respeito pelos outros contribuindo para que a escola ajude aos alunos a serem mais justos, coerentes, livres e felizes” (PA3, 228-230).
“… cidadãos mais ativos, informados, responsáveis, tolerantes, integrados e integradores” (PA3, 240).
Silva (2018, p.27) sustenta que “a mediação é uma cultura de paz e cidadania, essencial para o desenvolvimento de sociedades sustentáveis, humanistas e críticas”.
II. A mediação potencia, tanto nos alunos mediadores como nos alunos mediados, competências relacionais que serão úteis aos alunos ao longo da vida, destacando-as no âmago do perfil dos alunos a construir ao longo da escolaridade, tais como: saber ouvir e respeitar o outro, ser crítico e interventivo, a colocar-se no lugar do outro:
“… aluno que nós queremos que seja um cidadão critico, que seja um cidadão
interventivo na sociedade (…) desenvolvermos a capacidade de saber ouvir o outro, respeitar o outro de tolerar para conviver harmoniosamente (…) estas são competências que ele vai precisar quando sair da escola e como cidadão” (PA1, 189-193).
“Põe-se sempre na situação do outro e refletir…” (PA5, 139);
“colocar-se no lugar do outro … se trabalharmos esse tipo de competências, …. são muito relevantes para o perfil do aluno (PA7, 149-151)
“aceitar o outro, as suas opiniões” (PA2, 249).
“o exercício de empatia, de se colocar no lugar do outro, … vai desenvolver valores de extrema importância no aluno” (PA8, 226-227).
III. A mediação desenvolve competências comunicacionais, como por exemplo a empatia e a comunicação:
“… a empatia é uma das competências que a grande maioria dos nossos alunos não tem (PA7, 153-154); “A comunicação é outra competência fundamental” (PA7, 152-153). “comunicar de uma forma eficiente (…) encontrar formas de resolver problemas (…)” PA3, 237-238); “… comunicar de uma forma eficiente e encontrar formas de resolver problemas …” (PA2, 268-269).
“saber ouvir (…)” (PA3, 237) “Capacidade de ouvir o outro (…)” (PA6, 253); “… a mediação ajuda [a] … saber ouvir o outro/escuta ativa” (PA7, 187-188).
IV. A mediação constitui uma mais-valia para o futuro do aluno, uma vez que o prepara para uma nova atitude e comportamento face aos conflitos, para estar em sociedade e no futuro profissional:
“… a mediação também é uma mais valia, … porque obriga a pensar … antes de dizer, pensar … antes de agredir e por outro lado acaba por ser uma mais valia para o futuro [do aluno] … [ao] presenciarem conflitos … possivelmente vão ter um comportamento
diferente perante o outro…” (PA2, 217-222).
“… desde a parte humanista do aluno à parte de ousadia, à parte de valores éticos e morais … incutidas pela família …, mas que são postos em prática em sociedade” (PA4, 262-264).
“O aluno torna-se mais calmo, mais assertivo … é um conjunto de situações que o leva a melhorar” (PA5, 169-170, 172).
“o saber estar (..) o saber resolver as situações de uma forma pacifica” (PA5, 148-149). “coerência adaptabilidade e ousadia também sustentabilidade e estabilidade, tudo isto, a mediação posta em prática pode ajudar muito” (PA6, 227-228).
“capacidade de resolver situações, (…) ouvir e até também criticar, aconselhar, apoiar. Está aí uma série de nuances todas interligadas. … um clima de mais tolerância, relacionamento interpessoal facilitado. … a influência [da mediação] pode ser muito boa” (PA6, 253-256).
“porque o pressuposto da mediação é resolver, solucionar o conflito (…) o convívio em sociedade. Ao saber lidar com determinadas situações em diferentes contextos profissionais e mesmo pessoais conseguem ter outras ferramentas que sem a mediação se calhar, podiam não ter” (PA7, 163-166).
“… ficam mais atentos ao outro e à sociedade em que estão inseridos” (PA9, 160).
V. A mediação de conflitos articula-se com os valores e princípios inscritos no perfil do aluno, tal como descrito no ponto 3 do capítulo II do enquadramento teórico, como a tolerância, a diversidade e a diferença, a liberdade, a participação e a responsabilidade, a transversalidade. “Os valores são, assim, entendidos como os elementos e as características éticas, (…) e justificam o seu modo de estar e agir” (Martins, 2017 p. 9). Os “princípios justificam e dão sentido a cada uma das ações [científicas e/ou sociais] relacionadas com a execução e a gestão do currículo na escola (…)” (Martins, 2017, p. 9).
“Os valores [princípios] que são defendidos na mediação de conflitos vão de encontro aos do Perfil do aluno porque tem uma base de respeito pelo outro (…)” (PA2, 248-249); “(…) o saber respeitar o outro (...)” (PA5, 148-149).
“Acabam por ser princípios da mediação, … por isso … faz todo o sentido a mediação existir e altera o perfil do aluno e que faz precisamente com que o aluno esteja mais alerta para as componentes mais humanistas dele, mais refletivas, mais sustentáveis, mais afetivas …” (PA4, 225-228).
“A mediação de conflitos assenta em princípios que vão ao encontro do Perfil do aluno do sec. XXI uma vez que evidencia o respeito, a aceitação e a tolerância … A escola como espaço de aprendizagem é um local onde as relações sociais são desenvolvidas de forma livre e saudável” (PA3,214-220).
“se eles [alunos] perceberem que … as pessoas são diferentes e que têm maneiras de ver as situações diferentes, … e opiniões divergente, acho que de alguma forma ajuda” (PA7, 169-171).
“… perceber que temos liberdade …, mas [tem que ser] com responsabilidade” (PA7, 182).
“… [se] tivermos … alunos que já conseguem fazer alguma mediação de coisas mais simples de uma forma autónoma, … se as coisas correrem muito bem, conseguem fazer uma mediação de casos simples … é um avanço fantástico. Responsabilidade, … participação, acho que é uma mais-valia” (PA6, 244-249).
“como questionar os seus próprios saberes e integrar conhecimentos transversais e universais” (PA2, 267-268).
A mediação promove valores que contribuem “para a melhoria das relações interpessoais. Favorece a auto regulação, através da busca de soluções autónomas e negociadas” (Torrego, 2003, p. 6).
VI. A mediação contribui para que o aluno cresça e se conheça como pessoa:
“Eu acho que é muito importante para o perfil dele. Fá-lo crescer enquanto pessoa (PA5, 138).
“Quanto mais o aluno se conhecer a si próprio e se a mediação lhe permitir isto, ele vai ser, … um melhor cidadão, tendo conhecimento de si próprio … a mediação faz muito esse exercício: de se conhecer a si próprio, de refletir … vai desenvolver valores de extrema importância no aluno” (PA8, 223-227).
Pinto da Costa (2016, p. 75) ajuda a consolidar a dimensão da construção da personalidade do indivíduo quando diz que “a mediação é uma oportunidade para os indivíduos exercitarem a compreensão, a autonomia e a autocomposição. A construção de soluções criativas…”. Ou seja, a mediação de conflitos em contexto escolar é uma mais-valia para a formação e crescimento, na vertente humanista, do aluno enquanto pessoa.
VII. A mediação contribui para a inclusão:
“Ajuda, ajuda bastante, na inclusão por exemplo, o saber estar (..)” (PA5, 148). “Acho, acho, … base humanista, … inclusão (…) (PA6, 226-227).
“A mediação de conflitos contribui de uma forma bem positiva para uma escola inclusiva e promotora de melhores aprendizagens. Desta forma, pode ser também um exercício de uma cidadania ativa e informada ao longo da vida como é referido no decreto-lei nº55 / 2018” (PA2, 260-263).
É nesse sentido que “a mediação sociopedagógica procura pôr em diálogo os interlocutores e construir terceiros lugares entre as margens por onde passam os sujeitos, sejam estes alunos, professores e outros atores sociais da comunidade educativa (…)” (Vieira, 2013, p. 34).
VIII. A mediação permite criar melhores condições para estar na sala de aula e para o estudo “O aluno torna-se mais calmo, mais assertivo, … em contexto de sala de aula a sua responsabilidade vai melhorar” (PA5, 169-170).
“Se a mediação de conflitos funcionar bem … o aluno vai ter melhores condições para estudar, para trabalhar e, portanto, o perfil dele vai ser enriquecido” (PA6, 215-216).
Em síntese, este grupo de respondentes acredita que a mediação de conflitos contribui para a construção do perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória, na medida em que enumeraram atributos e competências trabalhados, pela mediação, numa lógica de presente e, sobretudo, de futuro, que promove o desenvolvimento da personalidade dos alunos tornando-os cidadãos melhores e mais responsáveis. Ao trabalhar estas competências o aluno põe em prática a vertente afetiva /humanista que se articula com os valores e os princípios socio afetivos sugeridos no perfil do aluno. Martins (2017, p. 25) refere que no relacionamento interpessoal, os alunos devem ser capazes de “interagir com tolerância, empatia e responsabilidade e argumentar, negociar e aceitar diferentes pontos de vista, desenvolvendo novas formas de estar, olhar e participar na sociedade”. O autor refere ainda que os alunos devem ser capazes de saber usar conhecimentos de matriz humanista com recurso a metodologias e ferramentas para pensar criticamente. No quadro dos valores é de salientar que o mesmo documento refere que todas as crianças e jovens devem ser incentivadas a colocar em prática os valores que assentam a cultura de escola, nomeadamente “demonstrar respeito pela diversidade humana e cultural e agir de acordo com os princípios dos direitos humanos; negociar a solução de conflitos em prol da solidariedade e da sustentabilidade ecológica; ser interventivo, tomando a iniciativa” (p. 17), entre outros referidos no mesmo documento não menos importantes.